Porque a maneira como vivemos  está tão longe da maneira como deveríamos viver, que aquele que põe de parte o que se faz para se preocupar com o que se deve fazer, cavará a sua própria ruína em vez de prover ao seu sustento.

Maquiavel

 

Não é por acaso que um dos primeiros teóricos europeus das modernas relações internacionais é o renascentista italiano Giovanni Botero, mais conhecido por ter forjado a expressão, ragione di Stato, em 1583. Este ex-jesuíta, colaborador dos duques de Sabóia, é autor de umas Relazioni Universali, editadas em quatro tomos, entre 1591 e 1596, onde também se preocupa com temas de demografia e da inevitável guerra.

 

Giovanni Botero (1540-1617) Jesuíta, saído da ordem em 1581. Secretário do Cardeal Carlo Borromeu em Milão e depois dos duques de Sabóia. É um dos primeiros teóricos das relações internacionais e da demografia.  Teorizador da guerra. Considera que esta deve ser encarada instrumentalmente, podendo servir para a promoção da paz civil. Dá o exemplo da Espanha do seu tempo que sendo mobilizada para guerras distantes, consegue garantir uma estabilidade interna, enquanto a França, sem tal participação em guerras externas, acaba por viver guerras civis religiosas. Entre as suas obras, Della Ragione di Stato, Milão, 1583. Ver a trad. port. Da Razão de Estado, de Luís Reis Torgal e Raffaela Longobardi Ralha, Coimbra, INIC, 1992. Delle cause della grandezza e magnificenza delle Città, Roma, 1588. Relazioni universali, em 4 tomos, Roma, 1591-1596. Discorso della neutralità, 1598.

 

As máximas do processo da conquista e manutenção do poder, essa ideia de que a essência do poder é procurar manter-se, conforme as palavras de Salazar, em 1936, têm sido a marca do legado maquiavélico que transformou as relações internacionais num domínio, onde utilizando expressões de Kant, se praticaria o fac et excusa, o si fecisti, nega e o divide et impera que constituiriam as astúcias utilizadas pela sabedoria imoral.

 

Este legado vai fazer uma errada interpretação do my country, right or wrong, dado que subscreve a velha afirmação de Talleyrand, para quem mandar é sentarmo-nos, também assumida por Benito Mussolini, para quem o dever de qualquer regime é o de durar.

Uma das consequências do modelo é a transformação dos situacionismos numa espécie de reino cadaveroso, para utilizarmos a qualificação de António Sérgio.

O divide et impera a que, em inglês, corresponde o divide and rule e, em português, o divide para reinar, constitui uma clássica táctica de manutenção no poder, tanto no plano interno como no âmbito das relações internacionais. Com ela pretende assegurar-se que os inimigos, ou os adversários, estão sempre divididos e, portanto, suficientemente fracos para promoverem uma efectiva mudança, tanto através de uma aliança opositora, quanto pelo estabelecimento de uma coligação negativa capaz de derrubar a situação estabelecida. Foi o processo utilizado pelo Império Romano e também pelo Império Britânico.

Uma das suas consequência é a chamada balcanização, termo cunhado pelos socialistas alemães do século XIX, para criticarem a acção do czar da Rússia nos Balcãs, quando este apoiou a constituição de uma pluralidade de unidades políticas, pequenas, separadas e hostis. A expressão vai ser retomada em 1918, qualificando o modelo de divisão estadual consagrado pelo Tratado de Brest-Litovsk. Voltou a usar-se para definir a divisão estadual africana posterior à descolonização.

Uma variante da balcanização é a chamada libanização, expressão usada nos anos oitenta qualificando a divisão de um Estado em muitas facções armadas hostis.

Próxima destes modelos, está a chamada finlandização, que visa traduzir o processo de política externa da Finlândia durante a Guerra Fria, protagonizado por Suho Passikivi, que estabeleceu um modelo de relações com a URSS baseado na cedência, através de acordos amigáveis e concessões comerciais, mas que garantiu a esse Estado a não-satelitização. Trata-se de uma forma de dependência face a um vizinho poderoso que garante a não integração no espaço de dependência do mesmo.