Pós-modernismo, desconstrutivismo, pós-postivismo ou pós-estruturalismo ou teoria crítica, são os signos que marcam um novo movimento que se insurge contra os demónios do neo-realismo, principalmente de Waltz, e contra o neo-liberalismo. Apesar da inequívoca marca anglo-americana, o movimento assume, sobretudo, certa imaginação retórica do pensamento francês de Jacques Derrida, Julia Kristeva, Roland Barthes, Lyotard, Virillio, Michel Foucault (1926-1984), Jean Baudrillard, os chamados pós-estruturalistas, críticos de Ferdinand Saussure (1857-1913).

Reúnem-se, sobretudo, em torno da International Studies Quarterly, editada a partir de 1990. Entre os principais nomes, James Der Derian, Michael J. Shapiro, Richard K. Ashley, R. B. J. Walker que tentam fazer a chamada desconstrução da disciplina das relações internacionais.

Os seus principais inspiradores são os teóricos do desconstrutivismo inspirado em Michel Foucault e Jacques Derrida.

Comecemos por assinalar o conceito de poder de Foucault que veio romper com as concepções nihilistas e mecanicistas que estavam na base do powerpolitics de Morgenthau e dos respectivos seguidores, incluindo os sistémicos.

Para o autor de L’Archéologie du Savoir, de 1969, e de Surveiller et Punir, 1975, a sociedade não pode ser vista como um todo e como um sistema, marcado pela coerência e pela coesão, mas antes um conjunto desarmónico, onde existe uma multiplicidade de conflitos. Nem sequer haveria um jogo entre dois pólos contraditórios, porque o que preside a todos estes mecanismos não é o funcionamento unitário de um aparelho ou de uma instituição, mas a necessidade de um combate e as regras de uma estratégia.

 

Michel Foucault (1926-1984) Diplomado em filosofia, psicologia e psicopatologia. Membro do Collège de France desde 1970.  Entre as suas principais obras: Folie et Déraison. Histoire de la Folie à l'Âge Classique, 1961. Naissance de la Clinique. Une Archéologie du Regard Médical, Paris, PUF, 1963. Les Mots et les Choses. Une Archéologie des Sciences Humaines, Paris, Éditions Gallimard, 1966. Ver trad. Port. As Palavras e Coisas, São Paulo, Martins Fontes, 1988. L'Archéologie du Savoir, Paris, Gallimard, 1969. Trad. Port., A Arqueologia do Saber, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1988, 4ª ed.. Surveiller et Punir. Naissance de la Prison, Paris, Éditions Gallimard, 1975. Cfr. trad. port.Vigiar e Punir, Petrópolis, Vozes, 1979. Histoire de la Sexualité, vol. I - La Volonté de Savoir, Paris, Éditions Gallimard, 1976. Cfr. trad. port., História da Sexualidade, I, A Vontade de Saber, Rio de Janeiro, Graal, 2ª ed., 1979.  Power/ Knowledge. Selected Interviews and other Writings 1972-1977, Org. de C. Gordon, Nova Iorque, Random House, 1977. De la Gouvernamentalité, Paris, 1989. Lições de 1978-1979. Microfísica do Poder, 3ª ed., trad. port., Rio de Janeiro, Graal, 1982.

 

Impõe-se, pois, uma perspectiva que entenda o poder, não como substância, mas como relação, como jogo e como estratégia. Porque o corpo político é uma relação de relações.

Assim, em vez da procura da essência do poder, este deve ser perspectivado como exercício. Não é um efeito ou um produto, nem sequer uma super-estrutura. Ele tem um pólo positivo, que é o constrangimento, e um pólo negativo que é a produção, o poder deve , então, ser visto como produtor e as relações de poder como relações de produção, pelo que a anatomia política deveria ser substituída por uma espécie de economia política.

O corpo político aparece, portanto, como uma relação de relações, como a relação do corpo do poder com os corpos que ele investe e que lhe resistem. Como relação das diferentes relações de poder entre si. Como relação das relações de poder com as relações de produção. Como relação das técnicas de poder com os processos do saber.

Neste sentido, haveria que abandonar a ideia de centro pela ideia de rede de poder. Dessa pluralidade de micropoderes, de focos de poder difundidos no corpo social que estabelecem entre eles uma série de articulações laterais e verticais. O poder não vem do centro e a própria centralização não passa de um efeito, de um imperativo estratégico que é simplesmente objecto de múltiplas tentativas que se vão renovando num jogo de poder.

A ideia de centro pressupõe, pelo contrário, o funcionamento unitário de um aparelho ou de uma instituição e, portanto, uma perspectiva que, por ser teleológica, não pode ser estratégica. Assim, o poder do centro acabaria sempre por ser jurídico, procurando constituir a estrutura de um conjunto impessoal que usa a lei e os aparelhos que visam a integração institucional dos poderes múltiplos.

Ora, o que se assiste é a uma rede de poderes centrífugos, numa variedade de conflitos, em torno de articulações horizontais ou laterais, bem como uma articulação vertical ou centrípeta. Há uma batalha perpétua do poder, não tanto através de guerras propriamente ditas, mas antes pela constante luta contra os ilegalismos. E uma batalha que não o deixa de ser mesmo quando não têm resistências.

Este modelo de rede sociológica, como a configuração dos laços sociais informais nos quais se encontra inserido um indivíduo, vai servir, no plano internacional, para designar as interacções existentes entre os vários actores individuais e colectivos e que transcendem as fomais fronteiras dos Estados.

 

Em La Volonté de Savoir, de 1976, considera que o exercício do poder apoia-se na construção de um saber. A soberania do Estado é apenas uma forma terminal e não um dado inicial. O poder está em todo o lado, é omnipresente, resulta de uma situação estratégica complexa. As relações de poder não são super-estruturas nem realidades que transcendem a sociedade. Vêm de baixo. Não há uma relação binária entre dominadores e dominados, essa realidade que se repercute de cima para baixo e que vai até às profundezas da sociedade. Há uma rede de poder que não só funciona numa sociedade como também a faz funcionar. As resistências apenas são o outro termo das relações de poder. Mesmo as revoluções não significam a aparição de uma alteridade absoluta ao poder. Não passam de uma codificação estratégica de vários pontos de resistência. O Estado assenta na integração institucional das relações de poder e, contrariamente a certos marxistas, não vale a pena concebê-lo como produto da classe dominante.  Nem também é manifestação actual da Lei (jurídica ou freudiana), ou resto de uma dominação do pai, do senhor ou do rei. Há um campo múltiplo de relações de força onde se produzem efeitos globais de dominação, mas jamais totalmente estáveis. Assim, propõe que se estudem os objectivos, a eficácia táctica e os modelos estratégicos.

 

Já segundo as teses de Jacques Derrida, filósofo francês, autor de L’Écriture et la Différence, 1967; Donner le Temps, 1991; Spectres de Marx, 1994; Résistances, 1996, qualquer texto depende de uma dicotomia que é sempre uma hierarquia. Logo, desconstruir é o mesmo que inverter a hierarquia, mas sem a procurar transcender, através de uma espécie de criticismo que não tem como objectivo a simples rejeição, porque o que importa é reinscrever  todas as teorias em novas vias.

De facto, sendo um qualquer  um agregado escrito de palavras, um trecho onde há palavras inseridas num discurso, todas as palavras são polissémicas, dado constituírem agregados linguísticos com significantes e significados. São significantes porque remetem para um qualquer coisa de extralinguístico, para um referente, a coisa significada, onde o linguístico é o significante e o extralinguístico, o referente. Logo, para compreender-se o significante, tem de précompreender-se o referente, esse subentendido que o texto reflecte, mas que está for a do texto.

Isto é, além da palavra que designa a coisa, tem de apreender-se a própria coisa, pelo que, para se interpretar um texto, importa ir além da palavra, passar à coisa, dar précompreensão à compreensão do texto, globalizar, dar sentido, integrar no contexto.

Assim, consideram que a disciplina está dependente de uma vasta dicotomia que assenta na oposição entre assuntos internos contra política externa. Na política externa haveria violência, repetição e anarquia. Na política interna, ordem, progresso e resolução pacífica de conflitos. Porque o nacional e o internacional são considerados opostos, acabam por estar dependentes um do outro.

Logo tem de assumir uma nova perspectiva das relações internacionais que ultrapasse principalmente o paradigma neo-realista que se assume como a única face verdadeiramente científica desta área académica.

Nesta base tratam, sobretudo, de fazer uma desconstrução da teoria da soberania, o principal pressuposto do realismo. Neste sentido, alguns chegam mesmo a considerar a integração política europeia como a primeira das formas políticas pós-modernas e até alinham com a utilização das metáforas neomedievais sobre a construção europeia, entendida como uma espécie de regresso ao sistema de relações interpolíticas prévestefalianas.

Outra das superações do soberanismo estudada pelos pós-modernos são as intervenções humanitárias, a exemplo da defesa dos curdos ou dos kosovares.

De qualquer maneira estas compósitas posturas tentam ultrapassar certas querelas como as do idealismo contra o relativismo ou do cosmopolitismo contra o comunitarismo, considerando falsas as posições que partem da dicotomia particular / universal ou científico / normativo. Até assinalam que os mais normativistas são precisamente os cientificistas.

Alguns, influenciados pelos modelos habermasianos da teoria da acção comunicativa (Theorie des kommunikativen Handeln) falam mesmo numa ética da diferença sem indiferença (Ashley). Muitos, rejeitando o conflito entre os hobbesianos e os kantianos, tratam mesmo de invocar a nova interpretação de um Nietzsche, já liberto das teias que o pretenderam ligar ao totalitarismo hitleriano.

Importa também chamar a atenção para a faceta feminista deste movimento, nomeadamente para os trabalhos de C. Gilligan, Different Voice. Psychological Theory and Women's Development, Cambridge /Mass., 1982;  S. Ruddick, Maternal Thinking. Towards a Politics of Peace, Boston, 1990, e  a comunitarista Shaeyla Banhabib, Situating the Self. A Study of the Normative Foundations of Critical Theory, Nova Iorque, 1986.

Gilligan chama a atenção para o carácter masculino da ética da justiça, defendendo uma ethics of care, mais contextual, mais imersa nos pormenores relacionais e narrativos, mais voltada para a empatia para o outro. Ruddick salienta a existência de um pensamento maternal, que ultrapassa o hierarquismo e quase nos faz recordar a intuição poética da nossa Natália Correia que no seu visionarismo queria substituir a pátria pela mátria. Benhabib avança para a necessidade de um universalismo interactivo, mais sensível e aberto à diferença.

 

A matéria do feminismo político, desencadeada a partir das obras de Simone Beauvoir e Betty Friedan, autora de The Feminine Mystique, Nova Iorque, Norton, 1974, não se reduz hoje aos aspectos folclóricos que estavam ligados às feministas radicais e às feministas marxistas, dado que o campo também foi ocupado pelo feminismo demoliberal. Não deixam, no entanto, os novos movimentos de acirrar o naturalismo que caracteriza as mulheres como mais éticas, mais pacíficas, mais conciliadoras e mais democráticas que os homens. Alguns desses grupos assumem a defesa da maternidades, na linha do Manifesto das Mães emitido pelos verdes alemães em 1987, defendendo a revisão da política de urbanização e uma política estadual de aumento das pensões e de fomento do emprego flexível a fim de aumentar o tempo de não trabalho das mães.

O antecedente do movimento encontra-se em Mary Wollstonecraft, a autora de Vindictation of the Rights of the Women, de 1792. Muitas obras até assumem a ideia de Virgina Woolf, segundo a qual como mulher, não tenho pátria, como mulher, não tenho necessidade de pátria. É assim que Kate Millet, em  Sexual Politics, de 1969, considera o poder como structured relationships, arragements, whereby one group of persons is controlled by another.