A explosão demográfica

 

Outra das revoluções globais tem a ver não só a explosão demográfica, com o aumento da população do mundo, mas também com a alteração quantitativa na proporção existente entre grupos étnicos. Certo neomalthusianismo chegou mesmo a falar na population bomb, ao comparar o aumento populacional do Sul com o decréscimo da população branca do Hemisfério Norte. A tal peste blanche que traduziria uma espécie de suicídio do Ocidente, onde começa a haver mais caixões do que berços, com terríveis ameaças contabilísticas para o equilíbrio do próprio Welfare State.

Retomam-se assim algumas das ideias de Thomas Robert Malthus (1766-1834) que em An Essay on the Principle of Population, de 1798, considerava que a população tende a crescer mais rapidamente, em rito geométrico, que a produção de alimentos, que apenas cresce em ritmo aritmético, havendo equilíbrio apenas por causa da guerra, da cobiça e da fome.

A dita raça branca, apesar de não ser minimamente científico tal conceito de raça e dos mesmos brancos serem menos brancos do que aqueles que eles chamam amarelos e a quem estes chamam  vermelhos, os ditos homens brancos, com que muitos confundiam a civilização ocidental, segundo alguns cálculos, se representavam 25% da população mundial nos começos da década de 1970, talvez não passem de um restritos 15% no fim da primeira década do milénio, porque o aumento do bem-estar gera o egoísmo da quebra de fecundidade, em nome do adiamento da entrada no mercado de trabalho e do comodismo da geração do filho único.

Continuamos, com efeito, a viver sobre uma bomba humana que ameaça o Planeta, para utilizarmos a expressão do professor de Yale, Paul Ehrlich. Porque ela não acontece nas relações do Sul com o Norte e não se detecta apenas nas praias vizinhas de Gibraltar, onde os polícias da Europa-Fortaleza tentam evitar o desembarque de muitos boat-people vindos de África. Ela é particularmente visível no interior do próprio Terceiro Mundo onde estão cerca de vinte das actuais megapólis com mais de dez milhões de habitantes, com essa quase quotidiana migração das populações camponesas para o sonho da grande cidade, à procura de pão, casa e luxo.

 

Esta urbanização caótica, este movimento de mudança de populações até então habitantes de áreas rurais para as grandes cidades, tanto é um efeito da revolução industrial como da própria revolução agrícola, dado que os novos processos técnicos tanto libertaram mão de obra das actividades agrícolas como a exigiram nos sectores industriais e dos serviços, notando-se uma sucessiva e galopante queda da população activa no sector agrícola.

Alguns sistemas políticos autoritários estabeleceram limites a essa circulação tanto pela exigência de autorizações de residência em determinada área como até pelo estabelecimento de modelos de passaportes internos, pondo, assim, em causa a liberdade de circulação de pessoas. Nos países onde não se estabeleceram essas restrições geraram-se formas rápidas e desordenadas de urbanização nos arredores das grandes cidades, criando-se sistemas concentracionários de suburbanismo ditas barracas, bairros da lata  e favelas, essas degradações destribalizantes que agravaram a subcidadania dos excluídos.

 

Com efeito, a população mundial que se manteve estável dos tempos de Jesus Cristo ao ano mil, multiplicou-se por vinte no último milénio. Mas, na segunda metade do século XX, o multiplicador entrou em ritmo quase febril: se em 1939 havia 2. 195 milhões de homens, esse número passou para 4. 453 milhões em 1980 e para 4. 842 em 1985, prevendo-se que atinja os 6. 127 milhões no ano 2000 e os 8. 177 milhões em 2025.

Ora, as preocupações malthusianas dos demógrafos dos anos sessenta, defensores de zero population growth, temendo que a proporção geométrica do aumento do número de homens continuasse a ser acompanhada pela mera proporção aritmética dos recursos alimentares, e que levou à criação de toda uma engenharia desenvolvimentista do mero crescimento económico, acompanhada pelos métodos do controlo da natalidade, bem próxima daqueles cálculos utilitarista que justificavam a guerra como um processo de brutalidade higiénica para a salvaguarda dos mais aptos, começa a dar lugar a outras preocupações, mais assentes nos que acentuam que cada homem é o próprio centro do mundo, e apelam para uma análise qualitativa do fenómeno.

Basta recordar que em cada 100 homens há pouco mais de 10 europeus, quase 6 norte-americanos, também quase 6 da ex-URSS e menos que 9 sul-americanos, contra 22 chineses e 20 membros índicos, para pouco mais que 11 africanos, enquanto quatro quintos da riqueza mundial continua a caber a uma sétima parte da população do mundo.

Este aumento quantitativo do número de seres humanos dá-se perante o vazio de um conceito de justiça mundial e a utilização de defeituosos conceitos de desenvolvimento. Basta recordar que sobre-explorámos os quatro principais sistemas biológicos que sustentam a vida humana, das terras aráveis às pastagens, das florestas à própria fauna dos oceanos, devastando e degradando a bioesfera.

A pobreza absoluta vai grassando. A fome choca-nos diariamente. A doença alastra. Gerámos milhões de refugiados. Transformámos o desemprego em mero número estatístico para a gestão dos macro-economistas. E apesar de muitos esforços, não nos revoltamos com o analfabetismo e, mesmo democratizando a instrução e a educação, não reparamos na explosão da iliteracia. Porque espalhando tantas canas de pesca, esquecemo-nos que não era pelo quantitativo que poderíamos ensinar a pescar.

A sociedade de massa gerou, com efeito, uma espécie de analfabeto educado, como nos ensina C. Wright Mills, dado que a educação perdeu a sua função crítica e passou a ser domesticada pelas necessidades da economia desta sociedade de massa com crescente especialização de funções, dado que se disfarça a existência de um poder invisível, fundado no arbitrário e manipulado por uma power elite.