Os primeiros teóricos que autonomizaram o estudo das relações internacionais foram os que, preocupados com o fenómeno guerra, tentaram elevar polemologia à perspectiva tão absorvente que a guerra passou a ser vista como a continuação da política por outros meios, e a política, a ser entendida como a continuação da guerra, também por outros meios. Não faltou sequer a transformação dos Estados, como homens em ponto grande, em luta pela vida, mas onde só alguns poderiam atingir o nível da auto-suficiência, capaz de os transformar em Estados Normais.

No princípio esteve, sem dúvida, Karl von Clausewitz (1780-1831), o estrategista prussiano, director da Academia Militar de Berlim desde 1818, criador daquele conceito de guerra total que marca a actuação do Segundo Reich na guerra de 1914-1918, sob a direcção de Hindenburg e Ludendorff. A bíblia do modelo, Vom Kriege, foi por ele escrita entre 1818 e1831, mas apenas publicada postumamente, em 1832 (ver a trad. port. Da Guerra, Lisboa, Perspectivas & Realidades).

 

Celebrizado pelo facto de considerar a política como uma espécie de guerra sem efusão de sangue, logo perspectiva a guerra como uma simples continuação da política dos Estados, por outros meios. Porque a guerra não é senão uma parte das relações políticas e, por conseguinte, não é qualquer coisa que seja independente das mesmas … A guerra não é senão a continuação das relações políticas pelo recurso a outros meios. É o acto de violência cujo fim é forçar o adversário a executar a nossa vontade. 

Mas, como comenta Gustav Radbruch, a citação encontra, com efeito o seu fundamento, não tanto no facto de ser a política a inspiradora da guerra, como no de ser a guerra a inspiradora da política (FD, II, pp. 172-173).

Assim, o estrategista fala na estranha trindade da guerra. O seu elemento é a violência original. O seu modo de ser é o jogo (a probabilidade, o acaso). O seu espírito é a política.  E tudo foi suscitado pelos efeitos externos da Revolução francesa e de Bonaparte, esse deus da guerra, quando o sujeito político passou a ser o povo e a guerra absoluta, uma guerra popular. Porque com a nação em armas, a guerra identificou-se com o Estado em movimento, fundado na soberania do povo.

As respectivas obras são traduzidas em francês depois da derrota de 1870. Raymond Aron dedica-lhe o seu Penser la Guerre. Clausewitz, Paris, Gallimard, 1976.

 

Aliás, não é por acaso que os departamentos estatais, agora ditos da defesa, começaram como ministérios da guerra. De facto, a racionalização que os sustenta, a estratégia, vai buscar o nome ao étimo grego de general ou chefe militar, ao estratego, de stratos (exército) mais agein (conduzir).

Também não é por acaso que em Portugal damos o nome constitucional de defesa nacional ao que, noutros países, tem a designação de estratégia nacional (caso dos Estados Unidos da América), grande estratégia (caso inglês) ou estratégia total (teses francesas do General André Beauffre).