O Professor Adriano Moreira, pioneiro, entre nós, na aproximação ao estudo da política internacional, da estratégia, da ciência política e que, depois, ousou uma teoria das relações internacionais, assumiu um lugar paralelo ao de Raymond Aron e de Martin Wight, apesar de ter sido mais do que um observador comprometido, dado ter ascendido a ministro no regime do Estado Novo e a deputado e líder partidário, na democracia, que também lhe confiou um papel de protagonista na avaliação do ensino superior. Fiel à disciplina do conceitualismo sistémico, bebido na sua formação jurídica, principalmente através de publicistas como Rocha Saraiva, iniciou-se em tais áreas de fronteira nos finais dos anos cinquenta quando se vivia a febre do realismo e do funcionalismo norte-americanos.

Aplicou, então, as suas energias analíticas àquilo que era o maioritário espaço das relações externas de Portugal e que então se chamava política ultramarina, na senda do esforço pioneiro de José Gonçalo Santa-Rita, autor de A África nas Relações Internacionais depois de 1870, obra reeditada em 1959.

Contudo, tentou equilibrar esses impulsos neomaquiavélicos, de matriz norte-americana, com algum humanismo conceitual de influência francesa, bebido, sobretudo, nos grandes esboços das disciplinas de análise dos grandes problemas contemporâneos, na senda de Georges Berlia E tudo soube aromatizar com o timbre de certo universalismo português, principalmente na senda do lusotropicalismo de Gilberto Freyre. Ficou assim no sincrético de uma terceira via, onde o fundo analítico do legado maquiavélico vive em permanente tensão com certas ascensões ao idealismo, tanto do humanismo dito laico, de marca maçónica, ao humanismo cristão, de inspiração católica, principalmente depois do cerebral reflexionismo que foi fazendo das encíclicas de João XXIII e da quase heresia de Teilhard de Chardin, numa constante inquietude, visando a captura dos sinais do tempo.

Curiosamente, foi depois da queda do Muro que avançou para uma teorização global das relações internacionais, onde aparecem importantes invocações tanto da ideia do poder dos sem poder, assumida por Vaclav Havel, como do espírito de Assis, de João Paulo II, integradas no contexto de uma linguagem neutralista, como é timbre das grandes organizações internacionais lideradas pela ONU.

É esta encruzilhada que assume, onde tanto respira o cepticismo dos realistas como algum entusiasmo dos idealistas, balouçando entre a ditadura dos conceitos operacionais do neopositivismo metodológico e alguns desviacionismos normativistas da contracorrente, principalmente a nível da  criação de um vocabulário próprio, marcado por aquilo que Gilberto Freyre qualificou como uma imaginação politicamente científica.

Mas porque le style c'est l'homme, é natural que mantenha o ritmo daqueles modelos de procura de new frontier dos começos da década de sessenta, bem expressos na way of life dos autores que marcaram a administração Kennedy, como Galbraith, e da própria imagem de um Martin Luther King, esse mesmo que queria plantar macieiras se soubesse que o mundo iria acabar.

Noutra perspectiva, navegaram alguns cultores do neotomismo, assumindo a herança de Francisco Suárez, principalmente a partir da antiga Pontifícia Faculdade de Filosofia de Braga, onde Paulo Durão Alves, logo em 1942, teorizava A Comunidade Internacional e Lúcio Craveiro da Silva avançava, em 1957, com uma análise da tríade Comunidade Internacional, Comunidade Europeia e Soberania Nacional. Manifestava-se a pujança de um pensamento católico que, contudo, depois do Vaticano II, parece não ter acompanhado o ritmo das encíclicas Pacem in Terris e Populorum Progressio, e, depois de 1974, não terá sido suficientemente mobilizado pela energia de uma corrente e de um papa que produziu a encíclica Centesimus Annus.

 

Paulo Durão Alves (1893-1977), jesuíta, da Faculdade de Filosofia de Braga, assumiu-se como teórico político, principalmente como analista das teses de Suárez. Entre as suas obras A Comunidade Internacional, 1942. Também jesuíta, Lúcio Craveiro da Silva (n. 1914), igualmente professor na mesma instituição é o inspirador da primeira licenciatura portuguesa em relações internacionais, surgida na Universidade do Minho. Autor de A Idade do Social. Ensaio sobre a Evolução da Sociedade Contemporânea, Braga, 1952. Comunidade Internacional, Comunidade Europeia e Soberania Nacional, Braga, 1957. Antero de Quental. Evolução do seu Pensamento Filosófico, Braga, Livraria Cruz, 1959.

Na senda deste impulso bracarense, embora sem a coerência doutrinária destes mestres, há que referir também os trabalhos dos professores António José Fernandes e Manuel Gonçalves Martins. Inventariando outras experiências universitárias portuguesas no domínio das relações internacionais, são de enumerar as dissertações de doutoramento de Vítor Marques dos Santos, no ISCSP, e de José Manuel Pureza, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Apesar da quantidade já assinalável das dissertações de mestrado, quase todas elas padecem de uma fragmentação teórica, constituindo tentativas várias de um certo mimetismo dos grandes faróis científicos da actualidade. Esperemos que frutifiquem as experiências universitárias de outras escolas como as da Universidade Nova de Lisboa e as da Universidade Lusíada e que consigamos aceder aos novos campos de preocupação e criatividade que sucederam a todos, depois do ano 1989.