Revolução técnico-científica

 

Comecemos pelo principal dos sinais de convergência mundialista, a revolução técnico-científica, desencadeada a partir da primeira máquina a vapor inventada na Universidade de Glasgow, em 1712 e depois aperfeiçoada por James Watt em 1769, quando emerge a era da máquina.

Uma revolução, depois semeada no plano da teoria pelo cientificismo positivista do século XIX, quando passou a acreditar-se na chegada da ordem e do progresso, de uma nova idade, com que se pensava termos superado as algemas das idade teológicas e metafísicas, e que atingiu, nos começos do século XX, as dimensões do futurismo, quando Marinetti, em 20 de Fevereiro de 1909, proclamou encontramo-nos no promontório extremo dos séculos, dado que criámos a eterna velocidade omnipresente, pelo que, de pé, sobre os pináculos do mundo, lançamos mais uma vez o desafio das estrelas.

 Acontece que já começa a dizer-se, neste virar do milénio, que já não vivemos apenas a mera continuidade da Revolução Industrial do século XIX, isto é, a mera exploração da massa pela energia, ou a exploração da natureza pelo homem, mas antes uma revolução das tecnologias da informação, que conhece a lei da entropia, descoberta por Rudolf Clausius nos finais do século XIX, a existência de uma nova grandeza variável da energia... a quantidade de energia que, sendo gasta numa mudança, é irrecuperável pelo sistema e fica para sempre na zona do desperdício no balanço da energia do Universo.

Basta recordarmos, em termos de teorias estratégicas, que as tradicionais contraditas entre os defensores do poder terrestre e do poder marítimo foram superadas pelo aparecimento do poder aéreo e, mais recentemente, com a chamada Iniciativa de Defesa Estratégica, ou guerra das estrelas, pelo anúncio de um poder supraterrestre, supramarítimo e supra-atmosférico, que deixou de ser um exclusivo da ficção científica. Com efeito, as novas maravilhas do mundo, surgidas nas duas últimas décadas do século XX, para além das viagens pela estratosfera, chamam-se satélites, microprocessadores, lasers, jactos supersónicos e engenharia genética, num misto que tanto nos levou às alturas da Lua, como nos fez pesquisar os segredos da célula e do próprio ADN.

 

Os saltos qualitativos das invenções práticas dos primeiros anos do século XX produziram, sem dúvida, um mundo novo. Primeiro, a nível dos transportes, desde o dirigível, em 1900, ao primeiro voo controlado de um objecto mais pesado que o ar, com a experiência dos irmãos Wright, em 1903. Em 1907 já surge o primeiro helicóptero e, em 1911, o primeiro hidroavião, para, em 1913, se inventar a primeira locomotiva a Diesel. O primeiro voo transatlântico é de 1919, a primeira locomotiva eléctrica, de 1924, e a primeira linha aérea transcontinental é aberta em 1927.

As alterações no domínio das comunicações tem também importantes marcos. O primeiro sinal telegráfico transatlântico é de 1901, com Giuglielmo Marconi. A válvula de vácuo, de 1904, e a primeira transmissão de voz humana para rádio acontece no ano seguinte. As fotocopiadoras aparecem em 1906 e os planos para o sistema moderno de televisão, em 1908. Logo em 1920 surgem as primeiras emissões radiofónicas regulares, no mesmo ano em que se descobre o processo electrónico de gravação sonora, para chegarmos ao fonógrafo eléctrico, em 1925. Segue-se a primeira experiência pública de televisão, em 1926, para, em 1935, começar o primeiro serviço de televisão electrónica, público e regular. O radar para detecção de aviões começa a funcionar em 1935. O primeiro computador com programa memorizado, em 1949. A televisão a cores, emitida com regularidade, data de 1951. As carreiras comerciais de aviões a jacto iniciam-se em 1952. O transístor, por seu lado, é inventado em 1948. Segue-se o primeiro computador comercial, em 1950. O Telstar, primeiro satélite para comunicações, é de 1962. Três anos depois, entra em funcionamento o primeiro satélite para televisão.  Com o Vostok 1, surge o primeiro voo espacial tripulado, em 1961, depois do Sputnik, de 1957. Não tarda que o primeiro homem passeie na lua, em 1969. No mesmo ano do Concorde e do primeiro Jumbo 747.

Na indústria, refiram-se a célula fotoeléctrica e a seda artificial (1902), a soldagem por oxiacetileno (1903), o celofane e o filamento de tungsténio para lâmpadas eléctricas (1907), a lâmpada de néon (1910) e a produção em massa em linha de montagem (1913).

Já a aspirina começa a ser comercializada em 1905, seguindo-se o primeiro medicamento químico terapêutico, em 1910, e a vitamina A, em 1913. A primeira sulfamida é de 1932 e a penicilina começa a ser produzida em 1939. Refira-se que este medicamento foi descoberto pelo médico escocês Alexander Fleming, em 1928, a partir de um extracto de bolor ou mofo, estando na base de todos os antibióticos que apenas começam a ser produzidos pelos grandes laboratórios farmacêuticos nos começos da década de quarenta.

Finalmente, as comodidades de uso pessoal e doméstico, com a lâmina de barbear e o aspirador eléctrico, em 1901, as garrafas-termos, em 1904, a máquina eléctrica de lavar roupa, em 1907, e o começo do fabrico dos frigoríficos domésticos, em 1913. O primeiro supermercado e as primeiras vendas de alimentos congelados datam de 1930. A esferográfica surge em 1938. O nylon é de 1937. A xerocópia, de 1938. Os tranquilizantes começam a ser comercializados em 1952. O contraceptivo intra-uterino, em 1959, e  os contraceptivos orais, em 1960, enquanto a primeira transplantação cardíaca ocorre em 1967. 

É natural que estas alterações tenham sido acompanhadas por movimentos culturais como o sufragismo feminino. Mas é também em 1912 que se afunda o Titanic. Curiosamente, é, no estertor da belle époque, que rebenta o modernismo, o futurismo e tudo acaba canalizado para aquela guerra que teve a ilusão de ser a última das guerras. Com efeito, aquilo que começou por ser a Grande Guerra Mundial, duas décadas volvidas, já era bem menos, dado ter surgido uma Segunda Guerra Mundial, que até terminou com a utilização de uma arma nascida daquele impulso desencadeado pela descoberta da radioactividade por Henri de Becquerel, em 1896, e pelo isolamento do rádio puro, por Pierre e Marie Curie, em 1902.

A primeira bomba atómica é lançada em 1945. A bomba de hidrogénio é experimentada em 1952. O primeiro submarino atómico surge em 1955, enquanto a primeira central atómica é construída, na URSS, em 1954.

 

Apesar de tudo, no plano da riqueza científica, tanto da sabedoria como do saber-fazer, as assimetrias são gravíssimas quanto à distribuição dos recursos, como facilmente se demonstra pela consulta a lista dos prémios Nobel, onde dominam nomes provindo das ditas grandes potências e superpotências. Isto é, mesmo que o hardware se tenha expandido, a concentração do software em poucos centros mundiais foi-se agravando. Porque quem comanda a investigação, a invenção, a inovação e a imaginação é que continua a dominar o mundo.

O poder maior é afinal o poder desse saber mais para ser mais, essa gestão de recursos humanos que é capaz de avaliar o mérito e de promover a efectiva igualdade de oportunidades. E não é por acaso que também no domínio das relações internacionais há restritos lugares do mundo onde se acumula tal saber e donde se vão distribuindo valores pela via daquela autoridade que vem de quem é autor da própria investigação científica.

A revolução técnico-científica, no fundo, equivale àquilo que também damos o nome de modernidade que, começando por ser apenas industrial e científica, acabou por ser tecnológica. Um processo inteiro, onde se inserem como parcelas tanto a libertação da ciência dos dogmas religiosos, quando se deu certo deicídio, certa morte daqueles pretensos agentes de Deus que queriam proibir que se reconhecesse que a Terra circulava em torno de um eixo e à volta do Sol, como outros abalos, desde a ascensão da burguesia e a emergência do Estado, o nascimento do capitalismo manufactureiro ou o do emprego de máquinas produtivas que levaram o trabalho a ser marcado pelo ritmo do fordismo e do taylorismo.

Conforme as palavras de Vaclav Havel, o conceito moderno de ciência liga-se directamente ao racionalismo modernista, gerando tanto a revolução industrial como o culto do consumo, esse fanatismo da abstracção que também provocou a ideia de revolução, onde a política, na senda de Maquiavel, continuou a ser entendida como uma tecnologia racional do poder.

 

Abstracção vem o latim abstractione, retirada, expressão originária de ab-trahere, tirar de, puxar, arrancar. Em sentido amplo, o processo de tirarmos, do todo, uma parte, um mero aspecto da questão geral, a fim de sujeitarmos essa parcela a uma análise mental. Trata-se de um processo de formação de conceitos gerais, omitindo aspectos distintos das qualidades parcelares tiradas das noções de coisas particulares, oriundo, sobretudo, do conceptualismo de Pedro Abelardo. Em sentido estrito, o processo pelo qual, partindo-se de elementos particulares e variáveis, se atingem os elementos essenciais e permanentes, chegando-se ao nível dos tipos abstractos ou das leis científicas, pelo método da indução. Assim, admite-se a possibilidade do estabelecimento de uma lei universal, através da mera percepção sensível, a chegada à inteligência a partir dos próprios sentidos. O exagero da abstracção no pensamento político pode conduzir a fórmulas sem conteúdo real, a ideias sem aplicação prática, donde não pode retirar-se regras de conduta.

 

Acreditava-se que o homem podia ser maître et possesseur de la nature, do ambiente que o rodeava, de uma natureza com quem pretendia estabelecer-se uma espécie de jogo de soma zero, nesse optimismo bem expresso por Condorcet (1743-1794) no seu Esquisse d’un tableau Historique des Progrès de l’Esprit Humain, de 1794.

 

O racionalismo modernista é um movimento intelectual desencadeado por Descartes em torno do chamado esprit geométrique e da raison raisonnante. Os homens são tratados como grandezas descontínuas, quase como números, enquadráveis em ideias absolutas. Surge assim um desvio calculista e utilitarista da razão, bem expresso por Thomas Hobbes, segundo o qual, conhecendo-se os elementos de que é constituído um objecto, conhece-se também o objecto, marcado por um preconceito mecanicista que reduz a ciência a explicar aquilo que funciona. Adopta-se o mero conhecimento matemático e o simples método analítico, aquele que sobe dos efeitos para as causas, que decompõe cada coisa em elementos e que, depois, tem a ilusão de atingir o todo pela recomposição dos elementos, pela soma das partes.

Mas, ter razão talvez não seja apenas actuar com tal razoabilidade até porque a dita não é apenas filha da necessidade. Os homens não se reduzem à proporção entre o movimento e o repouso. Cada homem não é algo que está continuamente submetido ao impacto dos múltiplos e variados corpos que o rodeiam, à adição e subtracção de consequências.

Os homens não são equiparáveis a bolas de bilhar, a meros átomos homogéneos, sujeitos ao determinismo do movimento, à anarquia das forças. A razão também é unidade de teoria e de acção. Precisa da acção, precisa da paixão, precisa da imaginação. Doutro modo, não nos parece possível a conquista da autonomia metodológica das ciências humanas.

 

Basta recordar que, segundo dados do World Watch Institute, em cada ano que vai passando, destruímos cerca de 17 milhões de hectares de florestas, enquanto se deterioraram 6 milhões de terra arável, permitindo o avanço da desertificação, para não falarmos nos milhares de plantas e de espécies animais que correm o risco da extinção.

Olhando agora para a outra face dessa revolução técnico-científica, temos de reconhecer que a mesma também permitiu que permitiu também aquele melhorismo, e aquela esperança que tem passado pela luta contra a doença, desde a descoberta dos micro-organismos responsáveis pela fermentação, por Louis Pasteur, em 1864, ao reconhecimento dos bacilos como causas de determinadas doenças, pelo alemão Robert Koch, em 1876, para, seis anos depois, descobrir qual deles provocava a tuberculose.

As técnicas, contudo, deixaram de ser meros instrumentos, porque a própria consciência pessoal passou a ser mero reflexo do milieu technique, conforme a tese de Jacques Ellul (1912-1994), em La Technique ou l'Enjeu du Siècle, de 1954. Gerou-se aquilo que Galbraith qualificou como tecno-estrutura e que Brzezinski, depois, definiu como sociedade tecnotrónica.

Porque, voltando a Ellul, não são as necessidades externas que determinam a técnica, mas a lógica interna da própria técnica, que se autonomizou da moral e dos valores espirituais, de maneira que tudo se passa como se os fins desaparecessem em consequência da amplitude dos meios de que dispomos.

A culpa talvez caiba mais à sociedade do que à tecnologia, ou, melhor, ao uso que a sociedade fez da tecnologia, quando, pelo rebaixamento dos fi8ns políticos, esqueceu que a técnica devia estar ao serviço da sabedoria e quem nem esta deveria depender da maximização do lucro e da abundância, a fim de impedirmos a preponderância desses adoradores do chamado produto nacional bruto e da produtividade, que não reparam nos excluídos que o crescimento gera.

 

Tecno-estrutura é um conceito cunhado por J. K. Galbraith em The New Industrial State de 1967, onde nota a transferência de poderes para um aparelho de decisão cujos fins nada têm a ver com os que são assumidos pelos patrões e pelos próprios organizadores ou managers. Já Z. Brzezinski, traduzindo a observação de Galbraith sobre a tecno-estrutura, fala na existência de uma revolução tecnotrónica.

Refira-se que, nos anos trinta do século XX, surgiu nos Estados Unidos da América a ideia de tecnocracia, entendida como uma nova forma de organização da sociedade, quando se admitiu que a economia poderia passar a ser dirigida por técnicos e organizadores, independentes dos proprietários. Baseava-se na noção de eficiência, apelando para o domínio dos organizadores. Trata-se de uma velha tendência de todas as civilizações, também patente no mandarim do modelo chinês, o qual, para atingir esse estado, era obrigado a um rigoroso exame, equivalente às provas a que é sujeito o nosso licenciado, ou à obra prima que era obrigado a fazer o companheiro das corporações medievais, quando queria atingir o estatuto do mestre.

O fenómeno, que também afectou o estalinismo, transformou-se, pelo menos no campo ocidental, numa ideologia que, segundo Jean Meynaud, radica no facto de reservar o lugar central aos fenómenos económicos: a sua construção e articulação realiza-se em função da vida económica; autojustifica-se em termos de eficácia económica para descobrir soluções óptimas no campo do bem-estar social, caracterizando-se  pelo emprego dos métodos das ciências físicas para solucionar problemas sociais, assim como por uma grande confiança na técnica da planificação para regulamentar e desenvolver a economia.

Constitui uma espécie de transposição para a Europa Ocidental do pragmatismo norte-americano, mas desligado dos valores morais que sustentam a american way of life, transformando-se numa espécie de ideologia desenvolvimentista marcada pela ingenuidade planificadora. De certa maneira, não passa de uma forma de tradução em calão do mito da era dos organizadores, conduzindo ao materialismo das sociedades de consumo e ao vazio ético da falsa ideia de progresso. Como salientava Paulo VI, há um neopositivismo tecnocrático que considera a técnica universal como forma dominante de actividade, como modo invasor de existir, mesmo como linguagem, sem que a questão do seu sentido seja realmente levantada.

Segundo Habermas, a relação entre o saber, a ciência e o político pode ser encarada de forma decisionista, de forma tecnocrática ou de forma pragmática. No modelo decisionista, os políticos conservam fora dos âmbitos da praxis coactivamente racionalizados uma reserva em que as questões práticas devem continuar a decidir‑se por meio de actos de vontade. Já o modelo pragmatista considera que há uma comunicação recíproca  onde os peritos aconselham os políticos que, por sua vez, os encarregam segundo as necessidades da prática. No modelo tecnocrático, os peritos são os verdadeiros soberanos e os políticos apenas tomam decisões fictícias.

Chega‑se, assim, ao Estado da managerial revolution (Burnham), típico da sociedade industrial. Um Estado que se transformou num Welfare State nas suas várias versões: desde o intervencionismo do New Deal e do keynesianismo dos modelos de raiz liberal, aos Estados Novos dos autoritarismos corporativos, depois transformado no Estado Social das ciclópicas tarefas, conforme a terminologia de Marcello Caetano.

Assim, Legaz y Lacambra, a este respeito, refere a transformação do Estado Abstencionista num Estado Intervencionista. François Perroux, por seu lado, procurando traduzir a mesma realidade, fala na passagem de um Estado Abstencionista para um Estado Económico, de economia mista ou de economia de duplo sector.

Há, deste modo, uma identificação entre Estado da Sociedade industrial e o Estado Administrativo ou Estado com executivo forte, todos produto de uma certa fase ideológica do mundo, dita da tecnocracia. É assim que Maurice Duverger, em Janus, les Deux Faces de l’Occident, de 1972, considera que, depois de 1945, à democracia liberal sucedeu uma tecnodemocracia, fundada em vastas organizações, complexas e hierarquizadas, com uma nova oligarquia que depende mais do Estado que na anterior ordem assente na concorrência de pequenas unidades autónomas.

O que, entre nós, se nota com o chamado mostrengo  estadual gerador de tentáculos clientelistas e dos meandros da corrupção, que tanto levram ao Estado Laranja  como aos jobs for the boys, revelando como não bastam as boas intenções das modernizações administrativas e das reformas do Estado, mesmo que elevadas à categoria de ministérios. O instinto de crescimento do poder é favorecido pela própria sociedade. É mais uma questão moral do que uma questão de direito administrativo ou de ciência da administração.

O mesmo Galbraith, em The Affluent Society, de 1958, analisando a evolução norte-americana, considerava que se atingira uma era da opulência, um estádio de desenvolvimento económico, onde o objectivo deixava de ser o da produção de mais bens de consumo, mas antes o do aperfeiçoamento dos serviços públicos. Um sociedade afluente caracterizada pelo facto de ter uma alta média de rendimentos, abundância de bens de consumo e um largo sector dos serviços. Contudo, gera uma crise de valores que ameaça paralisar a sociedade, principalmente quando os jovens recusam os modelos de participação oferecidos. A sociedade da abundância, depois dita sociedade de consumo, constitui, aliás, uma espécie de crise de luxo, porque, para manter a crescente procura de bens de consumo, gera uma criação artificial de necessidades