A lot of people don’t like realists... Realists face the world as it is. Most people want the world to be nicer and for people to be better.

Kenneth Waltz

 

Cabe a Kenneth Waltz, principalmente a partir de Theory of International Politics, de 1979, retomar as principais linhas do realismo e do sistemismo, aceitando as teses da balança do poder e do interesse nacional,  mas esbatendo as bases funcionalistas dos antecessores, quando acentua as linhas estruturalistas, salientando que os Estados não procuram maximizar o respectivo poder, mas apenas balanceá-lo, através de sucessivos modelos que poderiam ser unipolares, bipolares e multipolares. É uma tese própria dos sinais dos tempos de então, onde a coexistência entre as superpotências parecia definitiva.

De acordo com o neo-realismo, a conduta de qualquer Estado é sempre determinada pela estrutura do sistema internacional, da mesma maneira que  o comportamento das empresas depende do mercado. Também estas, na sua luta pela sobrevivência, ao entrarem numa competição anárquica, apenas marcada pela maximização do lucro, acabam por gerar uma estrutura coerente, insensível à actuação, à organização interna e aos fins específicos de cada empresa.

Da mesma maneira, todas as unidades estaduais integradas no sistema internacional obedecem aos mesmos objectivos de maximização dos interesses nacionais, apenas se diferenciando umas das outras, conforme as capacidades têm para a realização dos respectivos objectivos. Porque todos os Estados tendem, em primeiro lugar, a lutar pela sobrevivência, para, depois, expandirem o poder de que dispõem, num processo de maximização cujo único limite é o domínio do próprio mundo.

Porque também Deus escreve por linhas tortas, eis que o equilíbrio do sistema internacional acaba por resultar da própria anarquia. Ele não é o resultado de um plano prévio, de uma qualquer programação de boas intenções e nem sequer de uma política concertada. Nasce da acção não coordenada dos Estados, é uma consequência das condições de funcionamento do sistema internacional, da natural dinâmica dos conflitos de interesses que nascem entre eles.

Tal como no mercado e no âmbito da política interna, os vícios de cada uma das parcelas acabam por gerar o bem de todos. Os  private vices que são public benefits, como já em 1705 defendia Bernard de Mandeville observava em Fable of Beas. Porque cada um, trabalhando apenas tendo em vista os seus próprios intereses, acaba por contribuir para o interesse geral, segundo uma fábula que antecedeu a teoria do laissez faire.

Posição, aliás, idêntica às teses de Mancur Olson, em The Logic of Colleective Action. Public Goods and the Theory of Groups, 1965, para quem os grupos não se comportam segundo a lógica de racionalidade dos indivíduos, porque nos de grandes dimensões, as respectivas parcelas apenas participem nas acções colectivas quando delas podem retirar vantagens específicas ou quando a não participação dá origem a sanções.

A estrutura da política internacional é, assim, explicada pela interacção das grandes potências, tal como o mercado é, em grande parte, uma estrutura oligopolística. Porque, se as estruturas afectam as unidades integrantes das mesmas, eis que as próprias unidades podem afectar as estruturas.

Contudo, Waltz, até à queda do Muro, em 1989, sempre considerou que o conflito Leste/ Oeste estava enraizado na estrutura e que, portanto, duraria enquanto esta se mantivesse.

Esta perspectiva neo-realista, também dita de realismo estrutural, ao acentuar a ideia de balanceamento dos Estados, continuava a considerar tais entidades como actores fundamentais do processo das relações internacionais, acreditando que a política prevalecia sobre a economia, ao contrário de outras perspectivas da época, que acentuavam a predominância das empresas e dos mercados.

Mesmo a tripla classificação que fez dos sistemas internacionais (sistema unipolar, ou imperial, sistema bipolar e sistema multipolar), tendo como critério o jogo da balança de poder, assentava numa perspectiva conflitual da dinâmica do sistema internacional, explicável por aquilo que via como processo sucessivo de guerra (o máximo nível de discórdia onde o Estado usa a guerra para a defesa dos respectivos interesses), conflito (mera incompatibilidade de interesses), cooperação (coordenação de interesses a partir da percepção de problemas comuns) e integração (domínio de um interesse supranacional, com nulo nível de discórdia).

 

Já depois do fim da Guerra Fria, Waltz depois de assinalar que o crescimento da chamada interdependência apenas gerou uma maior desigualdade entre os Estados, alinha com os que reclamam uma maior necessidade de regulação e de governo em tais relações. Porque, com o desaparecimento do mundo bipolar, a manutenção do poder norte-americano, apesar de muitos falarem numa hegemonia benigna, pode ser problemática. Os Estados Unidos apenas representariam 4,6% da população mundial e, como locomotiva do comboio da história, não podem esquecer que muitos não gostam de continuar nas carruagens de trás.