As divisões Norte/Sul

 

Outras artificiais divisões do mundo têm vindo a suceder, como a que distingue o Sul, com povos pobres, do Norte, com povos ricos, ou a que estabelece uma graduação que vai de um Primeiro a um Terceiro Mundo, desaparecido que foi o Segundo e com alguns autores a acrescentarem à lista um Quarto e um Quinto Mundos, bem como um Terceiro Mundo interior.

Tudo começou na Conferência de Bandung, realizada entre 18 e 26 de Abril de 1955, sobre a qual, o líder senegalês Léopold Sédar Senghor (n. 1906) observou: desde o renascimento não houve outro acontecimento que revestisse a importância histórica do terramoto de Bandung. E isto porque se deu à escala planetária a tomada de consciência pelos povos de cor da sua eminente dignidade. É a morte do complexo de inferioridade.

Nasser exigiu, então, a liquidação do colonialismo e o reconhecimento da  força irresistível do nacionalismo. Certos países afro-asiáticos anticomunistas, como o Irão, o Iraque, a Turquia, o Japão, o Líbano, a Líbia, o Paquistão e as Filipinas, apresentaram um projecto de resolução condenando todos os tipos de colonialismo, incluindo as doutrinas internacionais que recorrem aos métodos da força, da infiltração e da subversão, numa manifesta alusão ao marxismo-leninismo soviético. Contudo, por acção de Chu En Lai, acabou por adoptar-se  uma expressão conciliadora: todas as manifestações de colonialismo.

Com efeito, em Bandung, longe de se assistir a um festival anti-ocidental (recorde-se que a Turquia era, já então, membro da NATO  e o Japão caminhava para ser um dos sete países mais ricos do mundo) o que aconteceu foi um festival de universalização da ideia ocidental de nacionalismo, nos termos da Carta da ONU, enfatizando-se o respeito pela independência nacional e  o dever dos países libertados ajudarem os povos ainda dependentes no acesso à independência.

O líder indonésio, Sukarno, chegou mesmo a considerá-la como a reunião dos povos mudos do mundo, mas não tardará que outros venham a ser os motivos da mobilização.

No ano seguinte, de 17 a 21 de Julho, sucede-se uma reunião em Brioni, entre os líderes da Jugoslávia, do Egipto e da Índia, Tito, Gamal Abdel Nasser (1918-1970)  e Jawahrlal Nehru (1889-1964), que procuravam semear aquilo que viria a ser o movimento dos não-alinhados, mas não tardará que prevaleça a chamada solidariedade afro-asiática, expressa pela I Conferência, realizada no Cairo, em Dezembro de 1957, onde se retoma o processo de Bandung, da revolta das ex-colónias contra as antigas metrópoles.

Chegava o chamado wind of change, aqui se traduziu por ventos da história, bem expressos pela circunstância de, na XV Assembleia Geral da ONU, reunida em 1960, terem participado 27 novos Estados Africanos.

 

Num discurso proferido em 3 de Fevereiro de 1960, no parlamento sul-africano o primeiro ministro britânico Harold MacMillan declara que the wind of change is blowing through this continent, and, wether we like or not, this growth of national consciousness is a political fact. A expressão procurava reflectir o movimento de independências em África que, de cinco Estados independentes em 1955 passaram a 27 nesse ano de 1960.

 

Contudo, de 1 a 6 de Setembro de 1961, na Conferência de Belgrado, reunindo 26 países e três observadores, sem a China e sem a URSS, mas com o Brasil e com Cuba, institucionaliza-se o movimento dos chamados não-alinhados.

Apesar do movimento realizar uma nova conferência no Cairo (de 5 a 10 de Outubro de 1964), já com 47 membros de pleno direito e 10 países observadores, eis que, dois anos depois, reúne a chamada Conferência Tricontinental de Havana (de 3 a 15 de Janeiro de 1966), onde o factor de mobilização já passa pela união dos pobres contra os ricos.

Por outras palavras, o chamado Terceiro Mundo, enquanto tentativa de superação do bipolarismo, acabou por não conseguir chegar a acordo quanto a uma reivindicação matriz. Em Bandung, tentou a revolta dos povos de cor, dos povos mudos do mundo. Passou, depois, para uma vaga solidariedade afro-asiática. Tentou finalmente uma espécie de conjugação dos chamados três AA, com a Pequim a procurar assumir a liderança, mas tudo acabou por diluir-se nas teias da luta pelo desenvolvimento.

 

Depois da crise do Suez, importa referir alguns dos mais significativos sinais do crescendo terceiromundista. De 18 a 26 de Abril de 1955, decorre a Conferência de Bandung, sem a participação da URSS, do Tibete, da Malásia ou da então União Sul Africana, mas com a China, o Japão e a Turquia, onde os povos de cor, os povos mudos do mundo, segundo a expressão de Sukarno, vão perder o complexo de inferioridade, segundo palavras então utilizadas por Senghor. Estas sementes da revolta vão dar importantes frutos organizacionais. Logo no ano seguinte, reúnem-se, na ilha de Brioni, os principais líderes do processo: Tito, Nasser e Nehru, de 17 a 21 de Julho de 1956. Depois, entre 27 de Dezembro de 1957 e 1 de Janeiro de 1958, surge a I Conferência de Solidariedade Afro-Asiática do Cairo, já com a participação soviética, através das repúblicas asiáticas da União, onde se vai proclamar o anticolonialismo, como principal ponto de referência do antiocidentalismo. Diga-se, a este respeito, que a reunião do Cairo ainda foi marcada por certa indecisão, dado ter predominado um sentimento de raiva contra o desembarque francobritânico no Suez e a postura francesa na crise argelina. Veja-se, por exemplo, o discurso do presidente da conferência, Anwar al Sadat que, expressamente proclama: nós, egípcios, acreditamos no neutralismo e no não-alinhamento. Acreditamos que, adoptando esta atitude, contribuímos para a aproximação entre os dois blocos e criamos uma vasta área de paz que se imporá pouco a pouco a todo o mundo.      

A estruturação global antiocidentalista apenas vem a ser desenvolvida na II Conferência de Solidariedade Afro-Asiática, que teve lugar em Conakry, entre 11 e 14 de Abril de 1960, onde brilhou o vice-presidente da conferência, Frantz Fanon (1925-1961) que, então, convidou os povos da África e da Ásia a destruir a mistificação histórica que tende a apresentar uma certa cultura como o auge da cultura universal. 

Neste ano de 1960 iria dar-se, aliás, a apoteose do Terceiro Mundo na ONU, durante a XV Sessão da Assembleia Geral da ONU, com a participação de 27 novos Estados, dos quais 16 eram africanos. Foi também nesta sessão que foi aprovada a Resolução nº 1514, contendo a Declaração sobre a Outorga de Independência aos Países e aos Povos Coloniais.

No ano seguinte, é a vez da I Conferência dos Não-Alinhados, que decorreu em Belgrado, de 1 a 6 de Setembro de 1961, com 25 países, onde já não há representantes da China, mas onde aparecem Cuba e o Brasil. Aí tenta estabelecer-se uma terceira força mundial federadora daqueles países que tinham a ilusão de não participar na Guerra Fria. E isto porque, conforme o discurso de Nehru, nesse local, o problema essencial de hoje é o medo da guerra.

Outro passo na frustrada tentativa de identificação do Terceiro Mundo vai ocorrer, cinco anos depois, com a chamada Conferência Tricontinental de Havana, que decorreu entre 3 e 15 de Janeiro de 1966, reunindo cerca de meio milhar de delegados de governos e de organizações revolucionárias. O anfitrião, Fidel de Castro, branco cubano de origens galegas e pouco afro-asiático, já demasiado alinhado com Moscovo, tentou encontrar como signo identificador contra o imperialismo, o colonialismo e o neocolonialismo, a noção de povos pobres. Seguem-se as conferências do Cairo (5 a 10 de Outubro de 1964), de Lusaka (8 a 10 de Setembro de 1970), de Argel (5 a 9 de Setembro de 1973), de Colombo (16 a 20 de Agosto de 1976), de Havana (3 a 9 de Setembro de 1979), de Nova Deli (7 a 11 de Março de 1983), de Harare (1 a 4 de Setembro de 1986).

 

Mais antiga e mais permanente é a maniqueísta divisão entre o bem e o mal, cada um deles situados em diferentes lugares do mundo, como aconteceu com a ideologia teocrática que tresleu a distinção de Santo Agostinho entre uma cidade de Deus e uma cidade terrestre, ou cidade do diabo e que directamente se tem propagado às interpretações fundamentalistas de todas as religiões.

 

Segundo Santo Agostinho, a distinção entre uma civitas Dei ou civitas coelestis e uma civitas terrena ou civitas diaboli, não teria vindo de Adão, mas sim de Caim e Abel. Mas a civitas Dei não se confunde com a Igreja, nem a cidade terrena é o mesmo que sociedade política. A civitas dei é algo que circula na cidade terrestre, dado que as mesmas apenas são duas sociedades de homens onde uma está predestinada a reinar eternamente com Deus e outra a sofrer um eterno suplício com o Diabo. Assim a cidade de Deus não é vista como uma cidade separada, mas tão só como a que é fundada na lei divina, distinguindo-se tanto daquilo que haviam sido a teocracia judaica e o constantinismo romano. A cidade de Deus é a cidade da virtude. A cidade terrestre é a cidade do vício. Logo, tanto refere a existência de elementos da cidade terrestre entre a Igreja, como, pelo contrário, de pessoas sem fé cristã que vivem na cidade de Deus. Todo aquele que procura a verdade e a virtude pode fazer parte da cidade de Deus. Como ele explicitamente refere: dois tipos de amor edificaram duas cidades: o amor de si mesmo levado até ao desprezo de Deus - a Cidade terrestre, e o amor de Deus levado até ao desprezo de si próprio - a cidade de Deus. Uma glorifica-se a si mesma, a outra glorifica o Senhor. Uma pede aos homens que lhe teçam glória, a outra põe a sua mais querida glória em Deus, testemunha da sua consciência. Uma, no orgulho do seu triunfo, marcha de cabeça erguida; a outra diz ao seu Deus: Vós sois a minha glória e sois vós que ergueis a minha cabeça. A Cidade terrestre, orgulhosa dos seus chefes e das suas vitórias sobre as outras nações, dominadas por ela, deixa-se levar pela paixão do comando. A cidade de Deus mostra-nos cidadãos unidos pela caridade e servidores uns dos outros, governantes tutelares, súbditos obedientes 

 

É de acordo com estes cuidados que deve interpretar-se a distinção feita pela religião muçulmana entre um dal al-islam, o reino onde se aplica o Islão, e o dar al-harb, o resto do mundo, que seria necessário converter, através de um esforço, dito jihad.

Apesar de dar al-harb significar, etimologicamente, morada da guerra, e de jihad, também etimologicamente, corresponder a guerra santa, há que interpretar simbolicamente essas expressões e não cairmos no habitual logro das caricaturas fundamentalistas. As mesmas que, no cristianismo, justificaram a teocracia, o entendimento da Igreja como a cidade de Deus, destinada a dominar o resto do mundo, entendido como a cidade do Diabo.

Neste sentido, há que ler as interpretações teológicas islâmicas que falam em três formas de djihad: a maior, que tem a ver com o combate do crente contra um inimigo interior, contra as paixões e a inclinação para o mal; a menor interior, que ocorre dentro do próprio mundo islâmico, contra os renegados e os apóstatas, justificando a dominação pela força dos rebeldes, ou até dos tiranos; e a menor exterior, que tem a ver com a expansão do Islão a todo o mundo.

 

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No fundo, trata-se de algo bem semelhante às teorias de outras religiões monoteístas, de outras gentes do mesmo Livro, que falam em conversão, missão e guerra santa e que também padeceram das mesmas interpretações restritivas que levaram o esforço a transformar-se em santa inquisição.

Ao processo nem sequer escapa o modelo sionista, que invocando o nome de uma das colinas da cidade de Jerusalém, deu corpo à construção de um Judenstaat na terra prometida. Tudo recomeçou, com efeito, a partir das teorizações de Theodor Herzl, passou pelo I Congresso Sionista que se reuniu em Basileia no ano de 1897. Não tardaria que, pela Balfour Declaration, de 2 de Novembro de 1917, se promovesse a criação de um Lar Nacional para o Povo Judaico, na Palestina, que em 1920, pelo tratado de Sèvres, se instituiu como um mandato britânico da Sociedade das Nações, a que se seguiu a criação, em 1922 da Jewish Agency for Palestine.

 

Theodor Herzl  (1860-1904) Judeu húngaro, de cultura alemã. Estuda direito em Viena, cidade onde se torna advogado. Fundador do sionismo, a partir de 1897. Correspondente em Paris do jornal austríaco Neue Freie Presse durante o caso Dreyfus. Depois do Congresso de Basileia de 1897, é criado Congresso Mundial Sionista, a que Herzl preside. Influencia a declaração Balfour de 1917. A sua principal obra é Der Judenstaat. Versuch einer modernen Lösung der Jüdischen Frage, Viena-Leipzig, 1896. Há uma trad. port., Um Estado Judaico, de H. Amzalak, Lisboa, 1912.