As divisões Leste/Oeste

 

Uma dessas obsidiantes divisões do mundo prende-se como o chamado conflito Oeste/Leste, com essa perspectiva consolidada durante uma chamada Guerra Fria, onde se teria oposto o mundo livre ao comunismo, retomando uma mais antiga dicotomia Ocidente/Oriente. Uma questão que nunca teve a ver com formas de oposição entre entidades geográficas, mas sim com disputas entre formas espirituais, onde sempre predominou uma espécie de russofobia.

 

Neste sentido, um intelectual vindo do próprio Leste, o lituano Hermann Keyserling falava mesmo na Rússia como a Eurásia, onde o gosto da destruição e a santidade, a crueldade aguda e o heroísmo não se sustentam senão quando se opõem, desafia todas as definições e escapa mesmo às classificações habituais. Sim, a Ásia começa aí, ao mesmo tempo que a Europa acaba, o Oriente e o Ocidente aí se misturam estreitamente, formando um continente, ao mesmo tempo explosivo e amorfo.

 

Quem continuar a alinhar inadvertidamente neste preconceito não pode esquecer que muito do orientalismo assumido pelo imperial-comunismo dos russos também não passou de um hábil discurso de justificação do respectivo expansionismo para Leste. Era, por exemplo, o caso de Lenine quando proclamava: voltemo-nos para a Ásia; venceremos o Ocidente com o Oriente.

Diga-se que esta moda vinha dos próprios alemães que, pelo menos, desde Fichte, trataram de proclamar o orientalismo dos germânicos. Posição que, depressa, logo foi esquecida logo que o inimigo passou a estar ainda mais a Oriente: que o digam Hitler, quando enfrentou Estaline, ou os russos, quando se enredaram no chamado conflito sino-soviético, depois de, no começo do século XX, terem sido a primeira potência que sofreu uma derrota militar clássica perante uma potência asiática, neste caso, os japoneses.

De qualquer maneira, importa dizer que, no final dos anos vinte do século anterior, a cultura europeia ocidental foi interiormente agitada por uma dialéctica decadentista, onde alguns intelectuais, ao vislumbrarem o pretenso vitalismo das civilizações orientais, pensaram poder regenerar-nos, expatriando-se através do culto do exótico. Os mesmos meandros depressivos afectaram outros que, pelo contrário, trataram de peregrinar as raízes e o imanentismo do seu próprio chão cultural, reagindo pela chamada defesa do Ocidente que, não raras vezes, acabou por ceder as formas de mero despotismo oriental.

Se no partido orientalista alinharam nomes como René Guénon e Romain Rolland, já no partido ocidentalista foram marcantes Charles Maurras, Henri Massis, Eugenio D'Ors e G. K. Chesterton. Este último, por exemplo, chegou a considerar que o orientalismo seria centrípeto, constituindo um círculo fechado que nunca poderia expandir-se, enquanto o ocidentalismo, pelo contrário, seria centrífugo, como os braços da cruz, abertos aos quatro ventos.

O poeta belga Maurice Maeterlinck (1862-1949), prémio Nobel em 1911, atingiu o cúmulo antropomórfico, ao proclamar que o conflito entre o Oriente e o Ocidente equivaleria à própria divisão do cérebro humano, onde o lóbulo ocidental seria o produtor da razão, da ciência e da consciência, enquanto a vertente oriental segregaria a intuição, a religião e a subconsciência.

Não tarda que os próprios geopolíticos cometam os mais variados atentados contra a geografia, principalmente quando, a partir de uma fronteira espiritual, como o foi a cortina de ferro, construíram uma Euroamérica, o Ocidente, e uma Eurásia, o Leste. O que se agravará substancialmente quando, por razões económicas, passou a incluir-se o Extremo Oriente japonês no próprio conceito de Ocidente, obrigando a imaginosas, embora justas, qualificações, mais estratégicas do que geopolíticas.

Apenas diremos que o Oeste e o Leste fazem parte da circular rosa dos ventos da história, constituindo metáforas ou posições relativas face ao espírito e apenas tendo servido como símbolos políticos. O Oriente, na Europa Ocidental, surge quase sempre quando as teorias dominantes de explicação do universo começam a definhar. Foi assim no século XVIII, com o neopaganismo superficial de alguns iluministas; voltou a sê-lo, em força, no século XIX, com o romantismo e certo budismo germânico, de Schopenhauer a Wagner, quando se procurou uma espécie de Oriente espiritual que sempre quis dizer o outro lado, essa necessária pesquisa de um lugar onde, capaz de compensar o desencanto do aqui e agora.

Nesse sentido, haverá sempre, no Ocidente, procuras do Oriente que, no fundo, significam uma tentativa de revivificação do próprio chão moral onde nos queremos situar. Com efeito, quando se buscam Orientes como o Budismo, a Negritude, o Confucionismo, o Taoísmo, o Bolchevismo, o Maoísmo ou os próprios Dissidentes Russos, procuram-se alternativas à frustração da modernidade pós-cartesiana.

Assim, se os ocidentalistas russos proclamavam, conforme as palavras de Aleksandr Herzen,  que o russo era um homem da outra margem, que devia caminhar para Oeste, isto é, para as ideias que, então, dominavam no centro da Europa, já os estrangeirados portugueses sempre disseram o mesmo, através do exacto contrário, que devíamos caminhar para Leste, na via da integração europeia.

No tempo do Iluminismo, tínhamos de nos adequar às nações cristãs, polidas e civilizadas, isto é, ao despotismo esclarecido, principalmente do josefismo austríaco. Durante o orgulhosamente sós do salazarismo era assumir-nos como europeístas, isto é, contra a visão euro-africana de Portugal. Já mais recentemente, depois de 1974, era sermos um modelo político feito à imagem e semelhança das democracias da Europa connosco, feita a prioridade das prioridades..

Veja-se, por exemplo, o conceito anticomunista consagrado por Henri Massis em La Défense de L'Occident, de 1927, que tão acarinhado foi pela retórica salazarista, o qual até nem reparou que, na fase pós-estalinista da URSS, havia mais convictos comunistas na Europa Ocidental que nos países ditos de Leste. É assim que em discurso de 14 de Agosto de 1936, António de Oliveira Salazar dizia: nós somos filhos e agentes duma civilização milenária que tem vindo a elevar e converter os povos à concepção superior da própria vida, a fazer os homens pelo domínio do espírito sobre a matéria, pelo domínio da razão sobre os instintos. Mas o mesmo político, em plena guerra ultramarina, quando se apostava, de forma maximalista, na integração dos territórios europeus e africanos num único espaço, não se coibia de proclamar: somos cada vez menos um país apenas europeu e tendemos cada vez mais a sê-lo cada vez menos.

Todos estes preconceitos que nos dividiram entre um Leste e um Oeste e que obrigam outros a procurar uma espécie de Mitteleuropa, onde se situaria o coração do continente, não passam de exercícios metafóricos, actuando sobre a abstracção planisférica de um mapa, onde podemos inverter de forma arbitrária todas as posições e até fazer como Luís de Camões, colocando Portugal como a cabeça da Europa toda.

Contudo, se virmos a Europa como simples parcela de uma esfera em movimento, poderemos chegar à conclusão que nesse tipo de corpo, não pode haver periferias. Aliás, até podemos dizer que os mais periféricos, em termos de planisfério, estes que estão a ocidente do próprio Ocidente, acabaram por ser ponto de partida para outras viagens que tanto nos fizeram chegar mais perto do Oriente, como nos deram um Novo Mundo, ainda mais a Ocidente.

Não podemos é deixar de reconhecer que, em termos geográficos, nenhuma teoria conseguiu, até agora, limites consensualizados para a Europa. Com efeito, os próprios geógrafos parecem não subscrever a célebre diatribe de Bismarck, para quem a geografia é a única verdade da Europa. O único ponto de acordo que, neste domínio, consegue atingir-se é o da consideração da Europa como uma península, como uma presqu'île, que, vinda da Ásia, se perde no mar, de maneira que a terra europeia se assume como o mais marítimo e o menos continental, de todas aquelas grandes ilhas do mundo a que damos o nome de continentes.

E o consenso científico dos geógrafos parece vir de longe. Já ém 1725, Noblot qualificava a Europa como uma grande península, coisa que será posteriormente repetida. Assim, em 1816, Brun utiliza a expressão prolongamento da Ásia. Blanchard, em 1936, refere-a como  península do vasto continente asiático. Coincidem aliás com aquele golpe de asa poético de Paul Valéry que, na sua La Crise de l'Esprit, de 1919, salientava que a Europa não passaria de um petit cap du continent asiatique, de uma  étroite presqu'île que ne figure sur le globe que comme appendice de l'Asie. Essa parte ocidental, acidentada, da península asiática, a que chamamos Europa

Contrariando esta perspectiva, têm vindo alguns autores recentes a decretar fronteiras para o Leste Europeu. É o caso de Otto Molden que afasta, da Europa a Ucrânia, a Bielorrúsia e Rússia, mas inclui a Polónia e os países bálticos. Ou de Krzystof  Pomian que fala num limite que passa a leste da Finlândia, dos países bálticos e da Polónia, que atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a ex-Jugoslávia em duas, a Sérvia de um lado, a Croácia de outro, isto é, que remete para o outro lado, a igreja ortodoxa. 

 

Otto Molden, em Die europaische Nation. Die neue Supermacht vom Atlantik bis zur Ukraine, Munique, Herbig, 1990, estabelece o limite leste da Europa numa linha que começa no Lago Peipous e passa pelos rios Pripet e pelo Dniester, abandonando os Urais, isto é, afasta da Europa, não só a Rússia, como também a Ucrânia e a Bielorússia, mas inclui a Polónia e os países bálticos. Isto é, reconhece a Rússia como uma Ásia com apêndice europeu. Krzystof Pomian, em L'Europe et ses Nations, Paris, Gallimard, 1990, diz que o limite oriental da Europa passa a Leste da Finlândia, dos países bálticos, da Polónia, atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a Jugoslávia em duas: a Sérvia de um lado, a Croácia do outro. A significação desta fronteira não é somente religiosa, de um lado a igreja latina , do outro a igreja grega. Porque os dois espaços que ela delimita têm histórias diferentes, o que permite compreender os dramas que acontecem hoje em certo número de países.

 

Qualquer um deles toma uma atitude paralela a certos ocidentalistas dos anos trinta do século XX. Um deles, Gonzague de Reynolds, passou a considerar que, depois da revolução russa, a fronteira da Europa recuou de novo para o centro desta; a Rússia tornou-se asiática, mesmo mais do que asiática, ela é a anti-Europa. Contudo, tanto a Comissão Europeia como o próprio Conselho da Europa, rejeitando as fórmula simples, têm preferido adoptar uma definição aberta da Europa.

 

Em 1992, num documento sob o título A Europa e o desafio do alargamento, a Comissão vem considerar que a noção de Europa associa elementos geográficos, históricos e culturais que, todos, contribuem para forjar a identidade europeia, acrescentando que  a experiência comum, ligada à proximidade, o fundo comum de ideias e de valores e a interdependência histórica não podem resumir-se numa fórmula simples, e o respectivo conteúdo é susceptível de mudar, ao longo das gerações. Conclui, assim, que não é possível nem pertinente  fixar na hora actual as fronteiras da União europeia.

Por seu lado, a assembleia parlamentar do Conselho da Europa, em 22 de Abril de 1992, quando abordou a integração de anteriores territórios da URSS, estabeleceu uma hierarquia entre eles: num primeiro grupo, incluiu os incontestavelmente europeus, as repúblicas bálticas, a Bielorrússia, a Moldava, a Rússia e a Ucrânia; num segundo grupo, constituído pelos Estados do Cáucaso, como a Arménia, o Azerbeijão e a Geórgia, já fala que o carácter europeu dos mesmo é mais duvidoso, por não ter dúvidas em considerar que o Casaquistão, a Quirguízia, o Tadjiquistão, o Turquemenistão e o Usbequistão, têm um carácter europeu dificilmente aceitável

 

As realidades permanecentes da Europa são insusceptíveis de definição através da emissão de uma qualquer oração que dê uma noção completa de tal objecto. Primeiro, porque é materialmente impossível  de+finire Europa, estabelecer-lhe os limites, dar-lhe fins ou confins, fixar-lhe fronteiras, em suma, fechá-la. Depois, porque se torna inglório determinar-lhe uma essência, um centro a partir do qual possa traçar-se a linha separadora da não-Europa. Diremos, como salienta Theodore Zeldin, que  a originalidade da Europa é não haver fronteiras. Acrescentaremos até que, da essência da Europa, faz parte não poder conceber-se qualquer espécie de essência da Europa.

Assim, todas as definições axiomáticas da Europa não passam de exercícios interessantes, mas infrutíferos, quando não perigosos. Até porque nestes domínios, omnis definitio periculosa esta, sobretudo quando, sob o disfarce da lógica, se constróem pretensos primeiros princípios donde depois se desce ex genere et differentia, pela dedução, estabelecendo-se um sistema hierarquizado de conceitos, um pretenso saber de ciência certa, seja a do magister dixit, seja a que nos é ditada por um decreto do poder absoluto que eventualmente a normalize.

Reconheçamos, como François Perroux, que a Europa é, definitivamente, uma Europe sans rivages, um objecto não identificado e não identificável, mas que, apesar disso, não deixa de ser bem real, especialmente quando a olhamos de fora, com um pedacinho de senso comum, mesmo que envolto num não sei quê de nostalgia metafísica.

 

Paul Valéry, em Regards sur le Monde Actuel, Paris, 1931, diz ter descoberto uma espécie de ideia virtual da Europa quando enfrentou os problemas da guerra do Japão contra a Rússia e dos Estados Unidos contra Cuba. Então terá percebido confusamente a existência de qualquer coisa que podia ser atingida e inquietada por tais acontecimentos. Encontrei-me sensibilizado em conjecturas que afectavam uma espécie de ideia virtual de Europa que ignorava trazer dentro de mim até então. Nunca tinha sonhado que existisse verdadeiramente uma Europa.

 

Digamos, muito categoricamente, que a Europa, em termos de homogeneidade, tanto não é uma realidade geográfica como não é uma realidade étnica; tanto não é uma realidade histórica como não é uma realidade política; tanto não é uma realidade geográfica como não é uma realidade jurídica. E porque também não é uma realidade psicológica, nem sequer pode ser considerada como uma realidade cultural. Porque, encarando-a através de qualquer uma destas facetas, nunca a encontraremos unidimensional, como um bloco monolítico.

 

Os rigores científicos da geografia não andam longe dos relatos mitológicos de onde nos vieram tanto o nome Europa  como a obsidiante nostalgia pelo ventre materno asiático e da própria poesia recriadora dos mitos, confirmando-se assim que a poesia, como dizia Aristóteles, pode ser mais verdadeira que a história.

Segundo os relatos da Ilíada e da Odisseia,  o chefe dos deuses, Zeus, é qualificado como o euruopé, como aquele que tem  olhar amplo ou que olha para longe ( eurus quer dizer amplo ou vasto  e ops quer dizer olhar).  A Europa aparece pois, etimologicamente, como a região do largo horizonte. Para uns, a Europa seria uma das três mil filhas de Oceano e de Tethis, as ninfas do mar ou oceânides, conforme a referência de Hesíodo, no verso 357 da Teogonia. Para outros,  uma princesa fenícia, filha de Agenor, rei de Tiro, que foi amada por Zeus, rei dos Deuses; este, disfarçado de touro, raptou a princesa, levando-a, das praias de Tiro, para a ilha de Creta, onde retomou a forma primitiva; depois, transformou o touro em constelação que colocou entre os signos do zodíaco.

O português António Sardinha, retomando o episódio, escreveu o poema Roubo da Europa, onde coloca a princesa fenícia nos penhascos do Ocidente, dando à luz um moço a quem chamaste Portugal. Noutro poema, sobre a mesma temática, intitulado Cabo da Roca, diz-nos: Aqui acaba toda a terra antiga,/começa aqui a tentação do mar./ Europa - ainda era rapariga -,/ Sentou-se aqui um dia a descansar./ Vinha de longe, andando com fadiga,/ vinha de longe, andando sem parar.../ Em frente ao mar, que o rosto lhe fustiga,/ logo pensou Europa em se casar./ / Pediu-a p'ra mulher o Padre-Oceano./ Entre sereias, conchas e golfinhos,/ as ondas lhe bordaram o enxoval.// E quando o noivo a recebeu, ufano,/ nestes penhascos rústicos, sòzinhos,/ deram os dois o ser a Portugal.

A este respeito, importa observar que todas estas lendas gregas eram geradas quando apenas se conheciam seguramente as bordas do Mediterrâneo, mar onde se casavam os três continentes conhecidos, todos com o nome de mulher: a Ásia, considerada a esposa de Prometeu, a Líbia, nome que então se dava à África, e a Europa.

Também a patrística cristã de São Jerónimo (346-420) e de Santo Ambrósio (n. 340), continuada por Paulo Orósio e Santo Isidoro de Sevilha, invocam o mito bíblico de Japhet, filho de Noé, a quem teria cabido, em partilha, a Europa, enquanto para Sem e Chgam, teriam ficado a Ásia e a África.

Eis, portanto, a Europa como aquele sítio onde a terra acaba e o mar começa, conforme dizia Camões, sobre Portugal. Onde acaba toda a terra antiga e começa ... a tentação do mar, utilizando agora António Sardinha.

Eis uma Europa que nasceu e cresceu à volta do mar, como observa Bernard Voyenne. Segundo as palavras deste último autor, esta península das tormentas, ramificada até ao infinito, é na verdade o lugar mais banhado que há no mundo: um quilómetro de costa  para dois mil quatrocentos e vinte e nove quilómetros quadrados de terras. Por todo o lado, a água se insinua,  vai subindo em largos estuários e fiordes, bordeja ilhas e ilhéus litorais. Nenhuma distância face ao mar excede mil quilómetros e na maior parte dos casos essa distância é bem menos (mesmo a Suíça, um país que passa por continental, está a menos de seiscentos quilómetros do oceano e a trezentos do Adriático). A Europa nasceu e cresceu à volta do mar; expandiu-se a bordo de um oceano...

 

Foi misturando o azul do mar, o futurismo romântico, resquícios da mitologia e algum cabalismo, que, neste nosso tempo de ciência e racionalidade, mas depois do Holocausto e diante do perigo de um novo Apocalipse, se estabeleceram os panteístas e profetistas símbolos da Europa, desde a bandeira, em 1955, com um diadema de doze estrelas sobre um fundo azul, ao próprio hino, em 1972, retirado da Ode à Alegria de Ludwig van Beethoven.

Hoje a Europa tem uma bandeira azul, com uma coroa de doze estrelas, não uma estrela por Estado, mas o emblemático número doze, considerado símbolo da plenitude e da perfeição, como doze eram os filhos de Jacob, os trabalhos de Hércules, os signos do zodíaco, os meses do ano, os apóstolos ou a  romana lei das doze tábuas.

Doze estrelas, como as da auréola de uma Virgem que aparece no vitral da catedral de Estrasburgo, uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés, tendo uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça (et in capite eius corona stellarum duodecim)... Tudo muito conforme, aliás, com  o capítulo XII do Apocalipse de S. João.

 

Compare-se o que a respeito escreve o nosso Padre António Vieira (1608-1697), onde se fala numa Mulher em dores de parto, dando à luz um Filho varão que, no entanto, há-de reinar sobre todas as nações do mundo com ceptro de ferro. Se um Dragão tenta tragá-lo, eis que ele acaba por ser arrebatado ao céu, onde se assentará no trono de Deus. À Mulher se darão duas grandes asas de águia com que fugirá do Dragão. Virá depois um Cavaleiro, montado num corcel branco, trazendo, na orla do vestido, a divisa  rex regum et dominus dominantium, comandando um exército, também montado em cavalos brancos, que acabará por vencer o Mal, isto é, a bestialidade do Dragão e os falsos profetas que o seguem. Interpretando tal passagem,  António Vieira considera que se trata de um relato da emergência da  Igreja do Quinto Império, onde se descreve  a maneira da Igreja se coroar, e alcançar o Reino e império universal, onde a Lua é o Império Turco (ou o império dos que apenas têm poder temporal) e o ferro, a inteireza e constância da justiça e igualdade com que o mundo há-de ser governado. Tratar-se-ia da  procura de um poder que não está sujeito às inconstâncias do tempo, nem às mudanças da fortuna e que se há-de estender até ao fim do mundo. Porque só então chegará o corpo místico de que fala São Paulo, com Cristo a nascer de novo. O tal Filho, que tem  o trono no Céu, tal como a Igreja tem uma coroa na terra.