A procura da globalidade. Ou o terceiro grande debate das relações internacionais

 

Quando em plena Guerra Fria, as grandes organizações internacionais de vocação mundialista, tentavam analisar os grandes problemas contemporâneos, a linguagem utilizada mostrava-se geralmente asséptica, para não ofender o politicamente correcto dos dois grandes blocos dominadores do equilíbrio.

Poucos foram os pensadores e as organizações que conseguiram furar esse bloqueio, mas é justo salientar o esforço da Igreja Católica, principalmente depois das encíclicas Pacem in Terris e Populorum Progressio.

Merece também destaque o esforço do chamado Clube de Roma, fundado em 1968 na cidade de Roma por Aurelio Peccei (1908-1983), na velha academia de Galileu, a Academia dei Lincei, que tentou não obedecer aos métodos ideológicos de então. Peccei, consultor da Olivetti, da FIAT e da Itaconsult, assumira-se, na sua juventude, como resistente ao fascismo, chegando a estar preso, considerando que a chamada Realpolitik devia ser substituída por uma Realutopia, visando executar políticas e estratégias globais e colocar o mundo em condições de ser governado.

Foi, nesta base, que o grupo encomendou ao MIT (Massachusetts Institute of Technology) um relatório sobre os limites do crescimento, terminado em Julho de 1971 e publicado em 1972, Os Limites do Crescimento, sob a direcção de David Meadows.  Seguiram-se vários fundamentais relatórios sobre a conjuntura internacional, nomeadamente o que veio reconhecer a existência da primeira revolução global na história da humanidade.

 

Meadows, David, et alii, eds., The Limits to Growth. A Report for the Club of Rome’s Project on the Predicament of Mankind, Nova Iorque, Universe Books, 1972 [trad. fr. Halte à la Croissance, Paris, Librairie Arthème Fayard, 1972; trad. port. Os Limites do Crescimento, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1973].

Mesarivic, Mihajlo e Pestel, Eduard, Stratégie pour Demain, Paris, Le Seuil, 1974.

Inbergen, Jean, Nord-Sud, du Défi au Dialogue, Paris, Dunod, 1978.

Laszlo, Ervin, et allii, Goals for Mankind, Nova Iorque, Dutton, 1977

Gabor, Dennis e Columbo, Umberto, Sortir de l’Ère du Gaspillage, Paris, Dunod, 1978.

Montbrial, Thierry de, Énérgie. Le Compte à Rebours, Paris, J.-C. Lattès, 1978

Laszlo, Ervin, The Inner Limits of Mankind, Oxford, Pergamon Press, 1978

Guernier, Maurice, Tiers Monde. Trois Quarts du Monde, Paris, Dunod, 1980

Giarini, Oro, Dialogue sur la Richêsse, Paris, Economica, 1981

King, Alexander, Schneider, Bertrand, The First Global Revolution. A Report by the Council of the Club of Rome [1ª ed., 1991], Londres, Simon & Schuster, 1992.

 

O Clube que declarava não ter nenhum preconceito ideológico ou político foi, contudo, objecto de violentas diatribes, como a que lhe foi feita por Philippe Braillard, em L’Imposture du Club de Rome, de 1982, onde acusa o mesmo de se situar no plano do discurso mítico, introduzindo, subrepticiamente, um conjunto de escolhas políticas que procuram fazer passar por simples consequências indiscutíveis de uma análise lúcida e científica. Porque, ao pretender falar em nome da humanidade, mais precisamente, como defensor da sobrevivência da espécie humana, o Clube de Roma procura, pela via de uma ideologia tecnocrática, impor uma sociedade mundial planificada, guiada por gestores que têm por modelo a empresa multinacional.

Também antigos aderentes do  processo lhe lançavam violentas diatribes e Alfred Sauvy não se coibia de acusar o clube da produção de uma obra anticientífica, apesar de nele colaborarem homens como Sicco Mansholt, o antigo presidente da Comissão da CEE, ou um prémio Nobel como Jan Tinbergen.

Começou assim a gerar-se uma forma mentis, bem expressa por Edgar Morin que, em 1993, vem falar na necessidade de uma antropolítica e de uma política planetária, porque o que estava antes nos confins da política (os problemas do sentido da vida humana, o desenvolvimento, a vida e a morte dos indivíduos, a vida e a morte da espécie) tende a passar ao centro. Temos, pois, de conceber uma política de responsabilidade planetária.

Outro importante impulso organizacional veio da Comissão para a Governação Global, criada nos começos de 1990, pelo impulso de Willy Brandt (1913-1992), com o apoio do Primeiro-Ministro sueco da altura, Ingvar Carlsson, e do secretário-geral da Commonwealth e presidente do União Internacional para a Conservação da Natureza, entidade lançada pelo primeiro director-geral da UNESCO, de 1946 a 1948, o biólogo inglês Julian Huxley (1887-1975), irmão do autor de Brave New World.

Retomavam-se assim os esforços de vários relatórios do Clube de Roma, bem como do relatório da comissão independente sobre os problemas do desenvolvimento internacional, também presidida por Willy Brandt, publicado em 1980 (Nord-Sud. Un Programme de Survie, Paris, Gallimard, 1980).

Na mesma senda surgiu também outro importante relatório em 1980, dirigido por Gerald O. Barney, The Global 2000. Report to the President, U.S. Government Printing, Wasshington D. C., 1980.

Entre os notáveis mundiais que participaram nesse esforço da primeira comissão referida, destaca-se Jacques Delors e entre os nomes de língua portuguesa, há apenas que referir a brasileira Celina Vargas do Amaral Peixoto, directora da Fundação Getúlio Vargas. O relatório Our Global Neighborhood, datado de Novembro de 1994, acabou por ser publicado pela Oxford University Press, reflectindo muito dos esforços analíticos de todo um conjunto de homens de boa vontade na procura de um mundo melhor.

Não se confunda, contudo, este grito de alerta com certos ideologismos lançados no final da década de setenta do século passado, quando alguns dos mais preocupados deidiram fazer política a partir desse signo e se acolheram à sombra dos nomes de ecologismo e verdes. A ecologia (de oikos, casa) era até então um termo inventado em 1866 pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel, sendo definida como a ciência que tem como objecto o estudo das relações que se estabelecem entre o ambiente, o habitat, e os organismos vivos que nele habitam. E quando penetrou nos domínios da sociologia, logo passou a analisar a influência da localização espacial nas relações entre os homens.

A nova ideologia nascida nos anos setenta e estruturada em 1978 em torno do livro-manifesto do agrónomo René Dumont e do sociólogo Serge Moscovici, Pourquoi les Écologistes font-ils de la Politique?, de 1978, por seu lado, assenta nos vários relatórios do Clube de Roma, emitidos a partir 1972, consagrando-se o termo com várias vulgatas da altura, nomeadamente em 1979 com o trabalho de Dominique Simonnet, L’Écologisme.

Surgia assim uma espécie de nebulosa, ainda marcada pelo fenómeno dos hippies, que começava a ganhar direito a grandes reuniões internacionais, como a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente, realizada em Estocolmo em 1972, onde se proclama que a Terra é uma nave espacial com os seus passageiros e as suas reservas de provisões já muito consumidas.

Isto é, saltou das escolas científicas para o facto social das ideologias verdes, onde há que acrescentar outros teóricos como E. F. Schumacher (1911-1977) na defesa do small is beautiful, Petra Kelly (1947-1992) ou Murray Bookchin em The Ecology of Freedom (1982). Passou a querer tornar-se o Estado melhor, mais pequeno e mais perto da casa, para utilizarmos as palavras de Eggers e O'Leary, em 1995.

Já não se passeva apenas de bicicleta pelos Campos Elíseos nem se promoviam happenings de flores contra o nuclear, com protestos contra a caça à baleia ou a criação de ministérios do ambiente, ou da qualidade de vida.

Em termos de movimentos políticos, destaca-se a criação na Alemanha, já em finais da década de setenta da Aliança Política Alternativa, os chamados verdes. Em 1985, no Reino Unido, o anterior partido ecologista também mudou o nome e passou a designar-se por Green Party. Ambos defendem um radicalismo democrático descentralizador e novos modelos de desenvolvimento sustentável.

Contudo, dentro dos movimentos verdes, há várias tendências, desde os eco-socialistas aos que sustentam a necessidade de uma revolução cultural ou espiritual.

Invocando o nome de uma obra de Luc Férry, datada de 1992, começou a emergir uma nova ordem ecológica, onde alguns até começam a proclamar que para salvar a natureza é preciso matar o seu tirano, o homem.

Mas não é só destes extremismos que vive a ideologia. Merece destaque a obra de Ernst Fritz Schumacher (1911-1917), um economista alemão, formado em Oxford, que viveu na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, a partir dos anos quarenta. Porque, depois de se converter ao budismo em 1955, após uma visita à Birmânia, consagrou-se em 1973 com a publicação de Small is Beautiful. Economics as if People Mattered.

Partindo do princípio que são finitos os recursos planetários, propõe como alternativa à produção em larga escala e ao consequente consumismo, uma nova tecnologia limpa que assente no localismo, nomeadamente quanto à produção alimentar, que deve libertar-se do uso de pesticidas e herbicidas, através da agricultura biológica. Advoga também a limitação do uso do automóvel e a redução do consumo de energia.

Na mesma senda, o psicoterapeuta norte-americano Paul Goodman (1911-1972) em Growing Up Absurd, de 1960, criticava a sociedade tecnológica e o centralismo, assentes no mito da eficácia, bem como a ilusão marxista, que acusava de sociolatria.

Retomavam-se assim algumas das sementes do próprio pensamento de Mahatma Gandhi (1869-1948), quando este defendia um novo tipo de Estado, dito não-violento, que deveria abdicar da linguagem de comando e de uniformidade e passar a assentar em pequenas comunidades rurais, autogeridas e auto-suficientes. Diga-se de passagem que este celebrado exotismo oriental foi trazido por Gandhi da própria Europa, principalmente das ideias e práticas de um Lev Tolstoi, de tal maneira que a primeira quinta colectiva, ou ashram, que o indiano lançou nos arredores de Durban recebeu o nome desse russo, inspirador do anarquismo místico.

Outro dos precursores é o brasileiro Josué de Castro (1908-1973), professor de geografia humana no Rio de Janeiro desde 1939 que foi presidente da FAO de 1952 a 1956, autor de Geografia da Fome, com uma primeira edição de 1946, a que se seguiu a Geopolítica da Fome, em 1951, O Nordeste do Brasil, de 1965, e Homens e Caranguejos, de 1966.

Há até um certo extremismo ecologista que, na senda de Rudolf Bahro, pretende fazer a ligação com uma espécie de procura da Idade do Ouro das sociedades pré-industriais e que se aproxima de algumas pregações do próprio Adolfo Hitler, o que até explica a adesão aos verdes alemães de um Ernst Junger (1895-1998). Outros, como Ivan Illich (n. 1926) chegam mesmo a defender mais do que um desenvolvimento sustentado, isto é, uma sustentabilidade sem desenvolvimento, contra o consumismo e através de uma espécie de ascese, típica da pobreza cristã. Não faltam até os que misturam o naturalismo do século XVIII com as teorias apocaliptícas, assim se gerando toda uma literatura catastrofista que se insurge contra a modernidade e a religião do progresso.

De qualquer maneira, o ecologismo atravessa todas as anteriores ideologias, da direita à esquerda, dos tradicionalistas aos revolucionários, configurando-se mais como uma forma de olhar o mundo. Hitler com os seus devaneios wagnerianos era tão ecologista como o salazarista viver habitualmente, mas, depois de 1974, também verificámos que o primeiro movimento ecologista foi assumido por Gonçalo Ribeiro Teles (n. 1922), a nível do Partido Popular Monárquico, antes dos comunistas gerarem um partido verde, que alguns qualificaram como melancia, dado ser verde por fora, mas vermelho por dentro.

Aliás, vivia-se um tempo de grandes catástrofes industriais, bem expressas pelos desastres das centrais nucleares de Three Mile Island (1979) e Tchernobil (1986). A consciência deste risco tecnológico maior levou até a que se reunisse a chamada Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro, de 3 a 14 de Junho de 1992, também dita Eco 92, onde se estabeleceu um novo conceito de desenvolvimento para o reequilíbrio das relações Norte-Sul, dito socialmente equitativo, ecologicamente viável e conscientemente eficaz.

Mas outros desafios continuam à espera de resposta, como a mudança climática, o aquecimento do Globo, as chuvas ácidas, a desertificação, o desaparecimento das florestas e do solo arável, a destruição das espécies, a poluição dos oceanos.

Porque se os homens já tomaram consciência desses dramas globais, não chegaram ainda a uma definição de uma estratégia de intervenção transnacional.