As grandes verdades pretensamente científicas do realismo político assentam tanto numa restrita ideologia do Estado, herdeira do soberanismo absolutista, como na carga histórica de um certo facto consumado, o modelo de relações inter-estaduais gerado pela paz de Vestefália.

Filho das vulgatas ideológicas que difundiram as teses de Maquiavel, Bodin e Hobbes, o modelo nem sequer obedeceu aos sonhos de um Espinosa que, no plano das relações internacionais, propunha o estabelecimento de um modelo de segurança colectiva mediante um contrato social internacional, um tratado conjunto de paz, pelo qual, seria menor a liberdade de cada um dos Estados contratantes, dado que todos estariam ficariam obrigados a respeitar a vontade geral.

De certa maneira, acabou por ceder à primazia do poder sobre o direito e quase subscreveu o florentino quando assinalava que no plano da actividade do estadista cada um faz o melhor que pode em defesa dos seus próprios interesses e pode ser criticado quando muito pelos seus enganos, mas nunca pelos seus crimes.

Mesmo um Professor Cabral de Moncada, defensor da soberania, embora limitada pela moral e pelo direito, não deixava de assinalar, em 1955, que jamais o indivíduo pode tão pouco invocar alguma coisa de parecido com uma Razão-de-Estado para se furtar ao cumprimento dum dever de consciência, o tal imperativo categórico kantiano que aqui se aproxima do cristianíssimo amar ao próximo como a nós mesmos.

Aceita-se assim que, no plano da soberania se vive em regime de estado de excepção, segundo a concepção de Carl Schmitt, dado que esta não é limitada pelo direito e pela moral. Aceita-se com efeito que o conceito de decisão está no coração da noção de soberania, porque o soberano é o que decide da situação excepcional.

Partindo das análises weberianas, surgiu, entretanto, uma nova escola da sociologia histórica, onde alinham nomes como Anthony Giddens ou Michael Mann que, aceitando, como o realismo, que o Estado não é um produto do contrato social, dado se ter forjado na lei da guerra, apontam para a respectiva origem uma multicausalidade causal, assinalando que ele é produto da intersecção de várias formas de poder, que é dotado de multi-espacialidade, de várias redes sócio-espaciais de poder, que apenas tem uma autonomia parcial, que sofre da mudança complexa e que é apenas uma consequência de um todo onde se integra, a sociedade.

 

A chamada sociologia histórica tem diversas variantes. Uma delas faz uma leitura neomarxista do desenvolvimentismo, com destaque para Perry Anderson, Immanuel Wallerstein, Barrington Moore, Charles Tilly e Theda Skocpol. Esta autora é, aliás, uma das inpiradoras do chamado movimento de return to the State, no chamado neostatist movement. Entre as suas obras: State and Social Revolutions. A Comparative Analysis of France, Russia and China, Cambridge, Cambridge University Press, 1979 [trad. port. Estado e Revoluções Sociais. Análise Comparativa da França, Rússia e China, Lisboa, Editorial Presença, 1988]. Protecting Soldiers and Mothers. The Political Origins of Social Policy in the United States, Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1993. Social Revolutions in the Modern World, Cambridge, Cambridge University Press, 1994. Social Policy in the United States. Future Possibilities in Historical Perspective, Princeton, Princeton University Press, 1995. Bringing the State Back In, Cambridge, Cambridge University Press, 1985. Com Peter Evans e Dietrich Rueschemeyer.

Charles Tilly, doutor em sociologia por Harvard (1958). Professor em Delaware, Harvard, Toronto e Michigan, aqui desde 1969. A partir de 1984, em Nova Iorque. Partindo da análise da Vendeia, salienta que na revolução, há uma soberania múltipla: a revolução começa quando um governo, controlado anteriormente por uma entidade política soberana se torna objecto de reivindicações efectivas, concorrentes e exclusivas, provindas de duas ou mais entidades políticas. Conclui-se quando uma entidade política soberana única retoma o controlo do governo. Elabora a seguir uma teoria sobre a formação dos estados nacionais na Europa Ocidental, considerando o Estado como o contrário da sociedade tradicional, assinalando que o mesmo é constituído por três elementos: um povo, um território e uma organização política diferenciada. Entre as suas obras: The Vendée, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1964. Cfr. trad. Fr. La Vendée, Révolution et Contre-Révolution, Paris, Librairie Arthème Fayard, 1970. An Urban World, Boston, Little, Brown, 1974. Strikes in France, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1974. Com Edward Shorter. The Formation of National States in Western Europe, Princeton, Princeton University Press, 1975 (ed.). Big Structures, Large Process, Huge Comparison, Newbury Park, Sage Foundation, 1977. The Rebellious Century. 1830-1930, Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1975. Com Luise A. Tilly e Richard Tilly. From Mobilization to Revolution, Reading, Massachussetts, Addison-Wesley, 1978. As Sociology Meets History, Nova Iorque, Academic Press, 1981. The Contentious French. Four Centuries of Popular Struggle, Cambridge, Mass., Belknap Press of Harvard University Press, 1986. Cfr. Trad. fr., La France Conteste, Paris, Librairie Arthème Fayard, 1986. Coercion, Capital and European States. AD 990-1992, Oxford, Blackwell, 1990. Cfr. Trad. port. De Geraldo Gerson de Souza, Coerção, Capital e Estados Europeus, São Paulo, Edusp, 1996. European Revolutions. 1492-1992, Oxford, Blackwell, 1992. 

De Barrington Moore Jr., destaque para: Political Power and Social Theory, Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1958. Social Origins of Dictatorship and Democracy. Lord and Peasant in the making of the modern world, Boston, Beacon Press, 1966 (trad. fr., Les origines Sociales de la Dictature et de la Démocratie, Paris, Maspero, 1969). Injustice. The Social Bases of Obedience and Revolt, Basingstoke, Macmillan Press, 1969. Reflections of the Causes of Human Misery, Londres, Allan Lane, 1972. Ver a trad port. Reflexões sobre as Causas da Miséria Humana, Rio de Janeiro, Zahar, 1974.

Há também uma sociologia histórica de inspiração funcionalista, assumida por Reinhard Bendix, que considera a sociedade civil como todas as instituições nas quais os indivíduos podem seguir interesses comuns sem a direcção ou a interferência do governo. O autor filia-se directamente em Max Weber, sendo até autor de Max Weber. An Intellectual Portrait, Londres, Heinemann Books, 1960 [trad. port. Max Weber. Um Perfil Intelectual, Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1986]. Outras das suas obras: Nation-Building and Citizenship. Studies of Our Changing Social Order, Nova Iorque, John Wiley & Sons, 1964. Class, Status and Power. Social Stratification in Comparative Perspective, Glencoe, The Free Press of Glencoe, 1966. Com Seymour Martin Lipset. State and Society, Boston, Little, Brown & Co., 1968 [reed., Berkeley, University of California Press, 1973]. Ed. Embattled Reason, Nova Iorque, University Press, 1970. Scholarship and Partisanship. Essays on Max Weber, Berkeley, University of California Press, 1971. Com G. Roth (org.). Kings or People. Power and the Mandate to Rule, Berkeley, University of California Press, 1978.

É nesta linha que se insere Anthony Giddens, professor de sociologia em Cambridge e depois director da London School of Economics and Political Science. Um dos inspiradores políticos do New Labour e da terceira via do socialismo democrático, conforme vieram a ser protagonizados por Tony Blair. Entre as suas obras: Politics and Sociology in the Thought of Max Weber, Londres, 1962. The Class Structure of the Advanced Societies, Londres, Hutchinson, 1973. Com  Stanworth, P., eds. Elites and Power in British Society, Cambridge, Cambridge University Press, 1974. New Rules of Sociological Method, Nova Iorque, Basic Boks, 1976. Capitalismo e Moderna Teoria Social,  trad. port., Lisboa, Editorial Presença, 1976. Central Problems in Social Theory, Berkeley, University of California Press, 1979. The Construction of Society. Outline of the Theory of Structuration, Cambridge, Polity Press, 1984. The Nation-State and Violence. Volume Two of a Contemporary Critique of Historical Materialism, Cambridge, Polity Press, 1985. Durkheim on Politics and the State, Stanford, Stanford University Press, 1986. Social Theory and Modern Sociology, Cambridge, Polity Press, 1987. The Consequences of Modernity, Cambridge, Polity Press, 1990. Modernity and Self Identity, Cambridge, Polity Press, 1992. Politics, Sociology and Social Theory. Encounters with Classical and Contemporary Social Though, Stanford, Stanford University Press, 1995. Beyond Left and Right. The Future of Radical Politics, Stanford, Stanford University Press, 1995.

Na mesma senda, destaca-se Michael Mann, mais preso a certos conceitos operacionais marxista. Considera que, além  do poder político clássico exercido pelo governo numa situação de comando‑obediência, existe uma espécie de poder infra‑estrutural, a capacidade de penetrar a sociedade e de organizar as relações sociais, devendo perspectivar-se duas faces ou duas dimensões no poder do Estado. O poder infra-estrutural resulta do facto do centro poder colaborar com os agrupamentos da sociedade civil, permitindo maior eficiência. Um governo forte pode significar um Estado fraco, no sentido de pouco poder infra-estrutural (caso do Estado absolutista francês no século XVII), tal como um governo fraco pode significar um Estado forte (caso da mobilização britânica durante a II Guerra Mundial). Entre as suas obras: Consciousness and Action among the Western Working Class, Londres, MacMillan, 1973. Sources of Social Power. A History  of  Power  from the Beginning to 1760 AD, Cambridge, Cambridge University Press, 1986. States, War and Capitalism. Studies in Political Sociology, Oxford, Basil Blackwell Publishers, 1988.

Refira-se que, depois de Theda Skocpol ter proclamado a necessidade de Bringing the State Back In, o próprio David Easton, na American Political Science Review de 1988, criticou duramente o movimento, qualificando-o como uma tentativa de invasão do universo cultural norte-americano por uma corrente onde Marx reaparecia através de Gramsci, Althusser, Poulantzas ou Claus Offe, embora compensado com algumas pitadas de Max Weber e de Otto Hintze.

Contudo, o retorno ao Estado foi também assumido no campo dos politólogos demoliberais. Assim, Samuel P. Huntington, já em 1965, defendia uma politologia state-centric, acentuando a importância do Estado-aparelho de poder para a explicação do poder e dos processos políticos, reagindo assim contra o funcionalismo e outras correntes que realçavam a importância de organizações não-públicas nas policies. Também Stephen Krasner, em 1984, sublinha o facto do Estado não poder ser entendido como um reflexo das características ou das preferências da sociedade.

O regresso das teorias do Estado, se corresponde, ao nível anglo-saxónico, a algo que pode ser caricaturizado como uma viragem à esquerda no sentido anti-pluralista do termo, não tem idêntica tradução nos domínios do pensamento europeu-continental que segue as tradições do Estado à francesa, em que a perspectiva da societé contre l’État, em meados dos anos setenta, fora assumida pela crítica de gauche aos totalitarismos e pelos herdeiros do personalismo.

Mas também foi em França, principalmente com Simone Goyard-Fabre e Blandine Barret-Kriegel, que se reassumiu a ideia de Estado de Direito, tentando casá-la com a tradição republicana e o movimento de defesa dos direitos do homem, essa mistura tipicamente francesa, superando o jacobinismo através do moderantismo, à maneira de Constant, prefere Tocqueville a Comte e continua o nacionalismo místico da III República, pelo culto das lideranças de De Gaulle ou Mitterrand.

A bibliografia politológica francesa dos anos oitenta e noventa que se recentra sobre o Estado e o fenómeno político superior é impressionante. Os intelectuais franceses de origem judaica organizam um colóquio sobre La Question de l'État, em 1989. Bertrand Badie e Pierre Birnbaum publicam uma Sociologie de l'État [1979]. Birnbaum retoma a perspectiva em La Logique de l’État [1982], onde é marcante a viagem em torno de Durkheim, já retomada por Bernard Lacroix, em Durkheim et le Politique [1981]. Blandine Barret-Kriegel, para além de L'État et les Esclaves [1979], inicia a publicação de Les Chemins de l'État, em 1986. Pierre Bauby e Jean-Claude Boual reflectem sobre L’État-Stratège. Le Retour de l’État (1994). Olivier Beaud enfrenta a questão de La Puissance de l’État [1994]. Gérard Bergeron, depois de analisar o Fonctionnement de l'État [1965], organizou um Petit Traité de l’État [1990]. Henri de Bodinat elabora um quase-manifesto sobre o tema, L’État, Parenthèse de l’Histoire [1995]. Didier Boutet faz a ligação ao pensamento jurídico em Vers l'État de Droit. La Théorie de l'État et du Droit [1991]. De Pierre Brunel, temos L’État et le Souverain [1978]. Yves Cannac, para além de Le Juste Pouvoir. Essai sur les Deux Chemins de la Démocratie [1983], trata mesmo de teorizar sobre Le Retour de l’État [1993]. Jacques Chevalier enfrenta a questão de L’État de Droit [1992]. Dominique Colas publica L'État et les Corporatismes [1988]. C. Colliot-Thélène aborda Le Désenchantement de l’État. De Hegel à Max Weber [1992].

Mas outros autores importa referir, como por exemplo: Alain Cubertafond, em Le Pouvoir, la Politique et l'État en France [1993]; Jean-Philippe Genet, L’État Moderne. Genèse [1990]; Jacques Moreau, Théorie Générale de l’État [1995]; Jean Padioleau, L’État au Concret [1982]; Pierre Rosanvallon, L’État en France de 1789 à nos Jours [1990]; e Luc Rouban, Le Pouvoir Anonyme. Les Mutations de l’État à la Française [1994].

Refira-se, contudo, que o movimento é marcado por certo dogmatismo de seita e pelo método do sindicato das citações mútuas, esse processo que transforrma muitas escolas em blocos quase monolíticos de adoração face ao dicionário de algus mestres-pensadores.