Estados
Quantos aos Estados, e tomando como base
analítica os que estão inscritos na ONU, verificaremos que os 51 fundadores do
clube, em 1945, se multiplicaram quase por quatro, neste dobrar do milénio,
faltando pouco mais de uma dezena, para atingirmos as duas centenas.
Acontece que, sob essa categoria
abstracta, se escondem realidades do mais variado porte e da mais diversa
estrutura, desde uma República Popular da China, que quase se assemelha a uma
civilização de 25 séculos, apenas equiparável à western civilization, a entidades cuja população pode caber num
dos nossos estádios de futebol.
Aliás, três desses Estados (Estados
Unidos, Alemanha e Japão), que alguns qualificam como tríade, representam
50% da produção mundial. Mais: segundo dados de 1990, a fatia dos 20% mais
ricos da população mundial tem 85% do rendimento mundial, enquanto a dos 20%
mais pobres, não ultrapassa 1,4% do mesmo rendimento (em 1960 a tensão
situava-se entre os 70% e os 2,3%).
Passando a comparar os Estados em termos
de superfície, convém recordar que a antiga URSS abrangia 22 400 milhares de
quilómetros quadrados, a que seguiam o Canadá, com 9 900, a China, 9 650, os
Estados Unidos, 9 400, o Brasil, 8 500, e a Austrália, 7 700, contra uns exíguos
2 250 do conjunto da União Europeia.
Em termos de população, eles até
poderiam ser agrupados em várias classes. Em primeiro lugar, duas superpotências
demográficas, como a China ( 1 300 000 000) e a Índia (840 000 000). Num
segundo grupo, três potências, com mais de 200 milhões: a União Europeia
(322), os Estados Unidos (240) e a ex-URSS (280). Num terceiro grupo, os Estados
com 100 milhões: a Indonésia (170), o Brasil (140) e o Japão (121). À volta
dos 100 milhões, o Paquistão, o Bangladesh, a Nigéria e o México. Segue-se
um pelotão de cerca de vinte Estados, entre os 20 e os 100 milhões, com cinco
europeus (Alemanha, França, Itália, Reino Unido e Turquia), cinco asiáticos
(como o Vietname, as Filipinas, a Tailândia, a Birmânia, o Irão e a Coreia do
Sul), e três americanos (Argentina, Colômbia e Canadá). O resto, em termos
estatísticos, quase não passa de mera paisagem.
Com efeito, neste domínio, se tanto o
elefante como a formiga se unidimensionalizam sob o mesmo conceito, eis que o
uso e o abuso dessa categoria abstracta acaba por desfocar uma realidade onde,
apesar de sermos todos iguais, há sempre alguns que são mais iguais do que
outros.
Somos Estados todos iguais quando nos
sentamos na Assembleia Geral da ONU, marcada pela ilusão de um
Estado, um voto, mas há sempre alguns que são mais iguais, como os cinco
membros permanentes do Conselho de Segurança da mesma organização que, além
do voto, têm, sobretudo, o veto.
Somos todos iguais na União Europeia, mas há sempre aqueles mais iguais, os
que têm uma população superior a 50 milhões de habitantes e que se assumem
como a locomotiva de um processo com
muita geometria variável e com várias
velocidades.
Porque a verdadeira igualdade está na
justiça, onde se trata o desigual, desigualmente, tanto através dos deveres
que levam ao exigir de cada um conforme as
suas possibilidades, como através de direitos, que levam ao dar a
cada um conforme as suas necessidades. O igualitarismo é, quase sempre, o
manto diáfano de uma hipocrisia que esconde a nudez forte da falta de uma
efectiva igualdade de oportunidades.
Resta saber se também são actores
internacionais, entidades como as nações sem Estado, as minorias nacionais, os
povos e as etnias. Atendendo a estas últimas, basta assinalar que, se hoje
existem quase duas centenas de Estados, avaliam-se, no mundo, entre 5 000 a 7
000 grupos étnicos diferentes, todos com potenciais condições para gerarem
movimentos separatistas ou autonómicos dentro dos Estados existentes.
Basta recordar que alguns destes grupos,
organizados em formas tribais, ainda hoje são marcantes na vida política
interna de muitos Estados, numa actividade que é internacionalmente relevante.
Assinale-se que em África, a própria democracia está, em muitos casos,
dependente de votos étnicos e a autoridade política dita racional dos modelos
de Estado tem de conviver com largas zonas de autoridade tradicional. O que
talvez explique a floresta de poderes pessoais, autoritários, ditatoriais e
totalitários, que, nesse infeliz continente, procuram mobilizar uma falsa
autoridade carismática.
Os próprios povos, isto é, as nações
sem Estado, apesar do preâmbulo da Carta das Nações Unidas começar com
um pomposo, Nós, Povos das Nações
Unidas…e de tantas vezes invocar o
direito dos povos a disporem de si mesmos…, ainda não encontrou forma
permanente de lhes dar uma representatividade, mesmo quando tenta enquadrar movimentos
de libertação nacional.
O caso dos judeus antes da fundação do
Estado de Israel ou o consequente problema dos palestinianos, por causa da fundação
dessa mesma entidade, revelam como não se afigura possível fugirmos do velho método
do Estado territorial, apesar da Acta Final da Conferência de Helsínquia, de
1975, e da Carta de Paris para uma Nova Europa, reconhecerem a necessidade de
representação das minorias nacionais.
A lista poderia estender-se a outros,
como os biafrenses, os cabindas ou os curdos, que ainda não tiveram a solução
que coube aos eritreus ou aos timorenses, mas muitos outros persistem, como os
tamil, no Sri Lanka e na Índia, as minorias húngaras ou os cipriotas, para não
falarmos dos movimentos de defesa do direito dos indígenas na América do Sul,
desde os zapatistas no México, à questão dos quinhentos povos do Brasil.
Habituados a soluções drásticas, como
a deslocação forçada de populações para se provocar a homogeneização étnicas
de alguns territórios de Estados recompostos depois da Segunda Guerra Mundial,
assistimos atónitos às recentes guerras balcânicas, onde acabámos por ser
menos tolerantes e pragmáticos do que os velhos Impérios centrais. Na capital
da Bósnia, Serajevo, verificámos como os eslavos islamizados, vivendo
maioritariamente no centro da capital, acabaram alvejados pelos eslavos
ortodoxos, que haviam sido perseguidos pela administração otomana e tiveram
que passar a viver nos arredores montanhosos, donde alguns trataram de alvejar
os seus parentes étnicos, apenas rivais em religião, num exercício de tiro ao
corpo que a todos nos envergonhou.
Seguiram-se várias limpezas étnicas e
algumas razias genocidas onde sujaram as mãos todos os grupos, de croatas católicos
a sérvios ortodoxos, para não falarmos de albaneses e bósnios islamizados. E
tudo isto bem perto do coração da Europa.
Em Jerusalém, cidade santa para as três
grandes religiões monoteístas do mundo, a territorialização desperta emoções
que levam a confrontos armados só porque se visita uma mesquita ou se quer
construir um novo templo no sítio em que outrora se encontrava o da religião
rival, como se os seguidores de Cristo não continuassem Abraão e os seguidores
de Maomé não reconhecesse Cristo.
E a este respeito, cumpre assinalar que
William Connor
, analisando
132 entidades que, em 1971, se qualificavam como Estados, chegou à conclusão
que só 12 eram nation-states, sendo
todos os outros plurinacionais: 25 tinham 10% de minorias nacionais; outros 25,
entre 11% e 25%; 31, entre 26% e 50%; 39, com mais de 50% .
Muitas destas principais entidades do
mundo não passam de Estados sem nação,
alguns apenas marcados pela memória de um lealdade relativamente a uma dinastia
ou a outro tipo de soberano, sem
qualquer nação susceptível de suportar a unidade do Estado.
No caso das dinastias europeias que
deram corpo aos Impérios Centrais, o Estado até aparecia como protector das
minorias nacionais, como o rei medieval o fora, principalmente para os judeus,
colocados sob a sua directa protecção. O mesmo fizera o Império Romano
relativamente aos vários estatutos particulares de alguns povos, que, apesar de
dependentes, mantinham a autonomia dos respectivos direitos e das respectivas
justiças.
Até à Grande Guerra de 1914‑1918
existiam na Europa cerca de cem milhões de pessoas sem Estado nação. Isto é,
um quarto da população total da Europa era constituída por povos sem história, sujeitos a uma espécie de estatuto colonial
intra-europeu. Mas, mesmo depois do fim do Império Austro‑Húngaro, cerca
de 30% desses 100 milhões continuou como minoria nacional. Isto é, entre 25% a
30% das populações dos novos Estados eram minorias nacionais ou povos sem
Estado de jure, pertenciam a algum corpo político, embora necessitassem de protecção
adicional sob a forma de tratados e garantias especiais, como salienta
Hannah Arendt.
Surgiu,
então, à margem da Sociedade das Nações, um Congresso
dos Grupos Nacionais Organizados nos Estados Europeus, onde, curiosamente,
se formaram federações de minorias nacionais ‑ as de língua alemã, por
exemplo, ligaram‑se mais aos interesses do Estado Alemão do que aos
interesses dos Estados de que eram cidadãs. É então que surgem as soluções
da repatriação, da naturalização, dos deslocados de guerra e dos apátridas.
A
questão das minorias continua, aliás, como problema inacabado e talvez insolúvel.
Se na URSS poderíamos encontrar mais de duas centenas de grupos nacionais, com
particular destaque para as nações bálticas, também importa referir o caso
dos bretões e dos corsos nessa nation
par excelence que é a França. Povos e culturas que continuam a proclamar o
direito à diferença, mas que bem podem exigir o direito à autodeterminação
nacional, não se contentando com um simples poder regional ou com a mera autonomia
cultural.
Se o Estado soberano está em crise,
verifica-se, pelo contrário, que tal forma institucional tem continuado a
servir para fomentar a sua própria ultrapassagem. Primeiro ele está em crise
quando é contestado por grupos subestatais que querem autodeterminar-se,
segundo o princípio das nacionalidades, mas estes quando o conseguem, a
primeira coisa que fazem é constituir-se em Estados soberanos.
Segundo, ele pode ver-se ameaçado pela
globalização, mas é através dele que esta se tem fomentado. Basta assinalar
que, desde 1945, foram depositados na ONU cerca de 50 000 tratados bilaterais e
multilaterais.
Por outras palavras, os Estados podem até
dar-se bem com essa génese de uma sociedade mundial, quando se assumem como
instituições de instituições, estruturas de rede e entidades com capacidade
para a gestão de crises e não se rigidificam em órgãos para funções que já
não são precisas.
São, aliás, os próprios Estados que dão
corpo às grandes cimeiras globais, até admitindo que nelas participem organizações
não-governamentais. Basta recordar a cimeira da Terra no Rio de Janeiro, em
Junho de 1992; a dos direitos do homem em Viena, em Junho de 1993; a cimeira
sobre a população e o desenvolvimento no Cairo, em Setembro de 1994; sobre o
crime organizado, em Nápoles, em Novembro de 1994; sobre o desenvolvimento
social, em Copenhaga, em Março de 1995; sobre as mulheres, em Pequim, em
Setembro de 1995; sobre a urbanização, em Istambul, em 1996.