Podemos, no entanto, inventariar alguns dos principais conflitos de paradigmas que marcam o estudo das relações internacionais. No primeiro pós-guerra, a partir de 1919, estabeleceu-se uma tensão entre o idealismo do universalismo liberal, de matriz kantiana, expresso pelas teorias, mas não pelas práticas, de Woodrow Wilson, e a continuidade do realismo, de matriz hobbesiana, enquanto os cultores do direito internacional público, apertados pelas tenazes desses dois extremos, continuavam numa espécie de terceira via internacionalista, de marca grociana. Se os idealistas acentuavam a  necessidade da emancipação e os realistas observavam a realidade da anarquia internacional, já os grocianos insistiam na necessidade da ordem.

Se os realistas consideram que a política internacional é uma espécie de estado de natureza, onde cada Estado se assume como lobo, numa guerra de todos contra todos, já os kantianos preferem insistir na possibilidade do mundo internacional ser configurado como uma comunidade, que exigiria uma espécie de república universal, enquanto os grocianos se ficam por uma espécie de concepção de uma sociedade de Estados, ou de uma sociedade internacional. Importa, contudo, assinalar que o modelo advogados pelo presidente norte-americano para a Sociedade das Nações pouco tinha da ingenuidade utópica, dado assentar num sistema de segurança colectiva, onde as grandes potências deveriam punir o agressor que desequilibrasse o sistema.

De qualquer maneira, se os realistas consideram que os Estados são os únicos actores com direito de intervenção nas relações internacionais e os universalistas proclamam os indivíduos como o elemento principal da mesma cena, eis que os internacionalistas fazem a síntese, quando consideram que os Estados são membros imediatos da sociedade internacional, porque os indivíduos apenas nela participam por intermédio dos Estados de que são cidadãos.

Se a perspectiva estatocêntrica representa o tradicional pessimismo antropológico dos que consideram que o homem é naturalmente mau e que o bem está no poder, já o invidualismo universalistas representa a faceta do optimismo antropológico, de um homem naturalmente bom, onde o mal está no poder. Isto é, se uns se assumem como herdeiros do homem-lobo-do-homem, já outros retomam uma espécie de teoria do bom selvagem, duas caricaturas, dois tipos-ideais que sempre nos levaram ao tertium genus, porque, na prática, a teoria acaba sempre por ser outra.

Com efeito, o primeiro impulso para o estabelecimento da autonomia académica das relações internacionais veio de uma axiologia, daquilo que os autores de língua inglesa costumam designar como normative theory, dado que os primeiros trabalhos procuraram resolver os problemas da guerra, aceitando quase todos a ideia de peace trhrough law, de paz pelo direito, de acordo com a senda dos clássicos projectistas da paz.

Se para os realistas, o conflito entre os Estados equivaleria a uma espécie de jogo de soma zero, onde o interesse de cada Estado pressupõe sempre a exclusão dos interesses  de todos os outros e, para os universalistas, há laços transnacionais que unem todos os seres humanos, já os internacionalistas consideram que há intercâmbios económicos e sociais entre os Estados. Por outro lado, se os realistas consideram que a chave da actividade internacional é a guerra, já os universalistas proclamam a cooperação, enquanto os terceiristas salientam que a vida internacional não é conflito nem cooperação, mas um jogo que é ao mesmo tempo distributivo e produtivo.

Dizer que a paz não passa de um intervalo entre duas guerras ou que só há paz pelo direito é tão exagerado, quanto teorizarmos a soberania da mesma forma triádica. Porque se, para os realistas, a soberania é a marca do Estado e não está limitada pela moral nem pelo direito, sendo apenas susceptível de autolimitação, e, para os universalistas, há imperativos morais e jurídicos que limitam a acção dos Estados,  também é verdade o que proclamam os internacionalistas, quando salientam que a acção dos Estados está limitada por regras comuns e instituições.