O realismo político voltou a ser utilizado por vários teóricos norte-americanos das relações internacionais, nos tempos da guerra fria, que reagiram contra o chamado idealismo de Wilson. Destacam-se o teólogo protestante Reinhold Niebuhr, o professor H. J. Morgenthau, o diplomata G. F. Kennan, o jornalista Walter Lippmann (1899-1974) e muitos outros como Kenneth Thompson, Arnold Wolfers e Robert. E. Osgood.  Quase todos eles consideram que os Estados não obedecem aos preceitos da moral cristã, baseando-se antes no power, que têm como fim principal o national interest, dado terem de lutar pela sobrevivência.

Aliás, a paz pelo temor passou a ser um estado de coisas bem próximo da paz dos cemitérios e o modelo até afectou todos aqueles pacifistas da Estado Espectáculo que, ora reclamavam o make love not war de uma pretensa contracultura feita à imagem e semelhança da cultura dominante, ora passaram a gritar o antes vermelhos que mortos. Um realismo que procurou recobrir a cobardia com as cores do idealismo e que nunca assumiu a coragem do resistente, daquele que, vivendo como pensa, de acordo com a ética da convicção, é capaz de lutar para continuar a viver, resistindo na coragem de ser minoria face ao culturalmente correcto de todas as ditaduras do statu quo.

 

O filósofo checoslovaco Jan Patocka (1907-1977), inspirador de Vaclav Havel, assumiu-se contra o slogan do antes vermelhos que mortos,  de certo pacificimo capitulacionista do Ocidente, proclamando que uma ideia pela qual não se está disposto a dar a vida, é uma ideia pela qual não vale a pena lutar. Salienta que o segredo da nossa existência europeia foi sempre a falta de uma qualquer certeza quanto ao sentido da história. Porque sempre reagimos, em nome da liberdade, contra os que pensaram poder comandar o sentido da história, por suporem deter o segredo do bem e do mal e que, com inquisições e juntas de providência literárias, trataram de organizar o index ou o compêndio histórico, esse exacto contrário da tolerância e do relativismo.

 

O modelo tinha algo de semelhante às teses de Jean Giono, o activista francês, inspirador do colaboracionismo, autor da fórmula j’aime mieux être allemand vivant que français mort e que acabou preso em 1945, acusado de cumplicidade com o regime de Vichy.

E continua a marcar o ritmo de todos os situacionismos, nessa aceitação dos factos consumados que, muito à maneira do positivismo historicista, conclui que todo o real é ideal, pelo que se temem todos os perturbadores não-conformistas da bela ordem estabelecida, subscrevendo-se, muito pragmaticamente, que a segurança é mais importante do que a liberdade e do que a justiça, porque os imprevisíveis subversivos do salus populi suprema lex est  abrem sempre as portas à lei da selva.

O postulado principal da escola tem a ver com a herança darwinista, com a perspectiva conflitual do sistema internacional, onde os Estados, voltados essencialmente sobre si mesmos, vivem em regime de luta pela sobrevivência, prosseguindo os seus próprios interesses, pelo que têm de assentar numa forte componente militar. 

Quase se repete o que dizia Enrico Corradini (1865-1931) sobre as nações, entendidas como a consolidação de um estado de guerra permanente de umas contra as outras.

O mundo estaria assim dividido em dois principais domínios: o interior dos Estados existentes, onde opera a política, destinada a dominar hierárquica e verticalmente a anarquia de uma sociedade civil, onde só se manifestam os viciosos interesses privados, marcados pelos egoísmos e pelos impulsos de classe, e, no domínio externo, o das relações internacionais, o que está fora dos Estados ou que está entre os Estados, mas onde predominam os Estados, principalmente através do eufemismo da cooperação política, que sempre seria superior à sonhada integração política, excluindo-se, deste modo, a hipótese de uma espécie de autoridade global.

O legado maquiavélico a tradição hobbesiana e o modelo diplomático do sistema Metternich estão presentes, dominando o estatocentrismo, o preconceito sobre a inevitabilidade da natureza conflitual das relações internacionais e a ideia de que o Estado é verticalismo e centralidade do poder.

A ideia de Estado unitário e racional, torna-se assim a principal unidade de análise. A problemática as segurança militar de base militar passa a dominar os estudos. Porque a cosmovisão da escola entende o mundo como um tabuleiro onde bolas de bilhar se chocam, apesar de serem impenetráveis.

Aliás, quase repetindo o revolucionário Saint-Just, estes neoconservadores consideram que a política política, a high politics, é sempre movida pela força militar e quase se reduz às relações entre os grandes deste mundo, nomeadamente as superpotências, enquanto os outros Estados e os restantes factores sociais e económicos, que entram no domínio das relações internacionais, não passam da zona da low politics,  para parafrasearmos uma célebre distinção de Stanley Hoffmann.