Dizer relações internacionais, apesar da intencional normatividade da semântica apelar para uma impossível relação entre nações, quando a maioria destas são nações sem Estado, ou até nações em revolta activa contra aqueles Estados que as continuam a proibir, começou por querer dizer relações entre Estados Soberanos, a que acresceram as organizações que os mesmos constituíram, ou admitiram.

Só mais recentemente se tornaram incontornáveis novas realidades no espaço de tal campo conceitual, situadas na zona do não-estadual, aquilo que em inglês se diz non government e que alguns apressadamente qualificam como sociedade civil, na senda de Hegel e de Marx. Aquele largo espaço das chamadas fraternidades cívicas, para utilizarmos uma expressão de Jacques Maritain, das formações independentes do Estado e que reflectem a extraterritorialidade da pessoa face aos meios temporais e políticos.

Aliás, antes de, no século XIX, se ter consagrado o nome nação, as relações internacionais também eram conhecidas como relações entre os povos (gentes), tal como o próprio direito internacional tinha como título a velha expressão romana de direito das gentes (jus gentium). Uma categoria que, originalmente, era considerada superior ao direito dos cidadãos romanos (jus civile), mas claramente inferior ao chamado direito natural (jus naturale).

Aliás, se quiséssemos continuar fiéis a esta ideologia romanista até teríamos de dizer que as relações entre as gentes deveriam enquadrar-se num mais amplo conceito de relações universais, concebendo uma comunidade universal ou mundial, de acordo com o ideal estóico da civitas maxima, de uma pátria maior, que existiria por cima de todas as pátrias, ou de uma sociedade do género humano, dotada de uma global governance, capaz de elevar ao máximo institucional a international organization ou o global layer of state power.

Importa sublinhar que aquilo que pressupomos ao dizer relações internacionais vai muito além da disciplina que nos impõe que elas sejam feitas através dos verticais canais dos aparelhos estaduais. Por um lado, há elementos que não participam no todo mundial, enquanto simples parcelas diluíveis em Estados e Nações, como é o caso do indivíduo e dos grupos não-estaduais a que ele dá corpo. Por outro lado, há atingir o próprio todo, a ordem universal, mundial, cosmopolita ou global.

Porque, pensando em homens como indivíduos, diremos que há uma sociedade do género humano. Porque pensando no espaço vivido pelas pessoas, sempre poderemos falar no globo, no mundo, no planeta ou na natureza. Porque, misturando o que está com o que deve-ser, retomando o conceito grego de physis, sempre será de admitir a cosmopolis, a cidade maior, correspondente à humanidade. Isto é, mesmo no plano das relações internacionais, importa não perder a esperança de darmos novos mundos ao mundo.

É com estas restrições intelectuais que abordaremos a usual procura dos chamados actores de tal complexo processo. Isto é, os indivíduos ou os grupos que participam numa acção internacional e que têm objectivos ou interesses comuns, no tocante à realização dessa acção.

Porque dizer actores pressupõe cena, palco, theatrum mundi, lugar visível diante de nós, enquanto espectadores, ou observadores. Esses autênticos teatros de intervenção que, por vezes, até são teatros do absurdo, onde o que aparece também assenta em bastidores, cenografias, prévios ensaios, guionistas, autores, produtores e realizadores.

Por outras palavras, importa cuidar sempre das imagens literárias e das metáforas que, de repente, se transformam em conceitos operacionais da linguagem científica, porque elas, mesmo que capturadas pelo neutralismo dos engenheiros de conceitos, conservam sempre a explosividade criativa da linguagem emotiva dos que tentam capturar os sonhos, onde história do presente até acaba por ser o género literário mais próximo da ficção.

Utilizando uma definição típica da linguagem sistémica, usada pela Professora Ester Barbé, diremos que os actores das relações internacionais são as unidades do sistema internacional (entidades, grupos, indivíduos) que têm condições para a mobilização de recursos que lhes permitem alcançar os seus objectivos, que têm capacidade para exercer influência sobre outros actores internacionais e que gozam de certa autonomia (p. 117).

Esta definição começa por ser tributária do chamado estrutural-funcionalismo (structural-functional analysis), considerando, em primeiro lugar, que o sistema internacional tem que ser visto, não como uma estrutura orgânica, mas antes como uma unidade funcional, onde o actor é aquele que exerce, ou pode exercer, uma função internacional, uma função que tem de ser vista teleologicamente, como uma actividade parcial que contribui para a actividade do todo de que faz parte. 

Por outras palavras, na senda de A. R. Radcliffe-Brown (1881-1955), também podemos dizer que a realidade concreta do sistema internacional não é uma entidade, uma coisa orgânica, com cabeça, tronco e membros, mas um processo, um imenso número de acções e interacções de seres, que tanto actuam individualmente como através da sua pertença a uma pluralidade de combinações, tanto de grupos como de grupos de grupos, numa constelação dinâmica.

Até acrescentaremos, na senda de Claude Lévi-Strauss (n. 1908), que as estruturas onde se inserem os tais actores nem sequer fazem parte da realidade empírica, constituindo meros modelos ou supra-objectos, sistemas de relações separadas dos objectos, onde apenas estão latentes os mesmos objectos.

Por outras palavras, a técnica de procura destes autores não pode confundir-se com o real, dado que  esta forma de abordagem apenas atinge abstracções, modelos de tipo matemático, linguagens. Assim, os ditos actores internacionais apenas são o real quando os integramos num determinado sistema de signos.

Neste sentido, o actor internacional tem que ser um dos factores determinantes do processo de decisão internacional, tem que ter um papel determinante na institucionalização das relações de força existentes no mundo (Cox e Jacobson, 1973).

Refira-se que se assumíssemos, até à exaustão, a linha dos modelos sistémicos, em vez da enumeração dos actores internacionais, teríamos de seguir a lição de Philippe Braillard e procurar os eixos de uma taxonomia sistémica, passando dos elementos para os atributos físicos, estruturais e culturais, em que se movem os actores. Poderíamos até optar pela terminologia de J. David Singer e falar em atributos geográficos, demográficos e tecnológicos, ou retomar a perspectiva de Pierre Renouvin, inventariando os factores determinantes das relações internacionais.

Nestes termos, seria de começar por aquilo que determinou o nascimento da geopolítica e que continua marcante nas perspectivas estrategistas: os factores geográficos, principalmente as qualidades e os recursos dos territórios, desde a clássica posição ao próprio espaço ocupado, não faltando, as referências ao controlo das vias de passagem e do acesso ao mar.

No âmbito destes, destacam-se, sem dúvida os recursos naturais, importantes elementos para a determinação do poder internacional, mas chamando a atenção para o facto dos critérios das riquezas naturais serem variáveis no tempo e no espaço, porque dependentes das invenções científicas e dos meios tecnológicos.

Seguem-se as condições demográficas, destacando-se a necessária análise dos movimentos migratórios, porque o chamado capital humano constitui um dos elementos fundamentais das relações internacionais.

Em terceiro lugar, temos as forças económicas, desde as actividades expansivas à própria procura de matérias primas, passando pelo controlo das grandes vias de comunicação, pelas actividades de coerção (guerras aduaneiras, embargos e boicotes) e as várias formas de associação económicas, com destaque para as uniões aduaneiras. Ligadas a estes últimos factores, estão as questões financeiras.

De qualquer maneira, importa salientar que todos os factores até agora enumerados estão em ligação estreita, vivem em interacção contínua, só perceptível através de uma análise estratégica, dado que as vulnerabilidades, se bem geridas, podem transformar-se em potencialidades e estas, se mal conduzidas, podem volver-se em vulnerabilidades.

Mesmo no plano estritamente material, há que reparar na existência de elementos dinâmicos como os factores técnicos e científicos, os quais exercem uma influência determinante no jogo das relações internacionais.

Daí que todas as fórmulas que pretendem medir o poder internacional dos Estados entrem em linha de conta com factores ditos tangíveis e com factores intangíveis. Por isso é que os sentimentos de nação e os próprios factores ideológicos, culturais e espirituais são todos eles complexos e insusceptíveis de medida, como acontece com a influência das religiões. Seria até de acrescentar à lista os factores mediáticos e os factores jurídicos, para não falarmos nos modelos de personalidade dos homens de Estado..

Esta enumeração, dita taxonómica, marca o estilo dos principais cultores franceses das relações internacionais, onde além dos já referidos, se incluem autores como Marcel Merle e Daniel Colard, enquanto que os autores anglo-americanos e os estrategistas preferem embrenhar-se na medição dos elementos de poder de cada Estado, tentando o estabelecimento de rankings.

São assim várias as classificações dos actores das relações internacionais, para além dos Estados e das organizações internacionais, por estes constituídas.

António Truyol y Serra fala em forças transnacionais, como os grupos de pressão e as organizações internacionais não governamentais, distintas das corporations, das sociedades com fins lucrativos, acrescentando os seguintes: as forças religiosas e espirituais; as forças ideológicas, políticas e sindicais; as forças intelectuais e culturais; as forças económicas; e o indivíduo e a opinião pública.

Esther Barbé, além dos Estados, das organizações inter-estatais e do indivíduo, refere as organizações não-governamentais;  os actores estatais não-centrais, como as regiões e os municípios; e os actores intra-estatais não governamentais (como os partidos e os grupos de interesse).

Adriano Moreira enumera, entre os agentes das relações internacionais, além dos Estados, as organizações internacionais que congregam a cooperação de Estados; as organizações não-governamentais, nascidas da sociedade civil, que cortam os limites das fronteiras políticas; os poderes erráticos, designadamente os terroristas, que se confrontam com os Estados sem lhe reconhecerem superioridade; as instituições espirituais de vocação mundializante, como a Igreja Católica, que assumem uma autoridade independente mesmo sem qualquer poder político; os indivíduos que, de facto, ou de direito, assumem uma intervenção, não subordinada ao poder político, na vida internacional.