A linguagem e os conceitos das relações internacionais
Na
procura de um objecto formal, de uma metodologia própria, o novo campo de
estudos das relações internacionais, se vai tentando constituir um dicionário
terminológico de pensamentos e uma reserva própria de conceitos ditos
operacionais, ainda não conseguiu livrar-se das teias que o ligam a outras áreas
científicas com quem mantém relações de conflituante cumplicidade, da
filosofia ao direito, da história à geografia, da economia à sociologia.
Acresce
que a natural predominância do mundo anglo-americano espalhou toda uma série
de âncoras terminológicas e gerou sucessivos estrangeirismos, especialmente
graves quando não há raízes de autonomia que possam promover as necessárias
nacionalizações culturais dessas tendências importadas. Muito especialmente
quando há vagas de mestrados, doutoramentos ou simples turistas científicos,
com toneladas de fotocópias e urgência quanto à rentabilização dos
investimentos de vida, que continuam a não querer assentar os pés no chão
moral das suas comunidades históricas.
Acontece
também que as relações internacionais não podem ser tratadas como frios
objectos colocados à distância, como algo que susceptível de ser observado à
maneira das coisas da astronomia, através de lentes diacrónicas.
Os
acontecimentos centrais do processo mundial, mesmo que situados a milhares de
quilómetros do sítios a partir dos quais os perspectivamos, acabam por
tocar-nos quotidianamente. Não apenas pelo facto do bater de asas de uma
andorinha da Amazónia poder provocar uma tempestade em Pequim, quanto pela acção
dos global media que, minuto a minuto,
nos comunicam a coisa, obrigando a traduções feitas por jornalistas e
comentadores de política internacional que, perdidos no grande oceano dessa
hiperinformação e com tantas enciclopédias e motores de busca, acabam por
aproveitar a ocasião para transformar banalidades em acontecimentos históricos.
Os
fenómenos da política internacional inserem-se em correntes mais vastas que o
ritmo frenético do actual stress. Só
podem ser compreendidos se ousarmos utilizar métodos que abarquem o médio e
longo prazo, coisa extraordinariamente difícil de ser assumida por quem não
tem capacidade teórica e, portanto, não consegue seleccionar, nem integrar no
todo a parcela que emerge no dia a dia.
Recordemos
que a expressão conceito vem do latim
conceptus, forma do verbo concipere,
que aliás resulta da soma de cum mais
captare. Isto é, mesmo
etimologicamente o conceito apenas serve para captarmos algo, diferindo de conceptione, enquanto acto de gerar. Logo, tem de ser entendido como
simples unidade de pensamento que exprime um termo cujos significados são
declarados por definições, apenas servindo de referência, ou transição,
para o mundo real.
Isto
é, os conceitos nunca são verdadeiros nem falsos, mas apenas mais ou menos úteis.
Porque são apenas um dos instrumentos com que a mente humana capta a realidade, juntamente
com os quadros mentais, os esquemas ordenadores, as leis gerais do pensamento.
Weber
chama-lhes os parafusos lógicos e
Moncada entende-os como os
remos que a embarcação do nosso espírito utiliza, quando pretende navegar no
mar da experiência. Porque, como refere Garaudy,
o conceito quando é verdadeiro, quando reflecte correctamente a realidade
exterior, aproxima-nos do concreto.
Se
em certas ciências, como na química, todos os conceitos usam definições
operacionais, dado que nestas se incluem operações que podem medir os
conceitos, eis que, nas chamadas ciências sociais ou humanas, apenas podemos
observá-los de forma indirecta ou mediata, através de indicadores.
Há,
assim, conceitos empíricos, os que
podem ser observados, que podem ser reconduzidos a coisas observáveis, e conceitos
teóricos, não observáveis (v. g. o conceito de sistema), que apenas podem
ser definíveis no âmbito da teoria em que se usam.
Podemos,
pois, detectar, no âmbito das relações internacionais, que todos os conceitos
são marcados pela ambiguidade, dado que os símbolos que os reflectem, isto é,
as palavras, enquanto significantes, podem não reflectir os significados.
Acresce
que, em muitos caso, até há poucas palavras e muitos significados (v. g. a
palavra portuguesa poder e os
significados puissance e pouvoir
da língua francesa). Daí a importância das definições verbais declarativas
e o inevitável recurso aos léxicos.
As
definições operacionais
incluem no seu interior a especificação do campo dos referentes empíricos
do conceito. Os indicadores
são conceitos mais específicos
que o conceito abstracto e servem de ponte de passagem entre o conceito
abstracto e as definições operacionais.
É
por isso que o próprio Talcott
Parsons chegou a dizer que uma
teoria não passa de um esquema conceitual
logicamente articulado. Assim, os conceitos podem absolutizar-se, não sendo
apenas formais, mas também constitutivos,
quando além de organizarem a experiência, querem também criar o próprio
objecto.
Logo,
quando assumem esta ilusão de criação da realidade, podem ser objecto de
manipulação, deixando de ser operatórios e passando a situar-se entre o ser e
o devir. Isto é, deixam de ser conceitos gerais empíricos, mas o deus
ex machina da própria área científica em causa.
Façamos,
a este respeito, um pequeno exercício, correndo, por ordem alfabética, as
palavras identificadoras de algumas das principais obras científicas que
seleccionámos para bibliografia da disciplina. Porque é a partir do vocabulário
utilizado pelos que tentam tratar de forma científica as relações
internacionais que se procura constituir um conjunto de conceitos operacionais e
um léxico próprios, distinto do tratamento filosófico e jurídico das coisas
internacionais.