A redescoberta da economia

 

Curiosamente, neste tempo de globalização ainda muitos repetem os argumentos dessa velha polémica dos começos do século XIX. Se os optimistas liberais parecem esquecer que toda a ordem precisa de regulação, já os adversários parecem esquecer que os campeões da regulação da própria economia foram as civilizações onde o livrecambismo mais prosperou.

Nos anos noventa deu-se um salto espectacular da integração económica internacional, não apenas com a transformação da CEE em União Europeia, mas tamvbém com a emergência de novas zonas de comércio livre: a NAFTA (North Aemrican Free Trade Area), o MERCOSUR e a ASEAN (Association of Southeast Asian Nations).

Com o findar da guerra fria, as questões da economia começaram a superar a questão das armas na cena internacional. Nas décadas de setenta e oitenta do século XX deu-se aquilo que muitos autores qualificam como a redescoberta da economia como a principal força nos negócios internacionais:

- o chamado mundo ocidental e o Japão repararam, principalmente a partir da crise petrolífera de 1973 que estavam dramaticamente dependentes do resto do mundo, principalmente quanto a fontes de energia;

   - a dívida dos chamados países em desenvolvimento cresceu de forma assustadora;

- o Japão passou a assumir-se como um dos principais actores da economia internacional

-          os Estados Unidos passaram do principal credor internacional ao principal devedor internacional

-          deu-se um colapso económico da URSS e alguns dos principais parceiros daquilo que tinha sido o COMECON começaram a integrar a órbita da chamada União Europeia

-          o Pacífico emergiu como um dos principais centros de crescimento económico mundiais

-          a CEE transformou-se num efectivo mercado único, dotado até de uma moeda comum

-          largos sectores dos países em vias de desenvolvimento viram frustradas as suas expectativas

-          o desenvolvimento das novas tecnologias da informação criou mercados financeiros globais

Por outras palavras, o mundo descobriu que os problemas económicos não se resolviam apenas com medidas não-económicas. Os problemas económicos apenas se resolvem com medidas económicas, mas não apenas com medidas económicas.

Contudo, a revolução dos mercados assume hoje novo sentido com a emergência da chamada geofinança, dessa network structure por onde escorrem quotidianamente os fluxos financeiros das bolsas de valores de todo o mundo, e onde, minuto a minuto, podem pôr-se em causa empresas, moedas, Estados de todas as dimensões e até grandes espaços. Um quase esotérico sector, onde apenas saberão operar cerca de uma dezena de grandes holdings de peritos que detêm as passwords desse esotérico processo. Esses novos poderes que, segundo Buthros Buthros-Ghali, transcendem as estruturas estaduais, gerando um poder mundial que escapa aos Estados.

Basta salientar que os três primeiros fundos de pensões norte-americanos - a Fidelity Investments, o Vanguard Group e o Capital & Research & Management - chegaram a mobilizar cerca de dez vezes mais dólares que os conseguidos em Dezembro de 1994 pelo Departamento do Tesouro norte-americano, o Banco Mundial e o FMI quando procuraram sustentar o valor da moeda mexicana.

Mais, no jogo das bolsas mundiais, todos os dias, cerca de 95% das divisas que mudam de mão prendem-se com actividades meramente especulativas, sendo ultraminoritárias as que correspondem a actividades clássicas, comerciais.

O mais importante dos novos poderes passa, assim, por esse fluxo marcado pelo imediatismo, pela desmaterialização, pela permanência e pelo planetário, ao mesmo tempo que ressurgem certas formas de inconsciente colectivo, como o revivalismo dos rumores, dos receios e da própria fé nas bruxarias. Vivemos assim nas teias de uma sociedade de casino, nessa nova religião dos mercados que tem como missionários militantes os descendentes dos yuppies, que vão agitando uma massa informe de devotos de um pretenso capitalismo popular, marcado pela velha lógica do enrichissez vous.

A figura dos corretores aventureiros chega mesmo a substituir a dos garimpeiros e dos achadores de volfrâmio, e a realidade quase se transforma numa ficção folhetinesca de telenovela, aproximando-se de muitos dos meandros do romance de Dona Branca. Aliás, podem reunir-se, sob os holofotes televisivos, os líderes das superpotências ou dos G-8, bem como as cimeiras da NATO ou da OSCE, mas não se conhece o rosto dos mestres do mercado, desses novos predadores para quem os valores da justiça e da honra parecem não contar.

A este respeito, importa sublinhar que revolução dos mercados expressa pela livre circulação dos capitais, precedido pelo processo da desregulação e das privatizações. O poder económico desmaterializou-se, deixando de ter como base preponderante os chamado factores de produção da teoria marxista, como eram a terra, os recursos naturais e as máquinas, e passou a assentar em factores imateriais, como o conhecimento científico, a alta tecnologia, a informação, a comunicação e as finanças.

O poder, incluindo o poder económico, transformou-se numa rede de poderes. Deixou de ser uma coisa, um patrimonium, um ter, e passou a ser uma relação, uma rede de muitos micropoderes, em que os novos mestres predadores e conquistadores já não são apenas os detentores do capital nem os organizadores da era dos managers, mas sim os efectivos manipuladores dos tentáculos dessa rede, principalmente os que conseguem, por todos os meios, a necessária inside information. Surgiram assim novos grupos que escaparam às anteriores formas de representação e de legitimação política e social, e desprezaram o bem mais precioso de qualquer democracia: aquela informação que permite a consolidação de uma opinião crítica.

Continuando a seguir o inventário do professor de economia de Lovaina, Ricardo Petrella,  num artigo célebre Les Nouveaux Maîtres du Monde, publicado em Le Monde Diplomatique, de Novembro de 1995, esses novos poderes têm com eles legiões de aliados e colaboracionistas, desde os quadros da tecnociência aos criadores de símbolos, onde também é marcante o conúbio entre os universitários e os opinion makers, aliás paralelo à própria entrada dos grandes media no sistema dominante.

Porque estes novos elementos diferem qualitativamente dos anteriores managers ou organizadores, denunciados por James Burnham, em 1940, bem como dos chamados tecnocratas. Até vieram dar uma nova dimensão à chamada investigação científica, tornando caducas as velhas estruturas universitárias, quando ficaram dependentes das empresas e das fundações transnacionais, libertando-se dos subsídios públicos, directamente recebidos das agências estaduais ou das organizações inter-estaduais. O grupo, cada vez mais cosmopolita, até ganha algumas características de casta apátrida, encontrando-se nas mesmas escolas de formação permanente e actualizando o velho receio da sinarquia, conforme as profecias de Saint-Yves d'Alveydre.

Já não temos as sete irmãs das multinacionais petrolíferas, das grandes famílias que dominavam o tempo das trocas de mercadorias que marcou o auge da revolução industrial. Passámos para a sociedade da informação, mas para uma informação que não se consome, como acontecia com o petróleo ou a alimentação, dado que se cria pelo uso e se reproduz pelo abuso.

Como assinala Robert B. Reich na sua obra The Work of Nations, as actuais empresas multinacionais já não cabem no universo concentracionário dos modelos burocráticos e centralizados, tendo constituído uma vasta rede de entidades descentralizadas, de tal maneira ramificadas pelo mundo que já não podem receber um bilhetes de identidade nacional. As empresas em causa deixaram, definitivamente, de ter pátria, até pelas participações cruzadas que se foram estabelecendo entre as que representavam as principais marcas do mercado (The Work of Nations, Nova Iorque, Alfred A. Knopf, 1991 [O Trabalho das Nações. Preparando-nos para o Capitalismo do Século XXI, José Maria Castro Caldas, trad., Lisboa, Quetzal Editores, 1993]).

Como assinalava o cientista e filósofo húngaro Karl Polanyi (1891-1976) em The Great Transformation, de 1944, a dinâmica interna da produção em massa de mercadorias, porque voltada sobre si mesma, levou a um crescimento ilimitado das trocas e a uma autonomização incontrolada do mercado.

O chamado fim do comunismo não foi afinal o fim da história, dado que a vitória dos modelos ocidentais significou a consagração de um estilo de organização marcado por factores totalmente diversos daqueles que poderiam ser captados por Karl Marx ou Lenine. Em primeiro lugar, surgiu a resposta teórica keynesiana, geradora daquilo que uns qualificam como consenso social-democrata e outros como mero socialismo de direita. Seguiu-se o exemplo do New Deal de Roosevelt, assente na aliança entre o capital e o trabalho. Avançou-se, depois, no compromisso fordista. E, na Europa Ocidental, social-democratas e democratas-cristãos promoveram a instauração de um Welfare State que foi eficaz tanto para a superação do Warfare State como para a competição com os modelos do socialismo real, de marca sovietista.

Acontece que com o fim do mundo bipolar, mais do que a emergência de uma só superpotência, começou a desenhar-se um nebuloso império dos grandes países ricos que fundaram o Grupo dos Sete, assente em três moedas sólidas (dólar, marco e yen), com duas ou três praças financeiras fortes, núcleo duro esse que, pelos recursos, pelo poder de mando e pela atracção mimética, foi atraindo e controlando quase todas as principais elites dos chamados países periféricos.

Com a chegada do euro, apenas nos apetece recordar que também o dinheiro não tem pátria. Aliás, o americano dollar tem origens etimológicas no alemão thaler, começando até por ser a designação dada pelos ingleses ao peso espanhol que circulava nas possessões sul-americanas, antes de se transformar na unidade monetária norte-americana desde 2 de Abril de 1792. E foi em nome da americanização que se instituíram o Deutsche Mark, gerado pela ocupação americana, e o próprio Yen japonês. As três pessoas da tríade, estão, por dentro, unidas por uma neutra perspectiva circulatória…

Contudo, a humanidade, depois de 1989 e do dobrar do milénio, acabou por não chegar ao fim da história, porque logo se sucedeu uma espécie de balkamundialização, com o regresso das nações e até das etnias, não se confirmando a previsão de um Kenichi Ohmae, o mr. Strategy, proclamava o fim do Estado-Naçãoe a chegada de uma redentora entidade maior, a que chamava Estados-Região, porque, face à emergência de um capitalismo supra-territorial, os Estados apenas exerceriam funções transitórias no âmbito da organização e da regulação económicas.

Com efeito, muita da política internacional que passámos a viver depois da Guerra Fria acabou por aproximar-se de modelos típicos dos anos vinte do século passado, dado que inúmeras Nações sem Estado voltaram a emergir.  Os nacionalismo, muito particularmente os etnonacionalismos eram, afinal, brasas por extinguir que logo se avivaram com os novos ventos da história, quando estes sopraram as cinzas dos superpowers que os proibiam. O explodir do espaço controlado pelo imperial-comunismo soviético ou os problemas que o Império Britânico deixou por resolver no Médio Oriente e no subcontinente indiano, a questão do renascimento árabe ou as guerras civis africanas não são causas, são sintomas de que, afinal, por muito novas que fossem as maravilhas do século XX, nenhuma das forças instaladas no comando do universo foi capaz de construir um desses homens novos que as mesmas prometiam edificar sobre a pretensa tabula rasa do homem de sempre.

A globalização económica, onde a geofinança passou a comandar a geoeconomia, ao mesmo tempo que se desenvolveram instituições globais de vigilância como o G7/G8, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, vai levar a que se assista à eliminação do modelo de Welfare State e das ideologias que o geraram, da democracia-cristã à social-democracia.

 

O engenheiro japonês Kenichi Ohmae, doutorado em energia nuclear pelo MIT de Boston,  consultor de várias firmas multinacionais, principalmente da McKinsey & Company, é considerado mr. Strategy e assume-se como um dos mais importantes desses gurus de conferências jet set e muitos papers, pagos a peso de ouro pelos que se inscrevem num desses conciliábulos. Publicou cerca de uma centena de livros em vários cantos do mundo e pode ser visitado em http://www.kohmae.com.

 

O dinheiro transformou-se no único valor universal do nosso tempo. Com ele veio uma nova forma de corrupção. A nova sociedade marcada pela difusão da informação ao criar uma hiperinformação, teve que passar a assentar em redes de circulação. Quanto mais a informação de difunde, mais a rede se valoriza. Quanto mais os diplomas abundam, mais os diplomas deixam de ter sentido.

O poder deixou de ser uma pirâmide e passou a ser um labirinto. Os actores da decisão multiplicaram-se e o acesso desigual aos serviços transformou-se num jogo complicado. Deixou de haver um local no sistema onde a decisão seja tomada.