Robert Keohane e Joseph Nye, em Power and Interdependence. World Politics in Transition. Boston, Little-Brown, 1977, analisando as várias e complexas conexões internacionais, vêm falar numa interdependência complexa entre Estados e sociedades, salientando que aumentaram as económicas e decresceram as militares que, no entanto, continuam importantes.  Esta tese, marcada por uma perspectiva liberal e pluralista, veio contestar alguns dos pressupostos da escola realista, principalmente ao não colocar a segurança militar como o centro da agenda das relações internacionais.  Acentuam os actores transnacionais e transgovernamentais, observando que o mundo deixou de ser apenas um conjunto de Estados, passando a ser uma sociedade mundial.

De certa maneira, lançam as relações internacionais para a área da economia política, mas, mantendo algumas das heranças do realismo, ainda colocam as organizações internacionais, inter-estadualmente constituídas, como o centro das relações internacionais. Desencadeiam, portanto, todos os posteriores globalistas e transnacionalistas, para quem o bem estar económico, no plano da política internacional, passava a ser tão importante quanto a segurança.

 

Robert Keohane, actualmente professor na Duke University de Durhan, doutorou-se em Harvard em 1966. De 1974 a 1980 foi o editor do jornal International Organization. Autor de After Hegemony. Cooperation and Discord in the World Political Economy, Princeton, Princeton University Press, 1984 e Neorealism and Its Critics, Nova Iorque, Columbia University Press, 1986. Com Joseph Nye, publicou Power and Interdependence. World Politics in Transition, Boston, Little, Brown & Co., 1977 [reed., Glenview, Scott, Foresman & Co., 1989] e International Institutions and State Power. Essays in International Relations Theory, Boulder, Westview Press, 1989. Joseph S. Nye Jr., actualmente o decanos da Kennedy School da Universidade de Harvard, onde se doutorou. Entre as suas mais recentes obras, destaque para Democracy. Com?, 1999; The Paradox of American Power, 2002.

 

Tentando a adopção de uma terceira via, assumem a chamada herança grociana, salientando que em vez da tensão entre paradigmas alternativos, deveria assumir-se a necessidade de uma coexistência de paradigmas. Nesta base, Keohane também lança as bases dos modelos do institucionalismo neoliberal e do transnacionalismo. Apesar de considerar o realismo como uma componente necessária, como a premissa quase universalmente aceite no plano da análise das relações internacionais, defende a pluralidade dos actores internacionais, acentuando as relações comerciais, o meio ambiente e a escassez dos recursos, dando, do mundo, a espécie de uma rede ou de uma teia interdependente.

Considerando que o mundo vive da tensão entre a hierarquia e a anarquia, assinala que as instituições internacionais mitigam o impulso dos Estados para a anarquia. Instituições que, em 1989, define de maneira bem diversa de Maurice Hauriou, salientando que as mesmas não passam de um conjunto de regras (formais e informais) persistentes e relacionadas entre si que prescrevem papéis, limitam a actividade e modelam as expectativas. Daí a definição de sistema internacional como uma rede de regras, normas e procedimentos que configuram o comportamento e controlam os seus efeitos num campo de actividade.

Com efeito, o termo instituição não tem, na politologia anglo-americana, o sentido preciso que lhe deu o professor francês de direito público, que alguns consideraram o Montesquieu do século XX. Para Talcott Parsons, por exemplo, a instituição não passa de um complexo de funções com significação estrutural estratégica, onde se dá a integração das expectativas dos actores num sistema correspondente de interacções dos papéis, num esquema comum de valores, de carácter normativo. Neste sentido, considera que podem existir instituições relacionais (relational institutions), instituições reguladoras e meras instituições culturais. Porque, para que se forme uma instituição, basta a conjugação da liderança, da autoridade, entendida como lugar onde se acumula e a partir do qual circula o poder, e da regulação.

Keohane, ao aceitar que a cooperação pode acontecer sem que necessariamente se caia na hegemonia e ao dar importância às políticas transnacionais e às instituições internacionais, aproxima-se da chamada teoria dos regimes internacionais de Krasner, definidos como uma forma de instituição internacional na qual há uma convergência significativa entre os Estados a respeito de normas, regras e procedimentos, mas não necessariamente uma organização formal.

Este conceito também nada tem a ver com a densidade da ideia de regime político, na senda de Aristóteles e de Montesquieu. Os regimes internacionais para Krasner não passam de meros arranjos ou entendimentos, de um conjunto de princípios, implícitos ou explícitos, de normas, de regras e de processos de decisão, para os quais convergem as expectativas dos actores. A teoria, aliás, apenas quer evidenciar a existência de um conjunto de actividades que passam por cima das fronteiras, mas onde os vários actores concordam intersubjectivamente, quanto a princípios, normas, regras ou procedimentos.

Logo, os Estados, quando aderem a um desses regimes internacionais, aceitam sacrificar interesses imediatos, visando a criação de condições para uma cooperação a médio e longo prazo. Os regimes internacionais contribuem assim para o desenvolvimento de práticas convergentes, definindo as regras do jogo e delimitando comportamentos legítimos em domínios específicos, pelo que estabilizam as trocas entre os Estados, reduzindo muitos custos, como acontece com o regime da liberalização das trocas, desencadeado pelo GATT.