Estas perspectivas assentaram num terreno cultural que havia sido semeado por autores como Karl Paul Reinhold Niebuhr (1892-1971), pastor protestante e professor em Nova Iorque e Yale, que veio fazer uma radical separação entre a moral individual e a moral dos Estados, salientando que esta é marcada pelo egoísmo, pelo interesse nacional e pela força.

As circunstâncias da guerra fria também favoreceram o desenvolvimento das teses de uma escola que não queria resvalar para a cruzada das guerras ditas ideológicas e até assinalava que estas sempre foram mais desastrosas que as chamadas guerras nacionais.

Por outras palavras, a escola realista, invocando o puritanismo desta ética protestante, distanciou-se das caricaturas maquiavélicas e quase repetiu a razão de Estado cristã de Justus Lipsius, esse professor de Lovaina, autor de Politicorum, sive Civilis Doctrinae, com uma primeira edição de 1589, o manual da governação filipina, onde se faz a apologia de um Estado burocrático e forte, bem distante das teses então assumidas por um Erasmo ou por um Vives. Aí se considerava injustificável e absolutamente condenável a fraude política grande, como a perfídia e a injustiça, mas admitiam-se duas outras formas. A fraude ligeira, como a desconfiança e a dissimulação, seria aconselhável a qualquer estadista. Já a fraude média, como a que se traduz na corrupção e no engano, entraria na categoria do tolerável.

De assinalar que a primeira versão da obra ainda foi colocada no Index dos livros proibidos pelo Papa, em 1590, quando o autor ainda era protestante. Convertido ao catolicismo, logo o autor refaz o texto anterior, em1596.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      ,

Dava-se assim o regresso a uma nova forma de razão de Estado, recriando-se uma ética da responsabilidade, distinta da ética da convicção, porque os fins poderiam justificar os meios, numa lógica dita dos maquiavélicos defensores da liberdade, contra aquilo que se convencionou chamar o império do mal, o inimigo soviético.

Paradoxalmente, a viragem do mundo, concretizada no ano de 1989, foi a melhor demonstração da falta de realismo de uma teoria que se queria realista, porque o que liquidou o concentracionarismo soviético, nasceu, sobretudo, daquilo que Vaclav Havel qualificou como o poder dos sem poder, ou, para utilizarmos a terminologia do polaco Thadeusz Mazowiecki, de uma política antipolítica, marcada por um combate pela consciência onde importaria a fidelidade aos princípios morais fundamentais.

Afinal talvez haja que rever a ideia de Maquiavel, segundo a qual o Homem não faz o bem a não ser quando é pressionado pela necessidade. Depois, talvez seja de pôr em causa certa nietzschiana perspectiva da Wille zur Macht, daquela vontade de poder pelo poder que faz um apelo ao vitalismo de certo homem de Estado, entendido como um homem de acção, daquela virtù que irradia sobre o conjunto dos outros seres humanos e que reduz a vida a um movimento pelo movimento, mesmo que seja a velocidade que nos leva ao precipício.

Toda esta geração realista acaba por negar o próprio nome com que procurou qualificar-se, porque, dos factos, acabaram por extrair valores. Com efeito, ao tentarem uma política desligada da ética, acabaram por criar uma ética com fundamentos não éticos, formulando leis a partir de factos, apesar de, paradoxalmente, considerarem que, dos princípios transcendentes, não poderiam extrair-se factos.

Porque, como reconhece expressamente Raymond Aron, considerar o poder como o objectivo único ou supremo dos indivíduos, dos partidos ou do Estado, não é uma teoria no sentido científico da palavra, mas uma filosofia ou uma ideologia (1967).

O realismo político, afinal, apenas levou a um novo rebaixamento dos fins da política, principalmente quando difundiu um conceito de estadista capaz de, em nome da responsabilidade do Estado, suspender as convicções, porque admitiu que os fins, considerados superiores, justificariam os meios inferiores utilizados. E não tardariam que, em nome da democracia, se protegessem autoritarismos antidemocráticos, em nome da luta contra um mal maior, o comunismo e o consequente totalitarismo do modelo soviético.

 

A chamada Guerra Fria (1946-1989), pode ser caracterizada, para utilizarmos palavras de Adriano Moreira, como meio século de violência estrutural, nuclear e assente na gestão do medo recíproco, uma estratégia diplomaticamente chamada de dissuasão, deram porém origem a que o ambiente sistémico do território europeu ocidental, este sempre objectivamente em risco de se transformar em campo de batalha ou moeda de troca, inspirasse, pela longa duração, uma espécie de segurança da vida habitual.

Continuando a seguir o mesmo mestre, tratou-se de um confronto de blocos, com competição ideológica, onde o aniquilamento do adversário era considerado como fim da história; onde se considerou que guerra só podia ser evitada pelo permanente equilíbrio pelo terror; onde a coligação estava permanentemente em exercício; onde era difícil separar a paz da guerra; e onde existia  em cada bloco de um Estado Director.

Podemos até assinalar-lhe os seguintes períodos: 

1. Dissuasão unilateral (entre 1945 e 1951, quando os Estados Unidos da América têm o monopólio atómico, num período marcado pelo aparecimento da República Popular da China, em 1949, e pela eclosão da Guerra da Crimeia);

2 Dissuasão bilateral (entre 1952 e 1959, depois da URSS entrar no clube atómico, quando os norte-americanos ameaçam com a chamada retaliação maciça, sobretudo até 1953, data da morte de Estaline; é um período marcado pela crise do Suez e pela invasão da Hungria).

3 Disputa cósmica (entre 1959 e1961, quando todos os membros do Conselho de Segurança da ONU entram no clube atómico; é neste período que a  URSS entra na corrida do espaço e os acontecimentos mais importantes são a guerra do Vietname, o conflito entre a Índia e China por causa do Tibete e o incidente dos mísseis de Cuba);

4 Política de co-responsabilidade (entre 1961 e1975, que  leva ao Tratado de Moscovo de 5 de Agosto de 1963, sobre a suspensão formal das experiências nucleares; neste período surgem vários tratados de limitação de armas estratégicas, como o SALT I, de 26 de Maio de 1972, e o  SALT II, de 1979; o  modelo culmina com a Conferência de Helsínquia, cuja acta final é assinada em 1 de Agosto de 1975). Dentro deste largo período, alguns analistas falam também de duas fases. Uma de aproximação e confronto, de 1955 a 1969, outra de détente, de 1969 a 1979.

5. Da guerra das estrelas à queda do muro (é o momento do fim do confronto Leste/Oeste, depois de um tempo de confronto limitado, entre 1979 e 1988, com a invasão soviética do Afeganistão e a guerra no El Salvador).

Com efeito, o equilíbrio entre o grupo anglo-americano e os soviéticos, com o findar da Segunda Guerra Mundial, foi imediatamente rompido, quando se iniciou a guerra civil grega, a partir de 3 de Dezembro de 1944.

               Não tarda que Winston Churchill, em 5 de Março de 1946, no célebre discurso de Fulton, venha reconhecer que, sobre a Europa, tinha caído uma cortina de ferro, imagem que, aliás, fora adaptada da propaganda goebbelsiana.

               É natural que os norte-americanos tenham sistematizado o processo de combate anti-soviético. Primeiro com a doutrina de Truman, que, em discurso perante o Congresso, em 12 de Março de 1947, vem declarar a vontade norte-americana de lutar, na Grécia, na Turquia e em qualquer parte do mundo contra o comunismo, dispondo-se a apoiar os povos livres que resistem às tentativas de servidão exercidas contra eles por minorias armadas ou por pressões exteriores.

               Depois, com o célebre Plano Marshall, de ajuda económica à reconstrução da Europa, enunciado pelo discurso do general Marshall, então secretário de Estado, na Universidade de Harvard, em 5 de Junho do mesmo ano de 1947.

               Compreende-se assim que, na Conferência de Moscovo dos chamados três grandes, em 24 de Abril de 1947, já se tenha assistido a um total desacordo. A escalada da guerra fria vai começar.

               Primeiro, a série de expulsões de militantes comunistas de vários governos, tanto na Europa ocidental como em países situados na esfera de influência norte-americana. Assim, em 4 de Maio, os comunistas saem do governo francês, então presidido pelo socialista Paul Ramadier; em 13 de Maio, do governo italiano, na sequência de uma cisão do Partido Socialista, donde se destacou, em 9 de Janeiro, um Partido Social Democrático contrário ao unitarismo com os comunistas.

               A resposta de Estaline não se fez esperar. Em 5 de Outubro de 1947 restaurava o Komintern, sob a forma de Kominform e, de 31 de Março de 1947 a 12 de Maio de 1948, impunha o Bloqueio a Berlim.

               Entretanto, perante a sugestão do Plano Marshall, que a URSS logo recusou em 2 de Julho de 1947, no que foi seguida pelos países já por ela satelitizados, reunia-se em Paris, em 12 de Julho de 1947, um grupo de dezasseis países aceitantes do modelo de apoio norte-americano, o núcleo duro donde vai sair a OECE, em 16 de Abril de 1948, a mesma instituição que, depois, se universaliza em OCDE, em 14 de Dezembro de 1960.

               Outros tiros organizacionais eram dados pelo lado ocidental, com destaque para a assinatura do Pacto do Atlântico, em 4 de Abril de 1949, e para o processo de unificação da Europa Ocidental, através de uma série de etapas.

               Primeiro, o Tratado de Dunquerque, entre a França e a Alemanha. Depois, a instituição do Benelux, em 1 de Janeiro de 1948, a que se segue o Tratado de Bruxelas, de 17 de Março de 1948, e, em 5 de Maio de 1949, o Conselho da Europa.

               Já em 9 de Maio de 1950, surge o célebre discurso do Salon de l'Horloge do ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Robert Schuman, onde se propõe o aproveitamento comum do carvão e do aço entre a França e a Alemanha, base do Tratado de Paris que instituiu a primeira das comunidades europeias, a CECA, em 18 de Junho de 1951, e do Tratado de Roma, de 25 de Março de 1957.

            Por seu lado, em 27 de Maio de 1952, surge a falhada Comunidade Europeia de Defesa, que a Assembleia Nacional Francesa não aprova em 30 de Agosto de 1959.

               Enquanto isto, a URSS, através de Estaline, responde com a instituição do COMECON, em 25 de Janeiro de 1949, e depois, já sob a liderança de Khruchtchev, com o Pacto de Varsóvia, em 14 de Maio de 1955.

               Contudo, o principal ping-pong entre o Leste e o Oeste ocorreu na Alemanha. Em 22 de Abril de 1946, na zona de ocupação soviética, dava-se a fusão entre o SPD e o PC, enquanto em Abril de 1947 Karl Schumacher reconstruía o SPD na zona ocidental.

               Em 23 de Maio de 1949 surgia a República Federal da Alemanha, onde, depois das eleições de 14 de Agosto, tomava posse, em 15 de Setembro, o novo chanceler, o democrata-cristão Konrad Adenauer.

               Os soviéticos respondem com a criação, em 12 de Outubro de 1949, da República Democrática Alemã que, em 29 de Setembro de 1950, aderia ao COMECON depois de, em 18 de Janeiro de 1946, já ter constituído forças armadas próprias.

               Outro episódio fundamental do processo é a Guerra da Coreia. Em 16 de Janeiro de 1948 era proclamada a República Popular da Coreia, Norte, sob o signo de Kim Il Sung, um pouco antes de, na vizinha China, Mao Tsetung proclamar a República Popular da China, em 1 de Outubro de 1949.

               Nesta sequência, em 25 de Junho de 1950, tropas norte-coreanas invadem a Coreia do Sul. Como resposta, em 29 de Julho, tropas norte-americanas intervêm a favor do Sul, com a cobertura da ONU. Em 8 de Julho, Mac Arthur, o vencedor dos japoneses, era nomeado comandante chefe das forças armadas que actuavam sob a legitimidade onusiana.

               Pouco tempo depois, em 26 de Setembro, já norte-americanos e sul-coreanos retomavam Seul, para, em 2 de Outubro, transporem o paralelo 38. Entretanto, em 15 de Outubro, voluntários chineses intervinham em apoio dos norte-coreanos, obrigando, a partir de 2 de Dezembro, a um recuo das forças da ONU, de tal maneira que, em 24 de Dezembro, os comunistas já voltam a penetrar no Sul, ocupando, mais uma vez, Seul, logo em 5 de Janeiro de 1951. Mas a ofensiva dos nortistas acaba por ser detida em 24 de Janeiro, para mais uma contra-ofensiva face ao Norte e uma nova reconquista de Seul, em 14 de Março de 1951. O Armistício só vai chegar em 27 de Julho de 1953.

               Do mesmo modo, urge ressaltar a chamada Crise do Suez, subsequente à subida ao poder de Nasser, em 18 de Abril de 1954, que, dois anos depois, inicia um processo de aproximação aos soviéticos, pelo que, em 10 de Julho de 1956, já o Egipto começa a receber armamento de Moscovo.

               Tudo se agrava quando os USA recusam financiar a construção da projectada barragem de Assuão, em 19 de Julho de 1956, posição a que, dois dias depois, a URSS responde, prometendo examinar as possibilidades de apoio.

               Nasser decide então nacionalizar o canal de Suez, em 26 de Julho de 1956, afrontando directamente tanto os interesses como o orgulho dos europeus ocidentais e em 5 de Novembro eis que se dá o desembarque de tropas franco-britânicas em Port SaiD.

               A Europa ocidental verifica, então, que deixara de ser protagonista na cena mundial. Sem o apoio norte-americano, vê-se alvo de um ultimato soviético, ao mesmo tempo que Nehru ameaça abandonar a Commonwealth, não faltando sequer uma formal condenação da ONU. As tropas franco-britânicas são assim obrigadas a recuar e o fruto amargo dos ventos da história mostra quem foi o efectivo derrotado na Segunda Guerra Mundial.