Parecer:

 

Solicita-me o Instituto de Novas Profissões que, como doutorado e catedrático da Universidade pública portuguesa, emita um parecer sobre o “curriculum” de Henrique José Barrilaro Fernandes Ruas, tendo em vista a respectiva contratação como Professor Auxiliar do sistema de ensino superior português.

 

A tarefa, se é honrosa, não deixa de ser paradoxal, dado que o subscritor deste parecer, nascido em 1951, sempre se considerou um discípulo intelectual daquele sobre quem se solicita o parecer.

 

Com efeito, nos principais escritos da minha autoria, desde a minha dissertação de doutoramento, sempre considerei bibliografia essencial os trabalhos de Henrique Barrilaro Ruas, com quem aprendi muito do subsolo filosófico onde assentei a minha procura da ciência política.

 

Estranha-se apenas que só agora tente fazer-se justiça a um grande nome da cultura portuguesa deste século.

 

Não quero, contudo, deixar de contribuir para essa petição, salientando que o perfil curricular do autor em análise, longe de configurar como o mero franco-atirador autodidacta, sempre foi enraizado no húmus do homo academicus bem como pela mística da universitas scientiarum, de que todos devemos ser servidores. Não lhe falta até uma longa experiência docente, bem como uma comprovada actividade de investigação científica.

 

Quem comungar da ideia de ciência como o consenso daqueles que pensam de forma racional e justa, no sentido da superação da mera opinião, tendo em vista o conhecimento e a verdade, não pode deixar de reconhecer que Henrique Barrilaro Ruas, marcado na opinião crítica portuguesa como um excelente doutrinador e um honrado homem público,  sempre assentou numa sólida base epistemológica e sempre foi marcado pela paixão do ensinar e do aprender.

 

Fui um dos seus silenciosos alunos de leitura distante, desde os tempos da minha adolescência e, com ele, aprendi que valia a pena a procura do nosso modo português de pensar a política. Infelizmente, aquilo que noutras paragens tem a dignidade académica da filosofia política, não teve, em Portugal, direito de acesso à cidadela académica, quando a liberdade não rimava com pátria e quando até não se compreendia um patriotismo científico, como ainda hoje muitos persistem em insinuar, sob a tutela das seitas positivistas e utilitaristas.

 

Os meus títulos universitários de doutor, agregado e catedrático na especialidade de ciência política, obrigam-me a reconhecer que Henrique Barrilaro Ruas exerceu, de facto, a função de científico criador na área de teoria política, onde assinalo especialmente a edição, em 1960, de Ideologia. Ensaio de Análise Histórica e Crítica, obra básica e precursora, infelizmente pouco referida pelos pretensos cultores da matéria, marcados por um ritmo de maus estrangeirados, porque não capazes de nacionalizarem tendências importadas e de reconhecerem que todo o pensamento tem uma pátria.

 

O percurso intelectual de Henrique Barrilaro Ruas tem muito da dispersão e descontinuidade que marcam a aparência do pensamento português. Contudo, há nas suas obras aquela unidade íntima do espiritualismo e do humanismo de marca aristotélica e tomista que coincidem com o núcleo central da nossa realidade permanecente. Herdeiro do principal legado do pensamento integralista, coube-lhe participar na geração que soube enriquecer essa corrente com as marcas do personalismo liberdadeiro, intuindo uma síntese que revigorou a tradição de autonomia do nosso modo de estar no mundo.

 

Orgulha-me poder contribui para que, neste caso, seja feita justiça a alguém que, desde sempre, tem sabido aliar a inteligência com a honra. E não posso deixar de reconhecer quanto o sistema de ensino superior português fica a dever ao Instituto de Novas Profissões por este acto de reconhecimento que em nada fere a legalidade do próprio estatuto da carreira docente universitária, aplicável ao ensino público.

 

A justiça sempre foi tratar desigualmente o desigual e só quem obedece à lógica dos medidores de rebanhos é que teme usar o juízo de mérito. No caso em análise, mais do que a mera licitude de juízo, impõe-se o categórico de um reconhecimento do valor de obra feita.

 

Infelizmente, não podemos deixar de apontar ao autor em análise uma falha que deve brevemente ser colmatada: a necessidade dos respectivos escritos dispersos se congregarem numa  publicação que permite que as actuais e futuras gerações possam continuar a considerá-lo como mestre na difícil arte das ideias.

 

Peço justiça

 

Em 1 de Dezembro do ano 2000

José Adelino Maltez