Quem consultasse um manual de relações internacionais anterior a 1989, poderia inventariar dois principais paradigmas a nível do universo de estudos ocidental. De um lado, aqueles que se autoqualificavam como realistas, e se proclamavam como os machiavellians, defenders of freedom, conforme o título de um célebre livro de James Burnham, de 1943. Do outro,  aqueles a quem os primeiros davam o nome de idealistas, apenas porque eram marcados pelo filosofismo clássico e avessos aos chamados métodos empírico-analíticos.

Por outras palavras, pondo num prato da balança o maquiavelismo, feito ciência, e no outro o platonismo, feito nefelibatismo, raros queriam vislumbrar o in medio virtus desse fértil terreno do ideal-realismo, de matriz aristotélica, onde muitos continuam a considerar que há essências, valores ou ideias, mas que estas (que las haye, las haye) não vivem apenas no céu dos princípios, dado que, para se realizarem, precisam  da existência de homens concretos, com carne, sangue e sonhos.

Porque, como já ensinava Francisco Suarez, não há princípios imutáveis e válidos para todos os lugares. Os princípios apenas se realizam quando são mediatizados pelo homem, quando se dá a simbiose entre o elemento racional dos mesmos e os factos, as circunstâncias do tempo e do lugar.

Aliás, a ideia de verdade, como a entendiam os escolásticos, implica conformidade, ou adequação, do pensamento a uma acção. Já para Locke, também a verdade se alcança por tentativas, é susceptível de mudar e está sujeita  a constantes exames e verificações. Neste sentido, quase se subscreve Bertrand Russell, para quem o verdadeiro liberal não é quem diz isto é verdade, mas sim aquele reconhece ser levado a pensar que nas circunstâncias actuais este ponto de vista é provavelmente o melhor.

Os princípios são o eixo da roda da mudança, pelo que, mudando a matéria, terão de mudar as consequências que deles podem extrair-se. Porque, como assinalava Arnold Toynbee, para um veículo avançar no caminho que o seu condutor determinou, tem que andar sobre rodas que monotonamente giram sempre em volta. Aliás, não é por acaso que a roda é o símbolo antigo da corrente do devir, do círculo da geração. Tem um centro imóvel, um eixo, símbolo da estabilidade espiritual, mas move-se, apesar do eixo se manter imóvel, porque representa a permanência de certos valores. Há assim uma revolução, um movimento ordenado em torno de um motor imóvel.

 Até porque há aquilo que Georges Gurvitch chama factos normativos, isto é, a ligação entre a acção empírica de uma comunidade real e a acção eterna dos valores morais. É que, como ensinou Claude Lévi-Strauss, os factos sociais são, ao mesmo tempo, coisas e representações.

 

Bem diversa é actual floresta de escolas e os imensos ismos conflituantes, principalmente nas universidades anglo-americanas, com teóricos da interdependência complexa, neomarxistas weberizados, invocando a herança da teoria dita crítica, misturada com o pós-modernismo e o dependencismo antiglobalizante, para não falarmos dos defensores do quarto e do quinto mundo ou dos que se reclamam do realismo periférico.

Mesmo, entre os que se dizem empíricos, surgem neofuncionalistas, modélicos da teoria dos jogos; continuadores do desenvolvimentismo modernizante; e até alguns ditos neo-realistas. Aparecem, depois, os hiperglobalistas; os que assumem o enfoque da economia política internacional; os defensores da teoria do regime internacional; os continuadores do internacionalismo liberal; os revisionistas neoliberais; os libertários; os comunitaristas. Fala-se em pós-internacionalismo; teoriza-se o construtivismo; retoma-se o tradicionalismo, bem como o materialismo histórico transnacional.

Isto é, não há fome que não dê em fartura, tal como não há cientismo que não acabe por implodir no fragmentarismo das seitas, mesmo que, nalguns lugares, persistam certos pretensos omniscientes que, ecleticamente, tudo continuam a cereberalizar, sempre à procura de um sincretismo que tanto não é capaz da hegeliana superação sintética, como desse materialismo transcendental que aceita a autonomia das ordens complexas e tenta o entendimento criativo de uma emergência que, dentro das próprias coisas, admite a continuidade das convergências e das divergências.

Assumem-se como tradicionalistas os que, no estudo das relações internacionais na actualidade, continuam a privilegiar os métodos clássicos da filosofia, do direito internacional e da história diplomática, numa reacção contra os exageros do realismo, do behaviorismo e do sistemismo, que, acreditando piamente nos métodos quantitativos e nos modelos formais, não conseguiram fazer adequadas previsões nem adequar-se à mudança. Chamam-se a si mesmos globalistas  certos cultores de tais áreas que, partindo e mantendo conceitos e crenças marxistas, tratam de atacar e distanciar-se daquilo que demonizam como realismo e pluralismo. Daí que os anti-realistas que, como tal poderiam qualificar-se, tratem de retomar a linguagem kantiana e se baptizem como cosmopolitas, enquanto se assumem como transnacionalistas todos os que acentuam o papel dos actores não-estatais ou dos padrões de conduta dos que actuam por cima das fronteiras.

A este respeito, apenas apetece repetir o conselho de Raymond Aron que, querendo começar por ser cientista de uma teoria cientificista, acabou por ser cientista de uma teoria contemplativa, ao vislumbrar, no fim do respectivo itinerário, que o conjunto o levou, contrariamente ao que pensava no começo, à determinação do sistema inter-estadual e à prudência do homem de Estado, passando pela análise das regularidades sociológicas e das singularidades históricas, o que constituiria o equivalente crítico ou interrogativo de uma filosofia.