Foi, neste ambiente intelectual que se estabeleceu a chamada doutrina Truman que começando por ter como objectivo o mero containment, ou contenção do comunismo, inspirada por George Kennan  e assumida pelo secretário de Estado Dean Acheson, de 1949 a 1943, logo evoluiu para a ofensiva do roll back, de John Fuster Dulles (1888-1959).

Tudo começa com o célebre artigo de Kennan, formalmente subscrito por um Mister X, que foi publicado em Julho de 1947 na revista Foreign Affairs, sob o título The Sources of Soviet Conduct, onde aquele diplomata se mostrava particularmente crítico daquilo que considera como idealismo legal, dos que pretendem tomar decisões ou conduzir uma estratégia em função de um regra previamente definida, a regras abstractas que não têm qualquer espécie de suporte institucional.

Mas, seis anos depois, em Outubro de 1953, já Dulles apresenta perante o Conselho Nacional de Segurança nova doutrina de luta contra o sovietismo, marcada pela deterrence (dissuasão), pelas massives retaliations (retaliação maciça) e pelo no shelting (não aos santuários).

Na altura, os norte-americanos ainda tinham superioridade nuclear, dado que a URSS, apesar de já possuir bomba H desde Agosto de 1953, não tinha possibilidade de atingir o território norte-americano. Com esta doutrina, os Estados Unidos não precisavam de mobilizar importantes forças convencionais, como ainda o tiveram de fazer na Guerra da Coreia. O modelo foi adoptado pela própria NATO em 1956.

 

John Foster Dulles (1888-1958). Advogado, especialista em direito internacional. Membro do Partido Republicano, de origens puritanas. Representante dos Estados Unidos na ONU de 1945 a 1948. Negociador do tratado de paz com o Japão de 1951. Secretário de Estado de Eisenhower desde Novembro de 1952. Demite-se em Abril de 1959 por razões de doença. Um dos apoiantes da construção europeia. Como dele diz Adenauer, nunca mentimos um ao outro e sempre actuámos de acordo com as virtudes cristãs, em nome de exigências morais. Apesar disso, acabou por ser mais prudente que a anterior administração democrática, nomeadamente quando não apoiou a França na sua luta contra os comunistas do Vietname. Do mesmo modo, opôs-se a intervenção franco-britânica no Suez e deixou que Moscovo esmagasse a revolta húngara de 1956.

 

Mesmo a administração Kennedy reelaborou estas linhas de força, principalmente por impulso de Robert McNamara, favorecendo a emergência de Estados de Segurança Nacional, principalmente na América Central e do Sul, de acordo com as teses constantes em The Essence of Security, de 1968, onde considera que a segurança é o desenvolvimento e sem desenvolvimento não há segurança.

Este homem de negócios, pós-graduado em gestão por Harvard, com uma carreira que o levou aos cumes da própria Ford, foi o encarregado da defesa norte-americana, de 1961 a 1968, passando, depois, para presidente do Banco Mundial, até 1981.

É o símbolo da nova geração de tecnocratas, marcados pelos pólos da Harvard Business School e da INSEAD francesa, que tentaram introduzir na grande política externa os modelos do behaviorismo. E não foi por acaso que tanta fé na medição quantitativa do poder o levou a ser um dos principais responsáveis pela intervenção norte-americana no Vietname, como recentemente confessa em In Retrospect. The Tragedy and Lessons of Vietnam.

Entre os seguidores do modelo, destaca-se o estrategista brasileiro Golbery do Couto e Silva, nomeadamente em Geopolítica do Brasil, Rio de Janeiro, José Olympio,1967, uma das bases do regime da Revolução de 1964, onde se faz uma espécie de síntese do organicismo de Herder, do idealismo de Hegel, do estatismo de Fichte e do nacionalismo económico de List. Acresce que em nome do planejamento, as ideias passaram a viver ao ritmo dos manuais básicos da Escola Superior de Guerra, desdobrando-se numa série de conceitos oficiosos, herdeiros do próprio positivismo, fundador da República brasileira. Aliás, nas mesmas águas mentais navegam outro especialista em geopolítica, o chileno Augusto Pinochet, onde o poder se definia como a força organizadora da vida social no sentido mais amplo que detém o Estado, compreendendo a organização da população para exercer a autoridade sobre o espaço e sobre a massa humana que se localizam no interior dos limites do Estado, tendo em vista pôr em prática a vontade do Estado.

O modelo manteve-se ainda até ao fim da Guerra Fria, sendo revigorado conforme os esquemas mentais de Henry Kissinger (n. 1924), um antigo estudioso da Europa da Santa Aliança, defensor de uma  nova Realpolitik, capaz de aplicar mundialmente o conceito europeu de equilíbrio das potências. Depois do 25 de Abril, chegou mesmo a considerar Portugal um caso perdido para o comunismo, admitindo que serviríamos de vacina para a Europa Ocidental.

 

Henry Kissinger nasce na Alemanha, de família judaica que se instala nos Estados Unidos desde 1938. Estuda em Harvard e faz uma tese de doutoramento sobre Metternich (1957). Conselheiro especial de Nixon desde 1969, passa a Secretário de Estado em Agosto de 1972. É o negociador da retirada do Vietname e das negociações com a China e Moscovo, preparando as visitas de Nixon a Pequim (Fevereiro de 1972) e Moscovo (Maio de 1972). Assume-se como um dos teóricos do neo-realismo,

 

Da mesma forma, o estilo realista permanece e Zbgniew Brzezinski, o principal conselheiro de Jimmy Carter. Curiosamente, os dois foram professores em Harvard.

 

Zbigniew Brzezinski Politólogo norte-americano de origens polacas. Professor na Columbia University de Nova Iorque e na John Hopkins University. Conselheiro dos presidentes democratas, de Kennedy a Carter. Nesta última presidência, foi director do National Security Council. Manteve funções de conselheiro, perito em matérias da Europa do Leste durante a presidência de George Bush. Um dos principais sovietólogos da Guerra Fria, analista do fenómeno totalitário. Entre as suas obras: The Permanent Purge, Cambridge Massachussetts, Harvard University Press, 1956. Ideology and Power in Soviet Politics, Nova Iorque, Praeger Press, 1962. Totalitarian Dictatorship and Autocracy, Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1956 [2ª ed., Nova Iorque, Praeger Press, 1965]. Com Carl Joachim Friedrich. Between Two Ages. America’s Role in the Technotronic Era¸Nova Iorque, The Viking Press, 1970. The Grand Failure. The Birth and Death of Communism in the Twentieth Century, [1ª ed., 1989], Londres, MacDonald & Co., 1990. Out of Control. Global Turmoil on the Eve of the 21st Century, Nova Iorque, Collier Books, 1993.