Se
antes da implosão do sovietismo, quase todos os manuais de relações
internacionais incluíam um capítulo sobre a teoria marxista-leninista das relações
internacionais, podemos, hoje, dizer que existem, sobretudo, releituras
ocidentais dessa concepção do mundo e da vida, diluídas em vários
conglomerados teóricos que procuram a simbiose com anteriores adversários.
Assim, se ao marxismo ortodoxo se juntarem alguns conceitos de Gramsci,
dentro de um aparente discurso weberiano, aqui e além, polvilhado com
radicalismos verbais freudianos ou suaves inspirações da teologia cristã,
tudo parece novo e tudo acaba até por mesmo novo, dado que, deste modo, se abre,
aquilo que era um sistema fechado, à tradicional circularidade do pensamento
ocidental. Podemos até dizer que só com o neomarxismo foi possível tirar Marx
da estreiteza dos ideologismos, lançando no reino da liberdade do pensamento um
dos mais gigantescos esforços de um cérebro humano.
No âmbito das teorias neomarxistas sobre relações internacionais, destaca-se a chamada World systems theory, a teoria do sistema-mundo, elaborada a partir da obra de Immanuel Wallerstein que, distanciando-se das teses dependencistas, que aceitavam a ideia de clivagem Norte/Sul, com um Norte de Estados ricos e um Sul de países dependentes, considera a existência de um centro dominante, multiforme e multilocalizado, dotado de supremacia económica, contra uma periferia do sistema capitalista mundial, existindo também uma semiperiferia intermediária.
Se
os governos do tal centro se assumem como liberais e representativos e os
da periferia, como vassalos, já os da semiperiferia tendem a ser
voluntaristas, autoritários e militaristas, exercendo o papel de polícias
do centro face à periferia,
como teria acontecido com a Prússia e a Rússia, nos séculos XVIII e XIX, ou
com o Brasil, a Indonésia e o Irão, durante certas fases da Guerra Fria.
De
qualquer maneira, Wallerstein
mais não faz
do que estender a tradicional tensão marxista entre o capital e o trabalho a
uma escala mundial, na sequência da teoria do imperialismo de Lenine.
A
tese foi cunhada em The Modern
World-System, de 1974,onde se considera que, a partir do Renascimento, a
diferenciação dos sistemas políticos europeus, com a clivagem Leste/Oeste,
resulta do desenvolvimento económico desigual. Os países periféricos da
Europa, com as transformações tecnológicas ocorridas a partir dos séculos XV
e XVII, beneficiaram dos efeitos de uma economia mundial, marítima e comercial,
marcada pelo free trade e pela divisão
de trabalho a nível mundial. Por seu lado, os países do Centro e do Leste da
Europa, fechando-se sobre si mesmos, sofreram de uma recessão económica
que os obrigou a uma especialização agrícola. Assim, nos países periféricos
da Europa apareceu o Estado como
elemento fundamental no processo de diferenciação política interna, num
processo que teria sido facilitado pelo afluxo
de recursos económicos e monetários,
circunstância que permitiu o rápido desenvolvimento dos aparelhos
burocráticos centrais
Esta
explosiva mistura de neomarxismo com estruturalismo levou a que, com uma
linguagem cientificista, mas aliciante, se passasse a poder ver o mundo como um
polvo de várias cabeças, alimentado por secretos e visíveis tentáculos, o
dito sistema capitalista mundial, onde seriam estruturais os mecanismos
destinados a gerar a dependência dos periféricos.