Uma desconstrução perspectivista

 

As várias ciências que têm como objecto material a floresta das relações internacionais vivem nas suas torres de marfim analíticas, havendo raríssimas pontes interdisciplinares entre os vários discursos, face a conceitos operacionais contraditórios. Se a economia, a política e a estratégia apenas são coisas que os economistas, os politólogos e os estrategistas fazem, na falta da ratio studiorum de uma adequada teoria dos sistemas gerais, importa procurarmos lugares que sejam comuns aos vários discursos, para que, entre as diversas perspectivas de análise possam estabelecer-se pontos de contacto e de transmissão de ideias, de maneira que se evite o actual diálogo de surdos.

É neste sentido que se tornam necessários mundiólogos, dotados de uma sabedoria que vá além do mero saber-fazer das inúmeras ciências que visitam tal campo. Há que entender o todo, que o compreender, que saber ligar árvore com árvore, para acedermos à floresta. Há que compreender, que prender com, que prender coisa com coisa, para que possa ter-se uma espécie de intuição imediata da essência, mesmo que seja através da mera simpatia divinatória.

Seguindo a lição metodológica de Raymond Aron, também nós consideramos que no âmbito das relações internacionais não é possível o estabelecimento de regras gerais e, consequentemente, de uma verdadeira ciência à maneira do positivismo ou das regras do método sociológico. Urge encontrar o tal meio caminho entre a teoria e o acontecimento, entre o essencialismo e o empirismo, acreditando que as essências apenas se realizam na existência.

Basta recordar que o próprio Émile Durkheim chegou a confessar que as coisas políticas, das guerras às acções dos homens de Estado, porque nunca eram semelhantes não poderiam ser objecto de leis …

Há, com efeito, variadíssimos discursos científicos sobre o objecto material das relações internacionais, bem como conflituantes teorias, doutrinas e ideologias. Muitas são, de facto, as perspectivas, os lugares mentais que vão olhando para o mesmo mundo, pelo que importa fazer um abrangente inventário do processo. Começaremos pelas formas clássicas de tratamento do tema, com o discurso dos cultores do direito internacional e o modelo dos estrategistas e geopolíticos. Anotaremos, em seguida, a perspectiva dos diplomatas e não deixaremos de salientar os reflexos que todos estes têm nos jornalistas que vulgarizam a chamada vida mundial, para recordarmos o nome de uma das principais revistas que tivemos sobre a matéria.

Salientaremos até que em plana Guerra Fria, a objectividade dos discursos dependia da fonte que alimentava um dos dicionários vigentes. Porque a linguagem dos ocidentalistas e atlantistas conflituava conceitualmente com a dos pró-soviéticos ou dos que balbuciavam o anticolonialismo terceiromundista.

Queremos assim olhar as relações internacionais segundo aquilo que José Ortega y Gasset chamou perspectivismo. Porque talvez sejam igualmente válidas as mais distintas concepção do mundo e da vida. Porque, no fundo, tal diversidade depende sempre do ponto de vista, a partir do qual perspectivamos um todo que ninguém consegue captar integralmente. Porque cada vida é um ponto de vista sobre o universo.. Porque yo soy yo y mis circunstancias…Porque se os homens olham a mesma paisagem de vários lugares e não vêem o mesmo, não tem sentido que cada um declare falsa a paisagem alheia. Cada um apenas pode olhar o mundo, através da sua época, das suas circunstâncias e do seu discurso científico.

Afinal o espírito, como nos ensinou Benedetto Croce, é sempre circular, porque todas as suas formas estão numa situação de unidade/ distinção, dado que todas se implicam umas às outras.

As guerras metodologistas do crepúsculo do positivismo, onde continuam a embarcar pseudofuncionalistas e certas ilusões sistémicas, ainda obcecadas pela hiper-informação que nos veio da revolução behaviorista, ainda continua a proclamar que uma ciência só pode ser verdadeiramente científica quando é capaz de construir laboratórios de dados, quantitativamente recolhidos pelas lentes imediatistas.

Por nós que, nestes domínios, procuramos ter a humildade de seguir aqueles a que o consenso dos que pensam de forma racional e justa atribui a qualidade de mestre, apenas queremos recordar que já David Easton, nos fins da década de sessenta do século XX, reconhecia a necessidade de uma postbehavioral revolution. Isto é, que importava conciliar o importante contributo da informação resultante dos dados quantitativos, que, inequivocamente, alargou a base cognoscitiva, o objecto material das ciências sociais e politológicas, com o necessário choque qualitativo de teoria, sem a qual não há possibilidade de um autêntico objecto formal para qualquer ciência.

Aliás, muitos dos que mais invocam o cientificismo são os que têm vergonha das respectivas origens filosofistas ou que pretendem disfarçar uma postura simplesmente ideológica. Porque continua a ser eficaz a verbosidade dos que atiram todos os que não seguem a respectiva metodologia para o campo do mal. Geram-se assim sucessivos discursos fechados sobre a mesma realidade e manuais plenos de metodologismos, de teorias sobre como se deve caminhar, sem que nunca se caminhe para a compreensão daquilo que é o movimento da vida.

Não diremos que de um lado há os realistas e científicos e do outro os idealistas, normativistas, tradicionalistas e clássicos. Diremos que todos dependemos do sítio científico donde vamos olhando o mundo, cada qual com as suas palavras postas em razão, logos, ou discurso, nos arrazoamentos que nos dão voz para darmos a ilusão de cosmos ao caos onde estamos imersos.

Seguindo a lição de Hayek, em The Counter Revolution of Science. Studies on the Abuse of Reason (1952), diremos que, também no campo das relações internacionais, as coisas que servem de objecto material à actividade científica são aquilo que as pessoas que agem pensam que elas são. Essas tais coisas, como o Estado, a Soberania, a Nação e os muitos ismos que as recobrem não podem ser consideradas como data, devendo, antes, ser entendidas como reconstruções, com base numa selecção, porque tais coisas não existem para nós fora da teoria pela qual os construímos.

Não são unidades naturais nem dados empíricos, mas simples construções teóricas que não podem ter consciência nem vontade: a maior parte das grandes realizações humanas  não são o resultado de um pensamento conscientemente dirigido, muito menos o produto de um esforço deliberadamente coordenado de muitas pessoas, mas sim o resultado de um processo em que o indivíduo desempenha  um papel que nunca consegue compreender plenamente.

 

Hayek retoma aqui a tese do chamado individualismo metodológico, expressão cunhada por Carl Menger, um dos fundadores da Escola de Viena, e que representa uma orientação epistemológica, segundo a qual as tentativas que visam explicar os fenómenos sociais não são válidas senão quando assentam em hipóteses ou em factos que digam respeito aos indivíduos.

O método foi desenvolvido pela chamada sociologia compreensiva de Max Weber, quando assinalou que a unidade básica da sociologia é o indivíduo isolado, o único portador de um comportamento significativo. O racionalismo crítico de Karl Popper retoma a perspectiva, considerando que todos os princípios gerais da ciência mais não são do que simples hipóteses conjunturais, devendo recusar-se qualquer tipo de essencialismo.

Todos reagem contra os excessos das regras do método de Durkheim, essa redução dos factos sociais às maneiras de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo e que seriam dotadas de um poder de coerção, onde os factos sociais como coisas, apareceriam destacadas dos sujeitos, pelo que poderiam ser susceptíveis do mesmo tratamento que os factos naturais, nomeadamente no tocante às relações de causalidade.

 

A este respeito, quase apetece proclamar que não é a história que faz o homem, mas antes o homem que faz a história. Porque não há um processo histórico de que sejamos simples consequência, onde o indivíduo não passaria de simples emanação de um paralelograma de forças. O homem, como já proclamava Pascal, supera infinitamente o homem, isto é, as concepções do mundo e da vida que o fazem mero resultado de uma necessidade.

Só que o homem faz a história, não de acordo com um plano préconcebido na paleta de um arquitecto ou de um ideólogo, mas de acordo com leis que se desconhecem, porque toda a razão é sobredeterminada pelo mistério, por essa mão invisível que nos leva ao reconhecimento das acções dos homens como coisas que não dependem apenas das intenções de certos homens. Como proclamava Alexis de Tocqueville, o homem faz a história, mas sem saber que história vai fazendo.

A razão não é o restrito conceito etimólogico de ratio, entendida como o calcular ou o comparar, fazendo proporção. Abrange também o respectivo nome grego de logos, o discurso, as palavras em acção, entendidas como aquilo que se opõe à violência.

A razão não é apenas o reasonable do utilitarismo, aquele processo do animal que apenas calcula, que trata de conseguir o máximo de prazer com o mínimo de dor, o máximo de felicidade com o mínimo de esforço.

A razão engloba sempre tanto a racionalidade dos fins como a racionalidade valorativa (Weber), tanto inclui o lógico (logos) como o axiológico (phronesis), como ensina Paul Ricoeur.

Analisemos, pois, os diversos processos dedutivos pelos quais a nossa inteligência colectivo tem examinado, em sistema, os diversos aspectos do tema relações internacionais. Porque o homem, como já salientava Aristóteles, é um animal de discurso (logos), onde, ao contrário da voz dos outros animais, que apenas expressa a alegria e dor, também procura exprimir o útil e o inútil, o justo e o injusto.

 

Porque as parábolas do imaginário podem estar mais próximas da verdade que os modelos matemáticos, quase apetece repetir o velho mito grego da passagem do caos ao cosmos. Primeiro era o tal caos, o grande vazio cheio de trevas, essa desordem inicial, donde surgiu a fase da noite que se transformou numa imensa esfera que, dividindo-se em duas metades, se abriu em forma de concha. Daí emergiu o eixo que garante a coesão universal, o Amor (Eros). Uma das metades formou a abóbada do céu (Urano), a outra, o disco da terra (Geia). E da união entre estas duas metades é que surgiram as forças elementares, como a água (Oceano), o equilíbrio eterno do direito (Témis), a memória (Mnemosine) e o poder do espírito (Cronos). É deste que brota Zeus que, por sua vez, unindo-se a Témis, vai gerar a paz (Irene), a disciplina (Eunomia) e a justiça (Dike)… No princípio, continua a ser este verbo do animal simbólico, daquele que, além de razão e de vontade, persiste em ser imaginação.