É neste contexto teórico que emerge Morton A. Kaplan, nascido em 1921, doutor pela Columbia University de Nova Iorque em 1951, com o livro System and Process in International Politics, de 1957, obra que vai marcar a correcção estrutural-funcionalista do fundo realista da ciência das relações internacionais norte-americana do pós-guerra, acentuando uma nova versão da teoria da balança do poder.

Profundamente influenciado pela emergente cibernética, tanto pelos trabalhos de Norbert Wiener (1864-1964), como de W.  Ross Ashby, tentou estabelecer seis modelos de sistemas internacionais, tanto sincrónica como diacronicamente.

 

Norbert Wiener (1864-1964), professor de matemática no Massachusetts Institute of Technology, de 1932 a 1960, é considerado o fundador da cibernética, o estudo do processo de comando, regulação e comunicação, tanto nas máquinas como nos seres vivos e nos grupos que estes constituem, dado que todos eles actuariam graças à aquisição, ao uso,  à conservação e à transmissão da informação. A sua principal obra é Cybernetics, 1948, com uma  2ª ed., Cambridge, Massachussetts, MIT Press, 1961 [trad. fr. Cibernetique, Paris, Éditions Hermann, 1948].  Outro trabalho importante é Cybernetics and Society. The Human Use of Human Beeings, Garden City, Doubleday Books, 1952.

Por seu lado, W. Ross Ashby reduz a ideia de sistema à de uma máquina que recebe inputs, salientando que a fonte da mudança do mesmo vem principalmente do respectivo exterior.  Reconhece, no entanto, que, apesar das sucessivas mudanças, há qualquer coisa nessa unidade que não muda e permanece invariável no decurso das sucessivas mudanças. Ver Introduction à la Cibernétique, Paris, Dunod, 1956 (trad. fr.).

A expressão cibernética vem do grego kybernetes (o piloto ou timoneiro de um barco), base donde também deriva a palavra latina gubernare. A expressão já havia sido usada por Platão, a quem também cabe a comparação do acto de governar com o de pilotar um navio, onde kubernesis significava direcção e kubernetes, piloto. Daí vem a metáfora nau do governo, onde o chefe se assume como timoneiro e os sistémicos, como Karl Deutsch, até define o governar como a pilotagem do futuro.

A expressão cibernética foi, depois, retomada por Ampère, no seu Essai sur la Philosophie des Sciences.  O inciador da Revolução Industrial, James Watt, nos finais do século XVIII, até deu o nome de governor a um regulador centrífugo e Clerk Maxwell, em 1868, fez um ensaio sobre este instrumento.

Em 1956 chegou mesmo a fundar-se uma Sociedade para o Desenvolvimento da Integração dos Sistemas Gerais, editora da revista General Systems. A proposta já vinha dos anos vinte, do biólogo austríaco Ludwig von Bertallanfy (1901-1972), visando a constituição de um movimento de unificação das ciências, onde cada disciplina deveria ter uma teoria geral abstracta para integrar o conhecimento adquirido nas outras, desenvolvendo-se o processo de comunicação entre os vários campos de investigação. Este biólogo, amigo de Hayek, nasceu em Viena, onde chega director do Instituto de Estudos Biológicos, tendo-se nos Estados Unidos a partir de 1949. Considera que a vida é uma luta contra a entropia, através da informação. Ver «General Systems Theory. Foundations, Developments, Applications», in General Systems, vol. I, 1956 [reed., Nova Iorque, Brazillier, 1968; trad. fr. Théorie Générale des Systèmes, Paris, Librairie Dunod, 1973].

 

 

Vivia-se a infância desta arte, quando se acreditava que todo o mundo podia ser capturado pela ideia de sistema, ou como um conjunto de sistemas. Sistema era, aliás, definido como um conjunto de elementos interdependentes, como um todo feito da interacção entre as suas diversas partes, mas onde esse todo actua num determinado ambiente, do qual recebe inputs e para o qual envia outputs, em regime de circularidade, porque os sistemas não são estáticos, mas antes sistemas de acção.

Segundo Ludwig Von Bertallanfy, sistema é um conjunto de elementos que se encontram em interacção, distinguindo entre sistemas abertos e sistemas fechados. O sistema aberto é todo o sistema que se relaciona com o ambiente onde se insere, adaptando a sua estrutura e os seus processos internos ao ambiente. Pelo contrário, o sistema fechado é o que não tem contacto significativo com o ambiente.

O sistema aberto tem informação, comunicação, organização, complexidade e heterogeneidade. O sistema fechado, onde apenas há matéria, tem caos, simplicidade, homogeneidade, determinismo, causalidade e entropia: um sistema aberto define-se como um sistema que troca matéria com o meio ambiente, apresentando importações e exportações, elaborações e destruições dos seus componentes materiais. Nele, a ordem é continuamente destruída e a adaptação é sempre possível graças à entropia negativa, pelo que o mesmo estado pode ser atingido a partir de condições iniciais.

Outro aplicador da teoria dos sistemas às relações internacionais é Karl Wolfgang Deutsch  (1912-1992).Nascido em Praga, sob o Império Austro-Húngaro. Este alemão dos Sudetas, formado em direito na actual capital da República Checa, emigrou para os Estados Unidos logo em 1939, doutorando-se em Harvard em 1951, com a dissertação Nationalism and Social Communication. An Inquiry into the Foundation of Nationality, Cambridge, Massachussetts/Nova Iorque, MIT -Press/John Wiley & Sons, 1953. Foi professor no MIT de Boston (1945 a 1956), em Yale (até 1967) e, depois, em Harvard. 

Foi um dos principais introdutores no âmbito da politologia dos modelos cibernéticos e da teoria dos sistemas gerais, principalmente na obra The Nerves of Government. Models of Political Communication and Control, Glencoe, The Free Press of Glencoe, 1963, bem como em Politics and Government, Boston, Houghton Mifflin, 1970 [trad. port. Política e Governo, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1979]. Estendendo o processo no âmbito da política internacional, deixou-nos marcos fundamentais nessa matéria como Political Community at the International Level,  Nova Iorque, 1954. Nation Building, Nova Iorque, Atherton Press, 1963 (com W. J. Foltz); Political Communithy and the North Atlantic Area. International Organization in the Light of Historical Experience, [1ª ed., 1957], Princeton, Princeton University Press, 1969; The Analysis of International Relations, Englewood Cliffs, New Jersey, Prentice-Hall, Foundation of Modern Political Sciences Series, 1968 [trad. cast. El Análisis de las Relaciones Internacionales, Buenos Aires, 1974]; Nationalism and its Alternatives, Nova Iorque, Alfred A. Knopf, 1969; ECO-Social Systems and ECO-Politics. A Reader on Human and Social Implications of Environmental Management in Developing Countries, Benan Associates, 1977; Tides Among Nations, Glencoe, The Free Press of Glencoe, 1979. 

A última obra que escreveu, juntamente com Bruno Fritsch, é uma profunda reflexão sobre os perigos que nos reserva o futuro, mas com muita fé na sobrevivência humana, tendo como título Perilous Passages. Conflict in World Politics in the Next Half-Century. Aliás, o livro de estudos em sua homenagem tem um significativo título From National Development to Global Community. Essays in Honor of Karl W. Deutsch, edição de Richard L. Merrit e Bruce M. Russet, Boston, Allen & Unwin, 1981.

 

O modelo dos sistémicos, contudo, bifurcou-se, dado que alguns insistindo na estrutura, preferem a estrutura propriamente dita, privilegiando nas suas análises a chamada configuração do poder, enquanto outros, menos estruturalistas, insistem no papel ou na função que os actores desempenham. Daí que os funcionalistas, segundo a acusação dos realistas estruturalistas, tendam a ser mais normativistas e mais institucionalistas, quando tratam de procurar a forma como o sistema ou os sistemas satisfazem as necessidades ou aspirações dos elementos que os compõem.

Invocando o qualificativo funcionalista, se uns, como Haas, continuam a analisar preferencialmente as organizações internacionais, outros dão prioridade aos actores e aos processos que actuam e influenciam o palco mundial abaixo, ao lado e acima dos Estados, salientando o papel dos funcionários supra-estatais como os eurocratas, dos grupos de interesse e das multinacionais, que passaram a preponderar, deixando em segundo plano os diplomatas e os aparelhos estaduais dos negócios estrangeiros.

 

Refira-se que a imagem da balança do poder tanto é utilizada na linguagem das relações internacionais, enquanto balance of power policy, a atitude que tenta evitar que um qualquer Estado tenha demasiados poderes no contexto do sistema da política internacional, como no âmbito interno de cada Estado, balance of power, enquanto a distribuição doméstica do poder pelas várias instituições estaduais.

A expressão no tocante às relações internacionais foi consagrada para caracterizar a política do rei inglês Henrique VIII que perante os dois pratos das balança da política europeia de então, as potências da Espanha e da França, tentou assumir-se como um terceiro desequilibrados e, consequentemente, como o fiel da balança. Diz-se hoje da ideia segundo a qual importa evitar que uma só potência, tanto a nível mundial, como no tocante a uma determinada zona geográfica tenha demasiados poderes militares que lhe permitam dominar os outros Estados.

Em 1742, David Hume dedicou um ensaio ao tema, On Balance of Power, e em 1758 Emmerich de Vattel definiu o princípio: uma situação em que um Estado não esteja em situação de predominância e não possa impor o seu poder aos outros.

Os britânicos voltaram a usar o termo no século XIX visando evitar o sistema napoleónico, onde a hegemonia solitária da França apenas foi derrubada através de uma coligação negativa de todas as outras potências, passando a ser comum o uso da expressão balança da Europa, conforme o título de uma obra do nosso Almeida Garrett, publicada em Londres no ano de 1830. Neste sentido, a diplomacia britânica considerou que as alianças não são uma questão de ideologia, mas antes uma exigência do pragmatismo no sentido do equilíbrio dos poderes capaz de evitar o surgimento de uma potência hegemónica. Até alguns falam nesse modelo de estabelecimento de uma paz geral na Europa recorrendo a outras metáforas, com o elefante francês a dominar no continente, e a baleia britânica a comandar nos mares (Paul Kennedy).

Depois da Segunda Guerra Mundial passou a falar-se numa balança de terror. Mas o pragmatismo continuou, desde a política soviética dos anos oitenta, quando apoiou o Iraque na sua luta contra o Irão, à política norte-americana que admitiu um Vietname forte para contrabalançar a hegemonia da China na região do Sudoeste asiático.