Para
além do choque destes três paradigmas, importa salientar que os estudos internacionais tiveram
um marcante desenvolvimento nos anos vinte e trinta do século XX. Primeiro, com os
historiadores diplomáticos, principalmente com os que se dedicaram ao estudo
das causas e origens da guerra. Depois, com o analistas do novo fenómeno
nacionalista, como
Hans Kohn ou
Carlton J. H. Hayes.
Outros mergulharam na análise das raízes do internacionalismo. Não faltaram os que se
dedicaram à problemática da balança do
poder ou da geopolítica e surgiram prestigiadas revistas, como a Foreign
Affairs ou o American Journal of
International Law.
Com
o espectacular falhanço do modelo da Sociedade das Nações surge, entretanto,
uma das primeiras grandes reflexões críticas sobre as bases teóricas em que
se enredava o processo, com especial relevo para as posições assumidas pelo
professor de história
Edward
Hallett Carr, que, muito britanicamente, continuava a olhar o mundo da sua ilha,
em The Twenty Year’s Crisis. 1919-1939.
An Introduction to the Study of International Relations, de 1939, obra que
continua a
ser citação incontornável. Partindo da tensão polar entre o que qualificou
como utopismo e o que cunhou como realismo,
se procura distanciar-se do utopismo, marcado por naivety and exuberance, também não cai no desespero realista, que
acusa de sterility.
Refere, aliás, três matrizes para esse utopismo do pós-guerra. Em
primeiro lugar, o optimismo intelectualista, originário do Iluminismo do século
XVIII. Em segundo lugar, as ideias liberalistas, do século XIX, ainda marcadas pela rigidez da
economia clássica. Em terceiro lugar, os que, no pós-guerra, invocaram a ideologia
wilsoniana.
Nestes
últimos, critica, sobretudo, a ilusão de considerarem que um homem de Estado tem liberdade de escolha para levar a cabo uma política
externa e, consequentemente, que podem
executar-se as boas intenções de tais protagonistas. Muito ironicamente,
desdenha dos que
continuavam a dizer, por exemplo, que os norte-americanos entraram na Grande
Guerra como cowboys que foram para o
combate de forma desinteressada, visando a defesa de princípios civilizacionais.
De qualquer maneira, estas três grandes famílias,
de marca utopista, admitiriam a existência de uma
espécie de mão invisível,
capaz de
levar à harmonia de interesses na política internacional, donde
surgiriam processos espontâneos de regulação da paz.
Já os realistas, mais conservadores e empíricos, procurando
respeitar as lições da história, exageram no cepticismo e continuam a
considerar o poder como o principal conceito das relações internacionais, tal
como a energia é o principal conceito da física.
Nestes termos, se denuncia o pessimismo antropológico dos
realistas, não deixa de, com eles, coincidir, quando defende o respeito pelas lições da história, apesar de os considerar marcados pelo
cinismo. Por outro lado, tal como os chamados utopistas, acredita que o
pensamento pode modificar a conduta humana, embora não aceite que se ponha ênfase
na liberdade de escolha do homem de Estado.
Assume, assim, a perspectiva daqueles cépticos entusiastas que se
assumem como conservadores à maneira de
Hume
e de
Burke, defendendo o decurso do tempo e do costume, do curso natural das
coisas, num evolucionismo que desconfia do progresso fundacionista, como as
posturas de certos teóricos do contrato social, que acreditavam na
possibilidade de construção de um homem novo, como, então, ainda faziam os
chamados idealistas.