Várias têm sido as tentativas portuguesas para a definição desse conceito complexo, feito de palavras analógicas, que Clausewitz começou por definir como a arte de utilizar as batalhas como um meio para se atingir o fim da guerra. Para Abel Cabral Couto, a estratégia tem por fim desenvolver e utilizar, com o máximo rendimento possível, as forças morais e materiais de um Estado ou coligação, com vista a atingir os objectivos  fixados pela Política e que suscitam ou podem suscitar, a hostilidade de uma outra vontade política.

Para Quesada de Andrade, é a arte e a ciência que se ocupa da escolha, preparação e emprego dos factores do poder nacional ( expressão integrada de todos os recursos da Nação - políticos, económicos, psicológicos e militares ), em tempo de paz , de tensão ou de guerra, para a realização dos objectivos definidos pela Política.

Por seu lado, Coutinho Lanhoso, considera-a como o processo de como fazer para realizar o que fazer (objectivos fixados pela Política), a despeito dos antagonismos, onde existe um potencial estratégico ou força total (o conjunto de forças materiais - ou tangíveis- e morais - ou intangíveis - que um estado ou uma coligação de Estados tem à sua disposição, como base de apoio da sua estratégia

Finalmente, para Virgílio de Carvalho, ela é a ciência e a arte de mobilizar o poder material e anímico dos países, e de o utilizar, por forma a realizar objectivos, vencendo a oposição de antagonismos.

Estas definições são tributárias dos esforços de alguns autores do behaviorismo sistémico que tentaram, de forma newtoniana, reduzir o poder de uma determinada unidade política a uma fórmula matemática. Para Ray S. Cline, antigo adjunto do director da CIA, por exemplo, o poder internacional poderia medir-se através da seguinte fórmula:

 

Pp= (C+E+M) x (S+W)

 

P= poder apercebido (perceived power)

C= massa crítica (critical mass): população e território

E= economic capability

M= military capability

S= strategic purpose

W= will to pursue national strategy

 

Assim, o poder apercebido  [Pp] é igual à massa crítica - função do território e da população [C] - mais capacidade económica [E], mais capacidade militar [M], vezes a coerência e adequação da estratégia nacional [S] mais a vontade nacional [W], em função quer da vontade anímica da população, quer da sua adesão à estratégia nacional concebida pelo poder estabelecido.

Os três primeiros elementos seriam os elementos tangíveis (tangible elements) que poderiam ser objectivamente  quantificados. Os dois últimos já seriam intangíveis, e só poderiam ser subjectivamente quantificados, embora assentassem em bases tangíveis.

Outras fórmulas costumam também ser invocadas, como a de Nicholas J. Spykman, onde a defesa equivale ao potencial dinâmico:

 

V= Q x  1 ED

 

Aqui,  Q é o potencial mássico (o somatório das forças materiais) e _  é o factor dinâmico. Na mesma fórmula E representa a resistência do meio e D, a distância a que o potencial mássico se encontra do ponto de aplicação. Já V é o potencial num determinado ponto e numa situação concreta.

Por seu lado, o General A. Beaufre utiliza a fórmula

 

V=KYF

 

Aqui, as forças morais são representadas por Y, F são as forças materiais e K, as circunstâncias do meio.

Também Richard Nixon ensaiou o seu modelo:

 

PN= (PH + Recursos) x Determinação.

 

Por seu lado, para Michael Haendel o  Poder é igual ao Poder próprio (condições geográficas, condições materiais, recursos humanos, capacidade estrutural), mais o Poder derivado de fontes externas (alianças formais ou informais).

Cabral Couto, procurando sincretizar este modelos, propõe a seguinte:

 

Poder= F x Y

 

F= Recursos militares, económicos, humanos, morais, etc.

Y= Auto-imagem + opinião dos outros).

Com efeito, a definição de estratégia nacional, está, assim dependente da noção de poder nacional. Segundo a escola sul-americana, ele é constituído por factores de toda a espécie; compreende todas as capacidades e disponibilidades do Estado, isto é, os seus recursos humanos, naturais, políticos, económicos, sócio-psicológicos e militares. É um conjunto de poderes que abarca todo o campo de acção do Estado, donde se define a estratégia nacional como a arte de preparar e de aplicar o Poder Nacional para obter ou manter objectivos fixados pela Política Nacional.

Nesta base, François Martins define o Poder Nacional como a capacidade que um Estado Nação possui para determinar o comportamento de outra unidade política ou impedir que por outra  seja determinado o seu, abrange  todo o conjunto de meios e recursos ('forças') de que esse Estado-nação possa dispor numa determinada situação concreta para aquele efeito.

 

A este respeito, apenas diremos, como já proclamavam os clássicos, que omnis definitio periculosa est, dado traduzir aquele essencialismo metodológico que, segundo Karl Popper significa a tentativa de resolver um problema factual com referência a definições, implicando a construção de pretensos axiomas, a partir dos quais, por dedução, seria possível explicar todas as coisas desse universo e estabelecer um sistema hierarquizado de conceitos, com as consequentes derivas normativas. Pensamos, sobretudo, nos manuais de planejamento estratégico, à maneira da Escola Superior de Guerra (ESG) do Brasil que tanto influenciaram o estrategismo português durante a guerra fria, por força dos modelos provindos do National Security Act norte-americano, de 1947.

 

Veja-se, a propósito, o Método para o Planejamento da Acção Política da Escola Superior de Guerra do Brasil, onde se estabelece que "o que é estratégia para um escalão dará origem à política para o escalão imediatamente inferior". Para este modelo, o vértice do sistema está no estabelecimento dos objectivos nacionais permanentes (ONP), "os propósitos da associação nacional e, portanto, do consenso - o mais amplo possível - de seus membros". Ora, "para a consecução desses fins definidos pela Política Nacional, emprega-se como meio o Pode Nacional. A maneira como se dará esse emprego constitui a Estratégia Nacional" e "ao Governo como delegado da Nação, caberá precisar essa opção estratégica nacional , estabelecendo o Conceito Estratégico Nacional". Depois,  haverá necessidades básicas, que são "as carências que devem ser atendidas para que se concretize a conquista ou manutenção dos ONP", bem como o "levantamento dos óbices", a determinação dos "obstáculos que dificultam ou poderão dificultar" o atendimento das necessidades básicas, a fim de se poder avaliar o Poder Nacional e definir os "Objectivos Nacionais Atuais" (ONA) que são de duas origens: "os que visam atender directamente às Necessidades Básicas e os que visam ao preparo do Poder Nacional, verificado ser este insuficiente para aquele fim".

 

Este trumanismo, ao acentuar a variante intelligence nos domínios da defesa, veio introduzir os elementos intangíveis na estrutura da defesa militar, possibilitando a degenerescência do Estado de Segurança Nacional, marcado pelo fantasma da guerra subversiva, que teve os seus epígonos nos autoritarismos sul-americanos dos anos sessenta e setenta e nos anos do fim do regime português da Constituição de 1933.

Diga-se que se a intelligence nasceu como resposta à propaganda nazi da totaler Krieg, veio a desenvolver-se como processo de resposta à estratégia indirecta da guerra fria. Apenas não previu a hipótese de subversão a partir do aparelho do Estado e da cadeia de comando político-militar, como ocorreu com o golpe de 25 de Abril de 1974

  Nestes domínios, é impossível dar uma fórmula matemática à variante imaginação (aquilo que Spykman refere como espírito nacional), que pode levar o pequeno David a vencer o gigantesco Golias, desmentindo, assim, a inevitabilidade do púcaro de barro poder ser esmagado no choque com a panela de ferro. As potencialidades, numa perspectiva dinâmica, podem transformar-se em vulnerabilidades, isto é, o excesso de poder, através de uma espiral concentracionária, pode levar ao próprio fim do centro do poder, como recentemente aconteceu com a União Soviética.

 

Com efeito, os Davids têm sempre à sua disposição aquilo que Adriano Moreira qualifica como poder funcional, a capacidade de submeter as grandes potências, usando a função mundial desempenhada pelos países interessados, a uma razoabilidade que a prática da ética não tem conseguido.

Como salienta o general André Beaufre, a estratégia não deve ser uma doutrina única, mas um método de pensamento que permite classificar e hierarquizar os acontecimentos e, depois, escolher os processos mais eficazes. A cada situação corresponde uma estratégia particular; qualquer estratégia deve ser a melhor numa das conjunturas possíveis e detestável noutras conjunturas (Introduction…, p. 11). Assim, a  estratégia  é arte da dialéctica das vontades que utiliza a força para resolver o respectivo conflito, onde a decisão é um acontecimento de ordem psicológica que se pretende produzir no adversário: convencê-lo de que desencadear ou prosseguir a luta é inútil (idem, p. 17).

 

A estratégia, como todos os globalismos que pretendem relacionar forças com ideias, tem, pois, a ver com o conceito de poder entendido à maneira de Thomas Hobbes, com os meios de obter qualquer bem aparente futuro, ou, como diz Bertrand Russell, com o conjunto dos meios que permitem conseguir os efeitos desejados. Participa, assim, no jogo da constelação de poderes (Bertrand de Jouvenel), que inclui forças, influências, contrapoderes, micropoderes e o próprio poder dos sem poder.

O que neste ponto temos de reconhecer é que urge estabelecer uma estratégia fundada numa ciência portuguesa da estratégia, que trate de nacionalizar conceitos importados da  América do Norte, do Reino Unido, do Brasil e da França, nos fulgores da guerra fria e da guerra subversiva que dentro daquela vivemos, aproximando-se tanto de uma visão própria das nossas relações internacionais como de uma endogeneização da nossa teoria política.

 

No caso português, outras vulnerabilidades importa referir: a insuficiência da nossa teoria (sobretudo, a não existência de uma resposta coerente face à ideologia anti-ideológica da modernização e do desenvolvimento, que aparece embrulhada nas teses do fim da história); a incapacidade da nossa educação; a fragilidade da nossa economia (porque não se cura o económico senão com o económico, mas não só com o económico e porque somos também a única economia ocidental - da UE e da OCDE - que não dispõe de uma única multinacional.

Importa acrescentar que, no plano económico, a inevitável e desejável internacionalização da nossa economia, através da total inserção no processo ocidental de troca e livre circulação de bens, serviços e capitais, significando que já não podemos ter a ilusão autárcica de vivermos com aquilo que produzimos, como era timbre do nacionalismo económico, obrigou-nos a ser crescentemente dependentes do exterior  no plano agro-alimentar, na produção de bens de equipamento e na energia. Deste modo, o nosso equilíbrio passou a estar ainda mais dependente do constante jogo das grandes negociações internacionais, correndo riscos de uma crise bolsista ou de uma alteração drástica dos preços de determinados bens essenciais. Isto é, no plano da economia, perdemos as alavancas fundamentais da independência.

 

Isto é, importa aproximar a estratégia da teoria das relações internacionais e da ciência política, mas também fazer com que estas se enriqueçam com o contributo da estratégia. Mais do que isso: importa fazer embrenhar a estratégia da metapolítica, para que esta possa compreender a zona dos valores intangíveis, que constituem sempre o seu factor dinâmico.

 

Como acaba por concluir François Martins, não há defesa nacional sem que haja vontade de defesa, e de nada  serve organizar e preparar a defesa se essa vontade não estiver assegurada. A vontade colectiva de defesa passa claramente pelo patriotismo. Se não há dedicação pela realidade social substanciada na Nação e politicamente organizada e representada pelo Estado, como pode haver disposição para aceitar os sacrifícios, em dinheiro, em esforço, ou em vidas, que a sua defesa necessariamente impõe? In Algumas Reflexões  sobre a Organização da Defesa Nacional, in revista Boina Verde, nº 129, 1984, continuação de uma série inciada no nº 127 e  continuada no nº 129..

 

Acontece apenas que quando guerras, enquanto continuação da política por outros meios, enquanto guerras dos povos (Ludendorf, 1937, p.22) passaram a guerras civis, regionais ou mundiais, a tensão dialéctica começou a fazer-se entre pólos complexos. Isto é, a guerra deixou de ser mera tensão entre o que está cá dentro e o que pode vir de fora, entre o amigo (Freund) e o inimigo (Feind), e passou a polemizar-se entre  o que está cá dentro e é a favor do que está cá dentro e um outro pólo que inclui o próprio estrangeiro de dentro ou quinta coluna.

A este respeito, basta  assinalar que tanto há agressões externas como agressões internas exteriormente fomentadas. E estas últimas tanto podem visar o simples aparelho de poder instituído (caso do chamado golpe de Estado), como o próprio Estado-Comunidade (a guerra revolucionária ou subversiva, inserida ou não num processo de agressão externa).

Com efeito, todas as guerras contemporâneas transformaram-se em guerras civis ideológicas, onde as guerras propriamente ditas são apenas um capítulo de uma guerra mais vasta que também inclui a longa fase das guerras frias, com as inevitáveis agressões ideológicas e as consequentes estratégias indirectas.

 

Para Clausewitz, por exemplo, a política externa era mais importante do que a guerra: a guerra não é apenas um acto político, mas  também um elemento, uma continuação das relações políticas, um prosseguimento destas por outros meios é a própria política que troca a pena pela espada.

Nesta senda, Ludendorf considera que a guerra é a suprema expressão da vontade da vida racial. Eis porque a política deve servir a guerra. Esta vontade anímica, esta alma do povo do mesmo general alemão resultaria da comunidade consciente de raça e de experiência racial de Deus, sendo equivalente à voz do sangue e tendo a interpretá-la o estado, como organismo racial, segundo a expressão de Adolfo Hitler. Mas nunca é demais salientar  que nem esta raça tem a ver com a raça do nacionalismo místico francês adoptada por Teixeira de Pascoaes, nem esta alma tem a ver com o Volksgeist de Savigny e da Escola Histórica do Direito, onde o povo é entendido como um ser vivo marcado por forças interiores e silenciosas e gerador da consciência ou do espírito popular.

 

Era a consagração da tese do Estado-Força, onde o próprio Marx se inspira quando observa que a guerra é militar em última instância . A sua sorte decide-se, antes de tudo, nas frentes da guerra económica e psicológica.

Teses que tanto levaram Lenine a considerar que a política é a continuação da guerra, como foram assimiladas por certas doutrinas ocidentais do realismo político que apostaram na derrota do adversário comunista pelas vias da economia e da informação.

De qualquer maneira, eis que a própria paz se transformou numa espécie de continuação da guerra por outros meios, eis que os reflexos condicionados da guerra global levaram a que todo o homem fosse uma guerra civil (Jean Lartéguy). dado o desenvolvimento de processos como a guerra psicológica (psywar), e a guerra económica (economic warfare)

Coisa que o nosso Padre António Vieira já tinha antevisto muito antes do General Beaufre ter cunhado a expressão estratégia total, quando considerava a existência de uma causa comum, que toca a todos em particular e no mais particular de cada um, porque a mais perigosa consequência da guerra e a que mais se deve recear nas batalhas é a opinião. Na perda de uma batalha arrisca-se um exército; na perda da opinião arrisca-se um reino.

Isto é, a estratégia deixou de ser, como em Clausewitz o emprego da batalha na guerra e passou a ser defesa nacional, estratégia total, grande estratégia ou estratégia nacional, fugiu da alçada dos militares  ou da política externa e passou a ser grande política, ao mais alto nível de valores e ao mais alto nível de decisões.

Para além da simples soma da estratégia directa com a estratégia indirecta, eis que, com a guerra fria ou a paz armada, a  paz e a guerra deixaram de ter fronteiras. Mais do que isso, segundo Carvalho Rodrigues, até ao surgimento da SDI, as forças em conflito trocavam entre si preponderantemente massa e energia. A partir da SDI as trocas passaram a ser de energia e informação. Portanto, manipular de forma matematicamente calculada a informação, eis onde está a guerra. camuflar, dissimular, criar a ignorância para ganhar a surpresa, e então agir com tremenda energia, rapidez e precisão.

Eis, assim, que a guerra passou a ser um jogo de guerra, um pouco como nos duelos dos torneios medievais, pelo que mais do que nunca o se queres a paz, se queres evitar a guerra, prepara-te para a guerra, passou a ser o essencial da própria guerra, tanto antes de haver guerra, como durante e depois da própria guerra.

E será sempre assim desde que entendamos a paz na óptica da balança dos poderes, a paz como simples estado dos Estados, essa  ilusão de estática num mundo que é essencialmente movimento.

Do mesmo modo, é ilusório dar à paz o nome de desenvolvimento. Porque o desenvolvimento é concorrência, competição, lei do mais forte, sucesso, uma luta pela vida onde a vida é considerada luta, ambição do homem de sucesso num movimento circular que é retorno da violência sobre si mesma.

O homem só se contém quando sublima a sua violência pelo transcendente, por aquele transcendente situado que toque na sua autonomia e na sua interioridade. Um transcendente que em termos de razão se chama direito; que em termos de Deus se chama religião; que em termos de simbolismo se chama valores. E a política é, precisamente, o tal processo global que faz a troca dialéctica desse processo humanizante - do indivíduo feito pessoa, do grupo feito republica maior, do animal sagrado por Deus; da cidade (urbe) transformada em universo (orbe); da história volvendo-se poesia; da guerra sendo vencida pela paz entre os homens de boa vontade.

Se assim não nos elevarmos, eis que o fim da guerra fria pode ser apenas um estado de guerra gelada, ainda mais fria, ainda mais guerra dentro de paz, porque corremos o risco de já não haver ideias pelas quais valha a pena morrermos