As empresas transnacionais

 

As empresas multinacionais ou transnacionais, as multinational corporations (MNCs), constituem hoje cerca de dez mil entidades juridicamente privadas, mas multiplicadas através de cerca de noventa mil subsidiárias, principalmente sob a forma de associação com outras entidades empresariais, privadas ou públicas, nomeadamente sob a forma de joint ventures. Dão assim corpo a uma das principais redes de actores das relações internacionais, não apenas no plano da economia e das finanças, mas também no domínio da própria política, através das mais variadas formas de influência, tanto quando se assumem como grupos de pressão, como financiam, directa ou indirectamente, a actividade  política e até tratam de pisar o minado e clássico processo da compra do poder, a que se dá o nome criminal de corrupção.

Actuando no ambiente da política, cabe também a tais entidades um importante papel em zonas que vão da luta de ideias às próprias actividades de investigação científica, onde concorrem directamente com os Estados e as organizações internacionais. E não o fazem apenas como simples Mecenas, mas com plena consciência de que só pelo software se poderão enquadrar as multiplidades produtivas do hardware.

Com efeito, cerca de seiscentas mega-empresas representam hoje um quinto do valor acrescentado da produção industrial e agrícola do mundo. Cabe também a tais empresas multinacionais cerca de 50% do comércio internacional de mercadorias, apesar de cerca de 75% de tais operações se realizarem quase em circuito fechado, entre as sedes e as respectivas subsidiárias.

Aquilo que começou por ser multinacional transformou-se hoje numa vasta constelação de interesses, com muitos cruzamentos e alianças que já não permitem detectar com segurança a nacionalidade de qualquer uma delas, tanto a nível das sedes reais de decisão, como do capital ou das elites que formam os respectivos quadros.

Curiosamente, aquilo que foi nas décadas de sessenta e setenta do século XX a análise de uma espécie de discursos de guerra entre as diabólicas multinacionais e os Estados, com a primeiras a desferirem as armas do lucro e os segundos a assumirem o valor da justiça, talvez hoje tenha perdido todo o sentido. Já lá vão os tempos do quase-manifesto de Claude Julien sobre L'Empire Américain, Paris, Grasset, 1968, ou dos receios de J.-J. Servan-Schreiber sobre Le Défi Américain.

Já nem todos os defensores do mercado são os extremistas neoliberais, ortodoxamente continuadores da economia clássica, nem o estadualismo é monopólio de certa concepção marxista ou nacional-populista de neofascismos ou justicialismos, clamando contra o neofeudalismo da anarquia ordenada.

Da esquerda à direita, dos liberalismos aos socialismos, todos nos fomos entendendo funcionalmente, numa espécie de armistício neokeynesiano, onde os mercados e os Estados trataram de promover uma espécie de exigência de corporate governance para tais empresas, consideradas responsáveis tanto perante os respectivos accionistas como realtivamente aos consumidores, fornecedores, compradores e empregados.

Na verdade, eis que quase todos os Estados, mesmo os que se consideravam na linha da frente do combate a esses diabos empresariais, a tratarem de invocar a necessidade de investimentos directos estrangeiros e transferências de tecnologias e de promoverem sucessivos casamentos das suas próprias empresas públicas com essas extensões do anterior diabo.

A própria definição de empresa multinacional ou transnacional foi alterada, passando a ser apenas o tipo de empresa que controla activos produtivos em vários países, bastando, nalguns casos, os meros 10% do capital social para que se  possam integrar na rede como subsidiárias.

As tais multinacionais já não são apenas feitas à imagem e semelhança das sete irmãs das companhias petrolíferas. Elas banalizaram-se de tal maneira, ao integrarem-se  nas redes internacionais de produção e de troca que milhares delas apenas são pequenas e médias empresas, assumindo um tamanho bem modesto.

O nome multinacional foi inventado nos anos sessenta por uma delas, a IBM, mas, desde então, tais entidades perderam o inicial sentido de direcção centralizada e burocrática, semelhante a um supergoverno clássico, transformando-se em estruturas de rede, em polvos com muitas cabeças e muito mais tentáculos que vão abraçando o mundo, pelo que alguns as chegam a qualificar como cosmocorpos, nome usado por George Ball, em 1968, e por  David Allen Baldwin, em 1971.

Aliás, eles reflectem o domínio económico mundial pela chamada tríade, dado que, das cem maiores, cerca de trinta são norte-americanas, duas dezenas, japonesas, e mais de uma dezena, alemãs. Até porque, das cem maiores entidades económicas mundiais, juntando Estados e empresas, há 56 Estados e 44 empresas.  E até convém não esquecer a intervenção directa de tais formas empresariais em movimentações políticas, foi nomeadamente detectada no derrube o governo de unidad popular, dirigido por Salvador Allende (1908-1973), no Chile, em 11 de Setembro de 1973, com a ITT aliada à CIA.

Observaremos também que se atendermos ao critério das entidades económicas, misturando Estados em termos de PNB e empresas em termos de volume de negócios, segundo dados estatísticos dos começos da década de oitenta, verificaremos que das cem maiores entidades económicas do mundo, apenas menos de metade são entidades estaduais, sendo as restantes empresas, as chamadas empresas multinacionais, algumas das quais com mais empregados que a população de alguns Estados.

A República Portuguesa, situada a meio da tabela, tinha acima de si entidades empresariais como a General Motors, a Shell, Exxon, Ford Motor, Toyota, IBM, IRI, General Electric a  British Petroleum, mas logo a seguir, a pouca distância do nosso país, seguiam-se a Daimler Benz, a Mobil a Hitachi, a Matsushita, a Philip Morris e a Fiat.

 

A General Electric tem as suas origens em 1918, absorvendo sucessivamente marcas como a Chevrolet norte-americana, a Vauxhall britânica e a Opel alemã. Um dos seus presidentes, E. Wilson, chegou a proclamar: o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos.A Royal Dutch-Shell é uma associação de uma firma holandesa criada em 1890 que, em 1907, se associou à companhia britânica Shell.  A Exxon, oriunda da Standard Oil, fundada por John D. Rockefeller (1839-1937), ainda continua a ser a principal companhia petrolífera mundial. A International Business Machines (IBM) tem origem numa firma fundada em 1880 por Hermann Hollerith, recebendo o presente nome em 1924. O IRI. A General Electric foi fundada em 1892 em Nova Iorque. A British Petroleum (BP) foi fundada em 1909, tendo tido os anteriores nomes de Anglo-Persian Oil e de Anglo-Iranian, recebendo a presente designação apenas em 1954. A Daimler-Benz quem como principal produto a marca Mercedes, nasceu em 1926 da fusão das firmas de Gottfried Dailmler e de Karl Benz. A Mobil Oil começou por ser em 1882 um dos segmentos da Standard Oil, adquirindo em 1931 a Vacuum Oil, optando pelo actual nome apenas em 1966. A Hitachi foi criada no Japão em 1910,no âmbito da produção e do transporte da energia eléctrica. A Matsushita.foi fundada no Japão em 1918. A Ford Motor Company foi fundada em 1903 por Henry Ford. A Fiat, fundada em 1899 por Giovanni Agnelli, partiu do principal grupo italiano de construção automóvel. A International Telephone and Telegraph, foi fundada em 1920. A Nestlé foi criada em 1866 na Suíça por dois norte-americanos Charles e  George Page. A Philips teve origem numa iniciativa do holandês Gerard Philips em 1891. A Unilever tem origens britânicas, sendo fundada em 1886, fundindo-se em 1929 com um grupo holandês.

 

Refira-se que as primeiras multinacionais clássicas até tiveram a sua origem em pequenos Estados europeus que, face à estreiteza dos respectivos mercados nacionais, se treinaram em mercados externos, como aconteceu com a Nestlé da Suíça e a Philips e a Unilever da Holanda. Na linha inicial foram simbólicas as grandes empresas norte-americanas, como a General Motors, a Ford, a Exxon, a General Electric e a Mobil. Na mesma senda, as equivalentes britânicas, alemãs e japonesas.

Numa segunda fase, emergiram as multinacionais oriundas dos Novos países industrializados da Ásia, da Índia aos tigres, como Hong Kong, Singapura e Coreia do Sul.

As velhas questiúnculas ideológicas que apelavam para o controlo do poder político  sobre o poder económico deixaram de ter sentido quando o Estado passou a ter intervenção na economia para além da regulação, quando o Estado, nomeadamente pelas nacionalizações, deixou de ser apenas um coordenador económico e se transformou ele mesmo em empresário, constituindo-se o sector público da economia. Só que dizer público contra privado não tem apenas que ver com a titularidade formal, com a descoberta jurídica do proprietário daquilo que constitucionalmente determinámos com o conceito marxista de meios de produção. Porque o que é bom para a Telecom parece continuar a ser bom para o Estado Português, à semelhança do que se disse da General Motors. Porque grande parte da actividade diplomática dos dias que correm tem a ver com essas informais actividades de embaixadores feitos lobistas das grandes empresas que pediram agenciamento aos respectivos governos.

É evidente que seguirmos o critério da detecção das cem maiores ou das quinhentas maiores multinacionais do mundo, podermos chegar imediatamente à conclusão que elas são, esmagadoramente, originárias dos países mais ricos. Segundo dados de 1999, das quinhentas maiores, 32% é de origem norte-americana e 31% da União Europeia, ficando o Japão com 25%. Seguem-se a Suíça (2,8%), a Coreia do Sul (2,6%), o Canadá (1,2%), o Brasil e a Austrália (ambos os países com 1%).