Tentando superar esse tradicionalismo, foi só na década de cinquenta que surgiu a aplicação do behaviorismo à ciência das relações internacionais, surgindo a disputa entre os velhos tradicionalistas, da década anterior, e os novos defensores do verdadeiramente científico, os chamados sistémicos, que passam a proclamar-se como os únicos capazes de uma efectiva teoria empírica, acusando todos os restantes de continuarem envoltos no nevoeiro da teoria normativa, os theoricists, onde até incluem os realistas da década anterior.

É nesses anos que se vão desenvolvendo modelos como o funcionalismo, expresso na teoria da integração de Ernst B. Haas, bem como as aproximações à cibernética, destacando-se a teoria dos sistemas de Morton Kaplan e o modelo de análise das relações internacionais inspirado por Karl Deutsch.

 

A ideia  de função foi desde sempre utilizada na matemática e na biologia. Na matemática, era entendida como uma relação entre grandezas variáveis que mantêm entre si uma certa dependência. Na biologia, quando se dizia que um corpo é uma totalidade porque resultante da unidade de diversas funções, entendidas como as operações mediante as quais uma parte do organismo contribui para a conservação do organismo total. 

Herbert Spencer foi quem começou a utilizar o conceito na área da sociologia, considerando que os organismos sociais quanto mais crescem em massa, mais se tornam complexos, porque as respectivas partes se tornam cada vez mais mutuamente dependentes. Assim, essa passagem da simplicidade para a complexidade no geraria uma functional dependence of parts, com centros coordenadores, equivalentes a uma espécie de sistema nervoso, destinados a receive infomation and convey commands. Nestes termos, os organismos sociais seriam mais do que uma simples agregação ou companionship, dado destinarem-se a facilitar a sustentação pela mútua ajuda-cooperação para melhor satisfação do corpo e eventualmente do espírito. 

Utilizando palavras do antropólogo Bronislaw Malinowski (1884-1942), diremos que função passa a querer dizer satisfação de uma necessidade e que o todo social é uma totalidade orgânica, onde cada elemento tem uma tarefa a desempenhar dentro de uma aparelhagem instrumental.

Robert King Merton (n. 1910), principalmente em Social Theory end Social Structure, de 1949,  pretendendo destacar-se deste funcionalismo absoluto, que confundiria órgão com função, define as funções como as consequências objectivas de processos sociais que contrribuem para a adaptação ou para o ajustamento de um determinado sistema, vendo este como um todo funcional e sublinha a multifuncionalidade das estruturas, porque um só elemento pode desempenhar várias funções e uma só função pode ser exercida por vários elementos.

 

 

É assim que o sociólogo norte-americano Talcott Parsons (1902-1979) defende uma structural-functional analysis, definindo o poder como a capacidade generalizada de se conseguir que as unidades pertencentes a um sistema de organização colectiva cumpram as suas obrigações, quando estas são legitimadas pelo seu contributo para o fim colectivo.

Aplicando directamente este respectivo modelo às relações internacionais, poderíamos dizer que cada Estado, no contexto do sistema internacional, exerce quatro funções: duas correspondentes à relação do mesmo com o respectivo ambiente e outras duas voltadas para as relações internas do mesmo sistema.

Em primeiro lugar, o sistema Estado tem de adaptar-se ao ambiente onde vive, para recolher recursos, armazená-los em função das necessidades e, como contrapartida, contribuir para o mesmo ambiente com produtos próprios. Este conjunto de processos funcionais, correspondente ao subsistema biológico, seria a chamada adaptação (adaptation).

Em segundo lugar, o Estado, para viver em equilíbrio interno e externo, tem que alcançar uma série de objectivos e de finalidades. Esta função, dita de prossecução de fins (goal-attainment), seria corrrespondente à personalidade psíquica.

Em terceiro lugar, e entrando agora nas funções voltadas para as relações internas, o mesmo sistema Estado tende a integrar ao máximo todas as respectivas tendências internas que correm o risco de marginalizar-se ou de ser colocadas fora do sistema. Eis a função de integração (integration) que representa o nível de compatibilidade que caracteriza as relações internas dos elementos de um determinado sistema, correspondente ao subsistema social, à socialização propriamente dita.

Em quarto e último lugar, surge a função de manutenção ou de conservação dos modelos culturais (latent pattern maintenance), correspondente ao subsistema da cultura e que permite a superação satisfatória dos eventuais conflitos. É neste contexto que o político é perspectivado como o subsistema social que tem como função o goal-attainment, a organização e a mobilização dos recursos necessários para a realização dos fins de uma determinada colectividade, a capacidade de fazer com que as unidades que pertencem a um dado sistema de organização cumpram as respectivas obrigações.

O sistema político passa assim a ser entendido como um sistema autónomo e aberto que mantém relações e trocas constantes com os outros subsistemas da sociedade: o conjunto das actividades económicas, o conjunto dos processos de socialização (família e educação), o conjunto de instituições que tem por função manter as solidariedades que uma sociedade pode exigir dos seus membros (o aparelho legislativo e o aparelho judicial). Salienta também que, entre os subsistemas, há uma complexa rede de trocas, um quadro de inputs e de outputs, dado que cada sistema recebe, dos outros, elementos ou factores de produção e oferece produtos da sua actividade.