Os
indivíduos nas relações internacionais
Ninguém deixa hoje de incluir o indivíduo
como actor internacional, com acesso directo à mesma cena internacional, sem
aquelas ficções jurídicas que apenas o admitiam em tal processo, como simples
cidadãos de um determinado Estado e apenas de acordo com os mecanismos que a
ordem jurídica do mesmo previssem.
Mas se ainda não há sinais jurídicos
concretos de uma espécie de cidadania do género humano, importa salientar o
esforço prático dos construtores jurídicos de uma cidadania europeia, cumulável
com as anteriores e permanentes cidadanias estaduais.
Se ainda também não é possível um
espaço livre de estadualidade, nesse domínio, até porque o apátrida é uma
anomalia, marcada pela capitis deminutio,
talvez comece a esboçar-se essa exigência civilizacional, expressa por
Fernando Pessoa, segundo o qual o Estado está
acima do cidadão, mas o Homem está acima do Estado.
Contentemo-nos, por enquanto, com essas
experiências de repúblicas virtuais, nos domínios do cibermundo e estejamos
atentos a algumas experiências reais desses for
a de direito universais que, em muitas zonas de clandestinidade, vão
construindo autênticos off shores de
injustiça, ainda que os recubram com a áurea dos ghetos da revolta.
Se é inequívoco o papel de algumas
personalidades proeminentes, importa também assinalar os anónimos
constituintes das massas de refugiados e de turistas, bem como o processo dos
emigrantes.
A ONU, por exemplo, calculava em 1965 a
existência de 75 milhões de emigrantes, mas trinta anos depois já estimava em
120 milhões o número de pessoas vivendo fora do seu país de origem. Já
quanto aos refugiados, o PNUD referia a existência de 46 milhões em 1997, dos
quais 26 milhões tiveram que sair do seu Estado, estando abrangidos pelo
esquema de apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.
Basta recordar que as relações de
Portugal com a Europa na segunda metade do século XX, antes de serem marcadas
pela acção dos estadistas e dos seus agentes, nomeadamente os diplomatas,
foram quotidianamente exercidas pelos milhões de emigrantes, sobretudo a partir
dos anos sessenta do século XX, com a geração da valise de charton que, pelos singulares contactos de pessoa a
pessoa, anteciparam uma adesão estadual, apenas formalizada em 1985..
Mesmo a chamada expansão de Portugal no
mundo, a partir do século XVI, fez-se, sobretudo, pelo mundo que o português
individual criou, pelo aventureiro, missionário ou comerciante que precedeu, em
muitos lugares da nossa presença, o agente estadual.
A consequência desta diáspora dos
portugueses talvez represente hoje cerca de dez vezes mais homens que o conjunto
dos cidadãos da República Portuguesa e, mesmo entre estes, a população
activa interna quase equivale aos próprios emigrantes formais.
Homens de negócios, gente à procura de
trabalho, estudantes e professores, todos exercem o direito à livre comunicação
e esse primeiro dos direitos do homem que é viajar, locomover-se, procurar um
lugar onde em qualquer lugar na terra, para aí construir os seus sonhos,
naquilo que
Sérgio Buarque
de Holanda (1902-1982) qualificou como a visão
do paraíso. Aquele espírito pragmático e imediatista do aventureirismo
dos portugueses, pouco dados à ética protestante de certos burgueses de
outras paragens mais brumosas da Europa, construtores do capitalismo, que
procuraram o Novo Mundo com a esperança
de achar um paraíso feito de riqueza mundanal e beatitude celeste, que a eles
se oferecia sem reclamar labor maior, mas sim como um dom gratuito.
Refira-se também o caso das movimentações
humanas resultantes das peregrinações religiosas. Basta recordar, entre as páginas
da nossa história, o caminho de Santiago, que, de além Pirinéus, nos
trouxe vagas de gente, nomeadamente o fundador do Condado Portucalense. E não
poderemos também deixar de salientar, mais recentemente, o fenómeno de Fátima.
São também actores internacionais as personalidades de relevo
internacional, as que pelo prestígio pessoal e a título individual podem até
ganhar uma espécie de poder carismático como
Gandhi,
Bertrand Russell, Luther King, Einstein, João XXIII e Che Guevara.
Nesse grupo incluem-se tanto homens políticos, como cientistas ou artistas,
nomeadamente os protagonistas dos grandes espectáculos, do cinema e da música
ao próprio desporto.
Entre as personalidades com relevo internacional, são de destacar
os homens de Estado, principalmente os protagonistas que são responsáveis pela
política externa dos Estados mais poderosos. Muito do que se passa no mundo
depende, por exemplo, daquilo que fazem os presidentes dos Estados Unidos da América
e de outras potências.
As aventuras privadas de um
John Kennedy
ou de um
Bill Clinton, as desventuras de um
Richard Nixon,
ou os romances da família real britânica, tanto alimentam jornais de escândalos,
como levam a toda a humanidade, a dimensão simbólica da política.
Mais silenciosos, mas por vezes bem mais eficazes, são alguns
grandes funcionários internacionais, que estabelecem as grandes vias de
comunicação na política internacional.
Por vezes os países têm uma imagem externa dependente dessas
personalidades. Portugal, por exemplo, chegou a ser conhecido, na segunda metade
do século XX, pela imagem de uma fadista como
Amália Rodrigues e de um futebolista, como
Eusébio.
Depois disso, a democracia quase se identificou com o estilo de
Mário
Soares que retomou a imagem anteriormente atribuída a
Sebastião Magalhães Lima, caricaturizado como o
caixeiro viajante da República. Hoje, quase nos reduzimos a figuras como o
futebolista
Figo ou
à imagem colectiva da selecção nacional de futebol, o que não é de
estranhar para um médio país, dado que, também entre nós, poucos conhecerão
as principais personalidades políticas de outros países da Europa com a nossa
dimensão.