As
grandes religiões mundiais
Outro
importante segmento das relações internacionais tem como actores as igrejas e
os movimentos religiosos, os quais, pela sua própria natureza, nunca se
adequaram à compartimentação estadual do mundo.
Basta
recordar o perfil formal que a Igreja Católica assume perante as relações
internacionais contemporâneas, após a unificação italiana, que eliminou os
Estados Pontifícios, e o Acordo de Latrão, que reconheceu a existência de um
Estado do Vaticano.
Mas
essa monarquia electiva não é apenas um pedaço de território, anexo à Praça
de São Pedro, em Roma, dado que o respectivo povo
se reparte por muitos povos estadualmente conformados e o respectivo poder nada
tem a ver com legiões armadas ou produções económicas.
Aliás,
dentro de cada Estado, algumas actividades católicas chegam mesmo a assumir a
dimensão de um tertium genus,
distinto do público e do privado, e a que o rigor da nossa dimensão jurídica
atribui o qualificativo de concordatário,
situando, muito correctamente, no âmbito do direito internacional público.
A
Igreja Romana que assumiu a liderança da construção de uma unidade superior
às comunidades políticas existentes, promovendo a Restauração do Império
Romano, foi também um dos focos da elipse daquela res
publica christiana que, durante séculos, nos deu a unidade ocidental. E,
apesar da Reforma, do Iluminismo e do cientificismo, eis que a mesma instituição
apareceu depois da Segunda Guerra Mundial como um dos principais sustentáculos
de um projecto europeu marcado por personalidades de cunho democrata-cristão.
Basta recordar a filiação de Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide de
Gasperi, três dos pais-fundadores do actual movimento de unificação europeia.
Do
mesmo modo, importa sublinhar o papel infra-estrutural da Igreja Católica nos
movimentos profundos que, na sociedade, levaram à implosão dos sistemas
comunistas e aos acontecimentos de 1989, onde as chamadas legiões do Vaticano apareeram sempre navanguarda da coragem, como
se o Papa de então não fosse o antigo cardeal de Cracóvia, Karol Woytila.
Finalmente,
refira-se o papel que a mesma instituição tem mantido n tocante à aliança
global com os pobres e os injustiçados. Porque, sob a liderança de um papa que
veio do Segundo Mundo, a maioria dos membros do colégio cardinalício, cabe
hoje ao grupo do chamado Terceiro Mundo.