É evidente que os projectos imperialistas de outras potências não podiam subscrever as terras que proclamavam que a terra é poder. Outra teria de ser, por exemplo, a postura teórica dos poderes anglo-americanos, desde o Reino Unido aos Estados Unidos da América, mais interessados na proclamação do sea power.

Vai caber essa tarefa ao almirante norte-americano Alfred Thayer Mahan (1840-1914), para quem os Estados dotados de um território com uma larga frente ribeirinha teriam tendência  para a  hegemonia marítima e para serem adversários das potências terrestres. Por outras palavras, criava-se agora uma teoria que tentava justificar o desenvolvimento da marinha de guerra norte-americana, baseada numa estratégia de aliança com os britânicos e que também se baseava em factores políticos como a defesa do modelo de free trade baseado na industrialização.

 

Alfred Thayer  Mahan (1840-1914) Historiador naval norte-americano. Oficial, professor do Naval War College e director da instituição de 1886 a 1889 e de 1892 a 1893. Influencia os defensores da supremacia do poder naval. Tem como seguidor o presidente norte-americano Theodor Roosevelt, eleito sucessivamente em 1901 e 1904, depois de ter sido secretário de Estado adjunto para a marinha. Outro dos seguidores da tese é o almirante alemão Alfred von Tirpitz, um dos instrumentos da Weltpolitik do Kaiser Guilherme II. Mahan está para a estratégia naval, como Clausewitz está para a estratégia militar em geral. Entre as suas obras: Influence of Sea Power upon History, 1660-1783, Boston, 1890. The Influence of Sea Power upon the French Revolution and Empire, 1793-1812, 1892. The Life of Nelson, 1897. The Interest of America in Sea Power, Present and Future, 1897.

 

Estes dois caminhos da primeira geopolítica contemporânea representam, aliás, dois projectos de construção de modelos de superpotências, as quais haveriam de confrontar-se na primeira e na segunda das guerras mundiais deste século. Se na primeira foi inequívoca a derrota dos modelos de impérios centrais, já na segunda se deu uma espécie de revisão da primeira edição vitoriosa, com algumas variantes:

– em primeiro lugar, tal guerra mundial, começando por ser uma espécie de guerra civil europeia, como salienta o Professor Doutor Adriano Moreira, acabou por ganhar laivos de guerra civil mundial;

– em segundo lugar, porque os vencedores não foram apenas as potências marítimas britânica e norte-americana, isto é, a união federal da América do Norte (United States) e a união monárquica e democrática dos britânicos (United Kingdom), dado que outro inequívoco vencedor foi a união comunista liderada pelos russos (União Soviética) e esta última potência assumiu-se como um grande Estado Continental;

– em terceiro lugar, tal guerra não acabou em 1945, dado que imediatamente se desencadeou o processo da chamada guerra fria, apenas encerrado em 1989, e que produziu tanto a emergência autonómica de um novo Estado Continental (a República Popular da China), como a constituição do chamado Terceiro Mundo, após os movimentos descolonizadores que atingiram o seu clímax nos anos sessenta.

Diremos, aliás, que, em termos de linguagem geopolítica, passou a valer mais a explicação de um outro almirante, desta feita francês, Raoul Castex, para quem existe sempre uma espécie de perturbador continental, uma potência continental que decide caminhar para o mar, esse touro que as potências marítimas têm de deter, num movimento defensivo que só consegue ser eficaz quando obtém o apoio da chamada reacção orgânica do sistema internacional.

Uma tese que, aliás, sempre se aplicou aos processos imperialistas de construção da unidade europeia, de Carlos V e Filipe II, em nome dos Habsburgos de Madrid, a Luís XIV e Napoleão Bonaparte, dado que em qualquer destes exemplos históricos, o perturbador foi sempre detido por uma coligação negativa de outras potências, apenas conjunturalmente aliadas, dado que as mesmas, no dia seguinte à paz, ainda entendida como mera ausência de guerra, logo continuaram o jogo dos Estados em Movimento.

De qualquer maneira, tanto na sua versão de poder terrestre de cariz continentalista, como no seu momento maritimista do sea power, as teorias geopolíticas ficaram sempre presas a uma perspectiva política marcada pelo predomínio da ideia de território, entendido como condição ontológica básica do político.

 

Os próprios italianos introduzem no processo a sua especificidade, com o general Giulio Douhet (1869-1930) a teorizar o poder. Autor de Il Dominio dell’Aria, de 1921, acentua, sobretudo, o papel do bombardeamento estratégico, desvalorizando o combate aéreo. Considera fundamental a escolha de objectivos civis, em vez de objectivos militares, porque o bombardeamento de cidades e centros industriais conduz à desmoralização do adversário. O modelo influencia a estratégia francesa e britânica.

 

Estas teorias desencadearam um conjunto de falsas ideias feitas que permitiram duas terríveis guerras mundiais, atingindo-se desta forma o clímax daquele modelo de Estado Moderno entendido como mero indivíduo geográfico, conforme a expressão do estrategista sueco Rudolf Kjellen.

Todos aqueles que reduziram a política a um simples espaço, confundindo os pressupostos com as causas, tanto contribuíram para as teses nazis do espaço vital como a teoria do imperialismo de Lenine. Isto é, continuaram aquele primitivismo que dá o nome de ciência a certas ideologias anacrónicas. Com efeito, a chamada geopolítica serviu para cobrir com um manto diáfano de doutrinarismos a verdade nua e crua das realidades, chamadas políticas de expansão de certos Estados que ainda se concebiam como pessoas em ponto grande e em luta permanente uns contra os outros.

Esta geopolítica apenas fez regressar o mundo àquele estado de natureza, onde os Estados se assumiram, não como os bons selvagens, mas como os lobos uns dos outros, esses esfaimados arreganhando-se numa luta de todos contra todos. Um estado de natureza onde o direito voltou a confundir-se com o poder, onde cada um tinha tanto direito quanto o poder que detinha, num direito que, assim, passou a medir-se pela força, dado que, neste ambiente, a razão da força passou a ser mais forte que a força da razão. Porque, como diz o francês Yves Lacoste, no expressivo título de um dos seus livros, La Géographie, ça ser d’abord à faire la guerre, Paris, La Découverte, 1976.

Foi assim que a geopolítica contribuiu para a eliminação daquele direito universal que era marcado tanto pelo jus gentium como pelo jus communicationis  da respublica  da pax romana e da sua sucessora christiana que nunca se esqueceram da república maior e da civitas maxima da sociedade do género humano. Assim se foi transformando o mundo num espaço de vingança privada, dominado pelo princípio das soberanias absolutas, não limitadas pela moral, pelo direito e pela natureza das coisas, dado que elas sempre foram fiéis ao lema do tem razão quem vence.

 

Não faltaram sequer as visões ditas científicas de um Halford John Mackinder (1869-1947), no The Geographical Pivot of History, de 1904, onde se visionou a Rússia como um simples Estado Pivot, como aquele poder terrestre que poderia liderar o mundo e vencer as potências marítimas se dispusesse de transportes mecânicos dotados de rapidez e de eficiência. Uma russofobia que o mesmo autor desenvolveu em 1919, em Democratic Ideals and Reality, onde fantasiou a mesma Rússia como o Heartland  daquela ilha do mundo (World Island) que seria constituída pela soma da Europa, da Ásia e da África. Não faltou sequer um outro escrito, de 1943, The Round World and the Winning of Peace, onde voltou a temer a união da Rússia com a Alemanha, estabelecendo, deste modo, um diálogo com as teses de Haushofer, então líder intelectual do plano imperialista alemão.

 

O geógrafo e estrategista britânico Halford MacKinder foi educado em Oxford, onde ensinou geografia de 1887 a 1905. Director da London School of Economics and Political Science, de 1904 a 1908, foi também deputado, de 1909 a 1922.  Autor da teoria do heartland, estabelecida em 25 de Janeiro de 1904 e com sucessivas revisões, em 1919 e 1943. Aí estabelece o confronto entre a potência terrestre, a heartland e o vasto anel oceânico, world-island, considerando que quem controla a massa terrestre central, a zona pivot, controla o resto do mundo. Conclui pela superioridade dos impérios centrais, invocando o exemplo das invasões mongóis e das conquistas de Luís XIV e Napoleão Bonaparte. Influencia Haushofer e terá inspirado a invasão da Rússia por Hitler. A perspectiva foi desacreditada depois da derrota das tropas nazis em 1945, mas voltou a ter influência nos começos da guerra fria, com a doutrina de Truman do containment, de 12 de Março de 1947, quando os ocidentais se preocupavam com a intervenção soviética na Europa Central e do Leste.

Nicholas J. Spykman vem referir a Eurásia como uma das cinco grandes Ilhas do Mundo, ao lado da Austrália, da África, da América do Sul e da América do Norte. Esta Eurásia seria a ilha mais extensa duas vezes e meia maior que a América do Norte e a mais populosa dez vezes mais população que a América do Norte. Para este autor, à volta da massa continental da Eurásia, ficaria a grande rota de circum-navegação do mundo e, entre a grande massa central e a rota marítima estaria a terra orla (Rimland), qualificando esta como an intermediate region situated as it is between heartland and the marginal seas. It functions as a vast buffer zone of conflict between sea power and land power. Looking in both directions, it must function amphibiously and defend itself on land and sea. In the past, it has to fight against the land power of the heartland and against the sea power of the offshore islands of Great Britain and Japan. Its amphiious nature lies at the basis of its security problems. Tal orla compreenderia a Europa Ocidental e Central, o Próximo Oriente, com a Turquia, o Irão e zonas do Afeganistão, do Tibete, da China e da Sibéria Oriental, bem como as penínsulas da Arábia, da Índia e da Indochina. E à maneira de outros estrategistas, como Mackinder, eis que Spykman considera que a grande massa continental da Eurásia depende da orla. Entre as suas obras: America's Strategy in World Politics. The United States and the Balance of Power, Nova Iorque, Harcourt Brace, 1942. The Geography of Peace, Nova Iorque, Harcourt Brace, 1944.

Importa também destacar outros estrategistas como Saul Bernard Cohen, professor de geografia de Boston, de ascendência judaica. Opõe o chamado Mundo Marítimo Dependente do Comércio (Trade Dependent Maritime World) constituído pela América e Caribe, Europa Marítima e Magrebe, Ásia Insular e Oceânia, bem como pela América do Sul , ao mundo continental euro-asiático (Eurasian Continental Power) constituído pela Heartland russa e Europa do Leste e pelo Leste Asiático Continental , com choques frontais nas chamadas zonas de fractura (Shatterbelts) do Médio Oriente, do Sudeste Asiático e da África ao Sul do Saará. Refere também a existência de regiões politicamente independentes (Independent Geopolitical Region), como a Índia e as áreas ribeirinhas do Pacífico. A sua principal é  Geography and Politics in a Divided World,  Londres, Methuen, 1964.

 

Isto é, em pleno século XX e no auge da segunda guerra mundial, os cientistas do poder em movimento reeditavam os mitos bíblicos do monstro terrestre (o Behemot) e do monstro marinho (o Leviathan), num jogo onde  não se enfrentavam apenas figuras literárias, dado que milhões e milhões de homens iam efectivamente morrendo, já não como carne para canhão, mas antes como massificada pasta de alimentação para genocídios e explosões atómicas.

E tudo se fazia com a aparente neutralidade das teses científicas, quase transformando a universidades em institutos auxiliares da carnificina e do holocausto. Porque a ilusão cientificista do positivismo, dominante na modernidade, continuava a tolice de separar a ciência da moralidade, a política do direito e o homem do transcendente. Dessa ordem misteriosa de símbolos, onde, mesmo para aqueles que não acreditam em Deus ou na liturgia das Igrejas institucionais, sempre esteve a ordem superior da natureza ou o princípio estóico do kosmos ou do mundo, entendido de forma panteísta.

Por outras palavras, as teias da geopolítica acabaram por conduzir a ciência e a racionalidade para a loucura das bruxarias, onde Hitler, Estaline e os lançadores de bombas atómicas não foram os convenientes diabos reencarnados, mas aqueles humanos, demasiadamente humanos que ousaram chegar ao sol com as suas frágeis asas de cera.

Em nome da ciência deixávamos assim de praticar aquela humilde lição de bom senso que manda atingir um conhecimento modesto acerca das coisas supremas, bem como aquela moderação que nos diz que a própria virtude precisa de limites.

Com efeito, desde os alvores do absolutismo que o político se territorializou, isto é, quando nasceu a ideia de fronteira física, quando, no chão físico se traçou a tal linha que serviu para separar e dividir, cortar para quadricularizar, celulizar para englobar, segmentar para homogeneizar, individualizar para esmagar as alteridades e as diferenças, conforme a expressão de Nicos Poulantzas.

Era o tempo do Ocidente dos Estados, das potências em movimento e a Europa passou a ser uma espécie de grande teatro de operações militares e mercantilistas com os soberanos a moverem as peças de um xadrez de guerras iluministas. Não tarda que o mundo se torne num grande mapa onde se foram desenhando Estados, Estadinhos e Estadões, independentemente da vontade das populações, algumas das quais foram obrigadas a deslocações forçadas e outras, vítimas de genocídios.

Era o apogeu do tal esprit geométrique que, exacerbando os territórios, esqueceu as comunidades vivas que os transformaram em pátrias e eliminou a dimensão espiritual e simbólica das repúblicas, em favor dos aparelhos de poder. Chegou mesmo a determinar que cujus regio, ejus religio, isto é, determinou-se que cada povo dependente até as crenças religiosas do respectivo soberano teria de seguir, porque a obediência é que faria o imperante. E assim se foi cortando o mundo em fatias estaduais, desenhadas a régua, compasso e esquadro.

Os povos até passaram a ser pintadas com a cor dos empregados domésticos dos soberanos e estes até deixaram de ser efectivos príncipes, assumindo-se como meros pais de uma casa, ora na versão gregas de oikos despotes, ora na versão latina do dominus (donde vem o português dono).

Isto é, as pátrias deixaram de ser uma síntese entre um chão e uma ideia (Georges Burdeau), a patrie charnelle donde nos veio a nação, e o próprio chão, entendido como o tal pays que modela a raça (Taine) deixou de ser um chão de sonhos, porque a pátria como raiz, reduzindo-se ao presente deixou de ter o chão moral (Jacques Maritain) propiciador daquelas raízes que se estendem para o passado e para o futuro.

Aliás, na viragem do século XIX para o século XX, a geopolítica chegou mesmo a ser acelerada pelo determinismo das escolas do geographic environment, onde se destacaram as teses de Ellen Churchill Semple (1863-1932), em Influences of Geographic Environment, de 1911, onde se considerava o homem como simples produto da superfície da terra: um filho da terra, pó do seu pó, mas que a terra concebeu e alimentou, impôs tarefas, dirigiu pensamentos, criou dificuldades que lhe robustecessem o corpo e lhe aguçou o engenho….

Quase se retomava a trilogia de Hippolyte Taine, race, milieu, moment, fundadora do naturalismo do último quartel do século XIX, quando se aceitava a existência de um conjunto de caracteres biológicos transmitidos hereditariamente, pelo que as tradições, as crenças, os hábitos mentais e as instituições modelariam os indivíduos. A perspectiva de um persistente positivismo que vai marcar todas as correntes sociologistas, tanto de esquerda como de direita.

 

Elen Churchill Semple (1863-1932) Estuda em Leipzig com Ratzel. Professora de antropogeografia em Clarck (de 1923 a 1932). Entre as suas obras: American History and its Geographic Conditions, 1903. The Influences of Geographic Environment, 1911. The Geography of Mediterranean Region, 1931.

 

Pouco faltava para que, sob impulso do darwinismo, se estruturasse o racismo, a essa crença na existência de raças superiores e de raças inferiores. As superiores, aliás, assumindo a missão se submeter as inferiores nem sequer devem misturar-se com elas, para que se mantenham puras e procuram até a sua própria melhoria, conforme as propostas do chamado eugenismo, fundado pelo biólogo inglês F. Galton (1822-1911).

O racismo teórico contemporâneo terá sido desencadeado por Arthur de Gobineau (1816‑1882), antigo chefe de gabinete de Tocqueville, quando este foi ministro dos negócios estrangeiros francês, que em Essai sur l'Inegalité des races humaines, publicado entre 1853 e 1855, defende que a raça branca e, dentro desta, a raça ariana devem ser as raças  superiores e dominadoras.

Uma opinião partilhada por outros autores da época como Victor Courtet (1813‑1867) em  La Science Politique fondée sur la Science de l'Homme, ou l'Étude des Races Humaines sous le Rapport Philosophique,  Historique et Social, e Vacher de Lapouge. Este último, professor em Montpellier, em L'Aryen et son Rôle Social, de 1899, chega mesmo a propôr a criação de uma nova ciência, a antropossociologia, baseada na luta darwinistas pela sobrevivência da espécie. Para ele, as raças dolicocéfalas dos louros devem ser senhoras e dominadoras das raças braquicéfalas, defendendo, para o efeito, a prática da selecção biológica.

Este ambiente vai ser também assumido por Houston Stewart Chamberlain (1855‑1929), um inglês naturalizado alemão, genro de Richard Wagner, que em  As raízes do Século XX, de 1899, vem considerar que os teutões (os celtas, os eslavos e os germanos) é que caldearam as raízes gregas, romana e judaica da civilização ocidental, chegando a defender a intervenção do Estado no processo de desenvolvimento biológico da raça dos senhores.

Este cientismo positivista, misturado com o romantismo político, desagua nas teses assumidas por Adolf Hitler em Mein Kampf, de 1924, constituindo o eixo fundamental do nacional-socialismo que sobe ao poder na Alemanha em 1933.

 

 

4Levi-Strauss, Claude, Les Structures Élémentaires de la Parenté, Paris, Presses Universitaires de France, 1949. } Idem, Race et Histoire, Paris, UNESCO, 1952 [trad. port. Raça e História, 2ª ed., Lisboa, Editorial Presença, 1975]. 4 Manzo, Kathryn A., Creating Boundaries. The Politics of Race and Nation, Boulder, Lynne Rienner, 1996. } Wallerstein, Immanuel,, Balibar, Étienne, Race, Nation, Classe. Les Identités Ambigues, Paris, Éditions La Découverte, 1988.

 

 

Um caso especial de racismo é o processo do anti-semitismo. Racista são também as teses do colonialismo e do apartheid. Não menos racistas são alguns dos movimentos políticos anticolonialistas desde a negritude às teses de Frantz Fanon. Em Portugal, o racismo tem especial desenvolvimento nos anos trinta, a partir do Acto Colonial e do Estatuto do Indigenato. Em termos racistas são também as leis da nacionalidades posteriores a 1974. A chamada discriminação racial. A segregação racial norte-americana. Os mestiços.

Mesmo os racistas de hoje ainda invocam a lei da selecção natural de Charles Darwin. Consideram que a causa de todos os nossos problemas actuais é a ideia liberal de que o Homem pode desobedecer a leis naturais.

O terraquismo foi também acirrado mais recentemente pelas teses de certa vulgarização etológica, nomeadamente pelas imaginações literárias com pretensões a ciência que depois de rebaixarem a política ao reino animal, chegam mesmo a considerá-la como directa emanação de um instinto territorial, conforme as teses de Robert Ardrey.

 

Robert Ardrey é um dos principais teóricos do etologismo e do elitismo em nome do homem como animal territorial. Critica a ideia igualitária do contrato social de Rousseau, pelo facto deste ter tratado de um contrato social entre anjos decaídos, defendendo, em contraposição, uma aliança de macacos evoluídos. Do mesmo modo, considera que em vez da utopia da sociedade dos iguais, importaria uma filosofia evolutiva, porque a agressividade é o principal garante da sobrevivência. Aceita uma perspectiva elitista, ao salientar que toda a sociedade tem os seus líderes natos. Entre as suas obras: African Genesis, Nova Iorque, Athaeneum Books, 1961. The Territorial Imperative. A Personal Inquiry into the Animal Origins of Property and Nations, Nova Iorque, Dell Publishing Co., 1966. The Social Contract, Nova Iorque, Atheneum Books, 1970 (Trad. fr. La Loi Naturelle, Paris, Éditions Stock, 1971). 

Estas vulgatas não podem desfocar a obra de Konrad  Zachariae Lorenz (1903-1989) Austríaco. Forma-se em medicina em Viena. Professor em Viena (1937-1940) e Konigsberg (1940-1942). Prémio Nobel em 1973. Um dos fundadores da etologia, entendida como a ciência do comportamento animal. Considera que a sociedade humana é uma continuidade das sociedades animais. Em ambas existem animais agressivos, marcados por organizações hierárquicas e onde se distinguem nitidamente os papéis reservados para o masculino e o feminino. Nas sociedades humanas apenas podemos estabelecer medidas para limitarmos a agressividade, para canalizarmos os respectivos excessos, mas não para a eliminar. Do mesmo modo, se torna um sonho inexequível, o igualitarismo ou a eliminação da diferença entre homens e mulheres. Considera que o ser humano é um animal agressivo como todos os outros animais. Critica a fórmula de Hobbes, do homo homini lupus, propondo substitui-la pela de homo homini ratus, dado que o homem, se assemelha aos ratos. Ao contrário dos animais normais, como o lobo, o homem, tal como o rato, mata os rivais da mesma espécie. Os restantes animais que apenas matam animais de espécies diferentes, procurando que os da mesma espécie sejam mantidos à distância, visdando a conquista de um território alimentar. Entre as suas obras: Das sogenannte Böse zur Naturgeschichte der Agression, 1963 (Trad. ingl. On Agression, Nova Iorque, Harcourt, Brace & World, 1966; trad. fr. L'Agression, une Histoire Naturelle du Mal, Paris, Flammarion, 1969). Três Ensaios sobre o Comportamento Animal e Humano, Trad. port, Lisboa, Arcádia, 1975. Oito Pecados Mortais da Civilização, Trad. Port., Lisboa, Litoral Edições, 1992.

 

O poder político tanto do ponto de vista dos factores internos como no plano das relações internacionais nunca foi uma coisa susceptível de um ter. O poder político em sentido global sempre foi uma relação entre variáveis complexas e só pode ser entendido como uma network structure, como uma relação de relações, como uma rede de redes, tal como só é susceptível de  ser gerido através de uma instituição das instituições (Maurice Hauriou), de um macrocosmos de macrocosmos sociais (Georges Gurvitch).

Mesmo o pai do estrutural-funcionalismo, Talcott Parsons, sempre ensinou que o poder tem mais a ver com a confiança do que com a força, porque, tal como a moeda, e que tem mais valor de troca do que valor de uso, dado ser a capacidade que leva as unidades pertencentes a uma determinada forma sistémica a cumprirem as funções que lhe cabem.

Assim, o jogo do poder não se reduz a um mero jogo de xadrez dos Estados directores e dos Estados secundários, entendendo-se estes últimos como simples peões que a longa manus das superpotências vai movendo e comendo. Há poderes pequenos que podem assumir-se como poderes funcionais e que ultrapassam as contas da aritmética e da geometria, fazendo das fraquezas forças. Porque os pequenos poderes, segundo a mera perspectiva das forças materiais, podem transformar as respectivas vulnerabilidades em potencialidades.

Aliás, as pátrias, mais do que o espaço de uma simples terra, sempre foram a emoção que os homens criaram a propósito da sua terra, da terra dos seus mortos e da terra onde nascerão os seus filhos. E nós, portugueses, dotados daquele telurismo atlântico de que falava Miguel Torga (1907-1995), sempre soubemos vencer os determinismos geográficos. Depois daquela reconquista onde a fronteira sul sempre foi o espaço aberto do ermamento que ondulava como as searas, eis que passámos a ser desafiados pela fluidez do mar, eis que descobrimos que na maior parte da terra havia mar. Gerámos assim um novo espírito de fronteira que sempre nos animou a violarmos as fronteiras estabelecidas, descobrindo e semeando novos espaços e novas terras.

 

Entre os especialistas universitários portugueses, merce destaque Políbio Fernando Amaro Valente de  Almeida (n. 1932), que foi professor catedrático do ISCSP. Licenciado em 1965 e doutor em 1989, foi marcado pelos modelos de Kjellen e fez uma análise do poder do pequeno Estado, introduzindo em Portugal as teses de Ray S. Cline. Entre as suas obras: Geopolítica Chinesa e sua Incidência em África, Lisboa, ISCSPU, 1966. Fundamentos de uma política de subversão africana, Lisboa, ISCSPU, 1966. Multirracialismo em Angola, 1970. Blocos regionais do Terceiro Mundo, apontamentos policopiados. Lisboa, ISCSP, 1985-1987. Teoria Geral da Estratégia (Apontamentos policopiados), Lisboa, Associação de Estudantes do ISCSP, 1987. Do Poder do Pequeno Estado. Enquadramento Geopolítico da Hierarquia das Potências, dissertação de doutoramento, Lisboa, ISCSP-IRI, 1990. «Conceito de pequeno Estado», In Nação e Defesa, n.º Jan., pp. 11-17, Lisboa, Instituto de Defesa Nacional, 1991. Ensaios de Geopolítica, Lisboa, ISCSP/IICT, 1994.