Não há discursante politiqueiro dos dias que correm, incluindo a
candidatura presidencial francesa de Le Pen, que não repita o grito do mediático
subcomandante Marcos, quando, ao tentar resumir todo o objectivo da sua luta,
clamou estar pela humanidade contra o
neoliberalismo.
Mesmo alguns, com importantes responsabilidades universitárias, ao
cederem ao binário dos seus impulsos juvenis, quando confundem as cimeiras
sociais de Porto Alegre com os festivais revolucionários do Maio de 1968 ou de
Woodstock, acabam por configurar
uma espécie de nova cruzada contra os infiéis criadores de uma
globalização que teria sido congeminada pelas diabólicas forças de uma
direita com capitalistas que misturam chapéus de coco com almas de
corsários. Com efeito, este gauchisme acaba por restabelecer uma
nova forma de république des lettres, tal como
Pierre Bayle nos finais do século XVII, acaba por reduzir ao
maniqueísmo dos slogans uma realidade bem mais multidimensional.
Outros há que, tendo consciêmncia dos efeitos alienantes dos males
da globalização, recorrem aos velhos arsenais do soberanismo e das
justificadas reacções dos que têm medo da competição, acabando por cair na
anterior alienação do domínio do Estado. Nem sequer reparam que o Estado e o
Mercado emergiram das mesmas circunstâncias da modernidade, e que ambos
receberam de
Thomas Hobbes igual certidão de nascimento intelectual. E mesmo quando
invocam a revolução perdida do jacobinismo nem sequer notam que, ao fazerem
dialogar directamente o indivíduo com o vértice estadual, liquidando os corpos
intermédios e os corpos trans-estatais que lhe davam companhia, apenas estão a
contribuir para a respectiva solidão.
Raros são também aqueles que reparam no facto de já nos começos
do século XX ter surgido um new
liberalism, com
John Atkinson Hobson,
Leonard Hobhouse
e
Thomas Hill Green, que tratou de criticar os anteriores excessos de
individualismo liberalista e passou a admitir a intervenção do Estado no
sentido do bem-estar.
Aliás, até foi o mesmo
Hobson
que escreveu Imperialism, em 1902,
base a partir da qual o próprio
Lenine elaborou a teoria do imperialismo que fez
uma ampla revisão do velho marxismo do outro século.
Tentando dar um pouco mais de rigor a esse universo, importa referir
que há, pelo menos, três correntes dentro da família liberal do século XX.
Se alguns, como
David Friedman, Barry Norman e Murray
Rothabard, quase se assumem como libertários e anarco-capitalistas, na
defesa de um radical capitalism; se
outros, na senda de
Friedrich Hayek
e
de
Robert Nozick, apesar de considerarem a justiça social como um termo sem
sentido (meaningless), admitem o
intervencionismo estadual, nomeadamente nas áreas da educação e da saúde; há
também muitos outros que, retomando
os dois Hobs, querem situar-se esquerda
da direita, rejeitando o socialismo
liberal de
Norberto Bobbio
e procurando cunhar-se como adeptos de um social-liberalismo.
É o que tem vindo a defender o filósofo do direito brasileiro
Miguel Reale, em O Estado Democrático
de Direito e o Conflito das Ideologias, São Paulo, Saraiva, 1998, ou o também
brasileiro
José Guilherme Merquior,
em O Liberalismo. Antigo e Moderno, de
1991.
Até podemos encontrar um discurso conciliador do liberalismo e do
catolicismo, como manifesta
Michael Novak,
em The Spirit Of Democratic Capitalism,
de 1982, para quem o capitalismo democrático é um sistema tripartido: económico,
moral e político ao mesmo tempo, mais do que um sistema é um modo de
viver marcado pelo pluralismo, isto é, pelo não conhecimento de um
sentido colectivo do que é bom e verdadeiro, como defendem tanto os
tradicionalistas como os socialistas.
O que passaria tanto por uma separação entre a economia, a política
e a religião, como por uma das teorias
menos moralmente pretensiosas, o utilitarismo de
Bentham. Ora a própria estrutura do capitalismo democrático tem por
alvo a comunidade, mas não, evidentemente, na linha nostálgica da
Gemeinschaft, mas como uma nova ordem de comunidade, a comunidade de pessoas
livres, em associações voluntárias e que se traduz em quatro ideias
estruturais: a do progresso mundial ou da riqueza de todas as nações,
que é uma intenção social e universal; a ideia de empresa que é um
instrumento social novo de interdependência, privilegiando a cooperação
em lugar do proteccionismo bem como o ethos
da cooperação
O discurso contra aquilo que os Papas qualificam como o
liberalismo sem freio, gerador de uma nova ditadura, daquilo que
Pio XII qualificou como o imperialismo
internacional do dinheiro, talvez não abranja um modelo de liberalismo
ético, defensor de uma regulação da actividade económica, nomeadamente
pelo estabelecimento de regras de concorrência.
Como
João Paulo II veio reconhecer, se
por capitalismo se indica um sistema económico que reconhece o papel
fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da
consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade
humana no sector da economia, a resposta é certamente positiva. Faltaria,
contudo, um sistema onde a liberdade no
sector da economia esteja enquadrada num sólido contexto jurídico.
O primeiro dos fundamentos do Estado e do Mercado está precisamente
na pretensa lei do bellum omnium contra
omnes, naquele pessimismo antropológico que também levou à teorização
de
Charles Darwin da luta pela vida,
para a selecção natural dos melhores, tudo em nome de uma necessária mão
invisível que tudo equilibraria mecanicamente.
O
velho modelo de liberalismo gerado pela escola clássica da economia e do free
trade, proveniente das teses de
Adam Smith e que gerou a Weltpolitik
do Império Britânico, defendendo como princípio da ordem mundial uma
ideia de comércio entre países, liberto das teiaas proteccionistas das restrições
quantitativas a importações e das taxas aduaneiras, típicas do mercantilismo,
foi reelaborado pela vaga teórica
posterior ao New Deal e keynesianismo,
principalmente quando, em Abril de 1947, surgiu a Societé
du Mont Pélérin, onde, em torno de
Ludwig Von Mises e
Friedrich Hayek,
se reuniram nomes como
Bertrand de Jouvenel,
Wilhelm Röpke,
Karl Raimund Popper, Lionnel Robbins,
Milton Friedman e Fritz Machlup.