James Rosenau, em Turbulence in World Politics, de 1990, embora não considere problemática a noção de Estado, salienta que o mesmo começa a ser cercado por outros influentes actores, situados por dentro e acima dele. Haveria, portanto, uma nova dinâmica, com profundas e contínuas transformações, as quais obrigariam a uma antecipação da mudança. 

A turbulência do mundo estaria assim marcada por uma espécie de bifurcação a nível das estruturas globais, onde, de um lado, estão o soberanismo e o mundo centrado nos Estados e, do outro, um multicêntrico mundo, com actores livres da soberania.

Mais recentemente, num projecto também assumido por Ernst-Otto Czempiel, desenvolve o conceito de governance without government, para qualificar a política mundial. 

Partindo da distinção weberiana entre Macht  e Herrschaft, a que corresponderiam, respectivamente, as noções de governance e de government, retomam-se as perspectivas do modelo pluralista da poliarquia, tal como foram utilizadas na política interna por Robert Dahl, principalmente com a publicação de A Preface to Democratic Theory, de 1956, completado por Polyarchy, de 1971.

 

Para Max Weber, o poder enquanto Macht é a mera possibilidade de alguém impor a sua vontade a outrem, mesmo contra a vontade dele. Situa-se  no âmbito do sociologicamente amorfo, sendo um simples casuística do poder, típica do poder das constelações de interesses que dominam um mercado livre.

O poder político, enquanto Herrschaft, é sempre uma estrutura complexa de práticas materiais e simbólicas destinadas à produção do consenso, pressupondo sempre uma relação política estável, institucionalizada, legitimada e concentrada, entre um factor de organização, o comando, e a obediência ou a aceitação dos comandados. Implica a probabilidade de se encontrar obediência, que haja a presença efectiva de alguém mandando eficazmente em outros.

Se no Macht o comando não é necessariamente legítimo, nem a submissão é obrigatoriamente um dever, já no Herrschaft, a obediência fundamenta-se no reconhecimento, pelos que obedecem, das ordens que lhe são dadas, isto é, tem de haver consentimento. Neste sentido,  converte uma acção comunitária amorfa numa acção racional. Estamos na zona da metafísica do poder.

Emerge quando surge uma autoridade estabelecida, impondo-se que haja quatro elementos: governantes; governados; governantes com vontade de influenciar a conduta dos governados, de maneira que haja um grau objectivo de obediência; e, finalmente, uma aceitação subjectiva de aceitação desse comando, o que só pode ser conseguido pela legitimidade, como se o governado tivesse feito do conteúdo da ordem a máxima da sua conduta por si mesma.

É a partir do Herrschaft que se atinge o político. Porque uma associação de Herschaft transforma-se em associação política quando e na medida em que a sua existência e a validade das suas ordens, dentro de um âmbito geográfico determinado, estão garantidas de modo contínuo, pela ameaça e aplicação da força física pelo quadro administrativo

 

 

Na política internacional assistir-se-ia cada vez mais a uma governança sem governo, dada a existência de um ordenamento sem a correspondente institucionalização. Haveria uma ordem multidimensional resultante da capacidade de fazer as coisas sem a competência legal para se ordenar que elas sejam feitas (Czempiel), dado faltar um princípio de governo, assente na autoridade, num lugar sistémico de acumulação do poder, a partir do qual se produziria a atribuição (allocation) de valores.

Isto é, não existiria, a nível global, a necessária altitude do poder, a que se referia Bertrand de Jouvenel, o tal sítio onde se respira um outro ar e se descobrem perspectivas diferentes das dos vales da obediência.

 

David Easton considera que a vida política consiste em acções relacionadas com a autoridade na distribuição dos valores (the political life consists of those actions related to the authoritative allocation of values) e que o sistema político aparece como um complexo de actividades, dotado de autonomia (a system of interrelated activities influence the way in which authoritative decisions are formulated and executed for a society). Onde os valores aparecem como as vantagens, materiais ou não materiais, que são repartidas no quadro de um sistema político.

Faz assim assentar a autonomia do sistema político numa ideia de comunicação, entendida como o processo de converter a informação em poder. O sistema político é, portanto, compreendido como um sistema de distribuição autoritária de valores, como um conjunto de interacções pelas quais se efectua a distribuição (allocation) autoritária (authoritative) de valores para uma sociedade. Neste sentido, a vida política aparece como a complex set of a process through which certain kinds of inputs are converted into the type of outputs we may call authoritative policies, decisions and implementing actions. E seria este processo funcional da distribuição ou atribuição de valores, isto é, de objectos pelo mesmo sistema valorizados, marcado pela autoridade, pela imperatividade, que constituiria o traço distintivo do sistema político.

 

Estes teóricos consideram que, no quadro do sistema internacional, na falta de uma vertical autoridade central, tudo se desenrolaria através de uma certa horizontalidade, a chamada governança sem governo, a qual, contudo, apenas funcionaria quando a maioria dos intervenientes a aceitasse. Aliás, a governança, se assentar num amplo consenso, pode até ser mais eficaz que um governo fraco, devido a uma activa resistência dos governados.

Deste modo, o conceito de governança aproxima-se do conceito de establishment, daquele modelo que, por exemplo, vigora na Grã-Bretanha, um Estado eficaz que tanto não tem conceito de Estado nem de constituição escrita, mas que acaba por ter um centro, em torno do poder infra-estrutural do tal establishment.

Pelo contrário, pode conceber-se tanto um governo sem governança como uma governança sem governo, isto é, como um ordenamento que não é instituição, esse status, ou essa intenção de poder que se estabiliza, sem respeitar uma ideia matriz e sem se preocupar com a adesão, ou a comunhão, dos que, nesse statu quo, são obrigados à integração, para poderem sobreviver.

Em sentido amplo, a governance equivale àquilo a que Henri Bergson (1859-1941), em Les Deux Sources de la Morale et de la Réligion, de 1932, se referia, ao falar em sistemas reguladores, às redes de mil malhas onde nos situamos, a um sistema extremamente complexo, multiforme, denso, que, contrariamente ao caos, tem um sentido ordenador que o permite compreender como um todo, como um cosmos, como uma ordem.

A partir desta base, Rosenau defende aquilo que qualifica como ordem global cooperativa, onde as hegemonias declinam. Porque, se  uma ordem pluralista tende a desagregar os centros de decisão, ela também exige um certo grau de governança, as tais funções que precisam de ser executadas, mesmo que o sistema não produza organizações e instituições incumbidas expressamente desse exercício, mesmo que falte uma autoridade central ou uma autoridade formal, dado que existem actividades apoiadas em objectivos comuns.

Diremos que o modelo de anarquia ordenada em que continuamos e continuaremos a viver, a nível da pretensa ordem mundial, para utilizarmos algumas das categorias de autores sul-americanos, implica que se detectem o eixo económico, o eixo estratégico-militar e o eixo político, em torno da qual a vamos procurando.

Se o primeiro tem um poder material próprio e evidente, marcado pelas finanças, pelo comércio, pela indústria e pela capacidade científica e tecnológica. Se o segundo depende das forças armadas, das estratégias e das alianças, já o último continua a ser o cérebro do sistema, dado que através de um processo global de influência, consegue estabelecer o quadro geral de regulação de todas as interacções.

É deste eixo político, desta inteligência que estabelece os valores e as crenças, que vem directamente o princípio dessa procurada ordem, cujo profundo equilíbrio resulta, não apenas da mecânica da balança, isto é, dos eixos económico e estratégico-militar, mas, sobretudo, do corpo e das mãos que a sustentam.

E aqui, entram, sem dúvida, as próprias teorias das relações internacionais, de acordo com os variados discursos com que podem ser perspectivadas.