O Regime da Palermocracia

 

As últimas cenas do nosso politiqueirismo seriam apenas cómicas se não revelassem a tragédia infra-estrutural de um regime político-cultural incapaz de seleccionar os melhores e de praticar a justiça a partir de uma enraizada igualdade de oportunidades. Por outras palavras, o Estado a que chegámos vive em regime de flagrante inconstitucionalidade, porque os profundos valores do Estado de Direito Democrático são intimamente violados pelos principais actores da presente mediocridade.

 

Ao contrário do que aconteceu com os pretéritos estádios do guterrismo e do cavaquismo, o indefinido do actual “status”, que nem sequer podemos qualificar como barrosismo, apenas vive em regime de luta pela sobrevivência, de acordo com os modelos TINA (There is no alternative).

 

Neste sem rei nem lei, somos, definitivamente, um fulgor baço da terra, onde nem sequer há nevoeiro, dado que apenas vigora o princípio maquiavélico, segundo o qual o essencial do poder é alguém procurar manter-se, porque, muito despudoradamente, se admite que, em política, o que parece, é.

 

O episódio da reunião do Partido Popular Europeu no Estoril, com a ascensão de Alberto João e os protestos contra o espectáculo da cultura Stanley Ho, é um dos melhores reveladores do actual sistema da palermocracia desta sociedade de capitalismo de casino, gerida pela cultura MRPP e pela democracia da futebolítica, e cuja síntese será o próximo casino do Parque Mayer.

 

Qualquer leitor de coisas profundas sobre a política sabe que um Estado com direito a pátria é uma comunidade de significações partilhadas, onde há uma comunhão cultural mobilizada por símbolos unificantes, em torno das tais coisas que se amam.

 

Não pode haver unidade da pátria, se a memória for um mero duelo entre as interpretações históricas delirantes do Professor Fernando Rosas e o conceito de saudade do Professor José Hermano Saraiva. Ninguém pode ser antifascista de pacotilha às segundas, quartas e sextas e salazarista, às terças, quintas e sábados, mesmo que vá à missa ao domingo de manhã, para, de tarde, se embebedar com insultos ao árbitro de futebol.

 

Não pode também haver Estado, se os elementos primordiais do mesmo, a Justiça, a Segurança e o Imposto, sofrerem os efeitos da telenovela da modernização, ao mesmo tempo que o jornal oficial do partido comunista cubano, nos trata como exemplo da corrupção.

 

Contudo, a presente degradação tem todas as pilhas necessárias para durar anos a fio, porque há uma legião de adiantados mentais e de intelectuários que darão o coiro pela manutenção das presentes regras do jogo, invocando boas razões formais para que se substituam os alvarengas, com o assentimento do Professor Freitas do Amaral

Ao contrário do que proclama o Dr. Ferro Rodrigues, o problema não está em lancetarmos o Dr. Portas e outros que se julgam superiores às instituições, considerando que estão isentos das leis que eles próprios podem emitir e que é lei tudo aquilo que eles dizem, através das indirectas fontes geralmente bem informadas. Só mudando o ambiente de podridão é que as moscas deixarão de nos infectar.

 

O despudor dos agentes políticos, que se consideram superiores às instituições que dizem servir, só atinge os actuais níveis de decadência dos pretensos Apolos, porque tanto não é possível um golpe de Estado, à maneira do 5 de Outubro, do 28 de Maio ou do 25 de Abril, como uma subversão comunista, com guerra fria, KGB e cunhalismo.

 

Os potenciais golpistas, dos militares revoltados aos comunistas activíssimos, apenas conspiram com anedotas porcas e “nicknames” nos comentários “on-line” dos semanários políticos, enfrentando a fúria defensiva dos jotas do Caldas, mobilizados para a salvaguarda do chefe.

 

A política “moderna” tem o sabor de todos os crepúsculos de regime, como nos anos do fim da monarquia, da I República e do Estado Novo, com longas telenovelas de dilações processuais e celestiais gestões da justiça.

 

O paradoxo vigente leva a que as maioritárias pessoas de direita que eu conheço, fartas de portas e portadas, já declarem estar dispostas a engolir o sapo vivo de um voto no PCP. Outras, de boa linhagem de esquerda, clamam pelo regresso de Cavaco Silva e há quem recorde a liderança moral do próprio Ramalho Eanes.

 

 

Pobre republiqueta deste portugalório, onde a esperança definha e os objectivos nacionais se esfumam. Logo, face à ausência de sinais mobilizadores, resta o tribalismo endogâmico, onde as palavras, perdendo sentido, se gastam pelo uso e se prostituem pelo abuso.

 

Por mim, prefiro a resistência de quem reconhece que não é por só haver doentes no mundo que a saúde deixa de ser um bem.

 

A corrupção não vem apenas de cima para baixo, mas, sobretudo, de baixo para cima. Ela nasce dos patos bravos, da federação dos pequenos e médios compradores do poder autárquico que encheram os partidos com “apparatchikini” sem qualidade, transformados em traficantes de influências.

 

Senhor Primeiro Ministro, volte a ser José Manuel e não se esqueça que quem com ferro mata com durão se quilha! Quem tem telhados de vidro, não pode deixar que agências de comunicação, subsidiadas pelos nossos impostos, apenas abram os dossiês do PS. Porque basta traduzir os arquivos recentemente abertos do KGB, listando os portugueses que por ele foram agenciados ou influenciados, para que as telenovelas da Moderna e da Cofac percam audiências.

 

Guterres disse demitir-se por temer o pântano, Cavaco refugiou-se no tabu, mas agora, nestas trocas e baldrocas, com muitos “ménages à trois”, a política desceu ao nível das jogadas à Pinto da Costa, das piadas à Dias da Cunha, ou das empolgantes tiradas de Vale e Azevedo, para que cresçam os cogumelos dos agenciadores de jogadores, onde a meditações espirituais de confundem com os programas de Herman José e os noticiários da TVI.

 

Entre uma esquerda troglodita e uma direita PSL-PP (ex-ml), sou capaz de reconhecer que a coligação está sólida, que o presidente tem pele dura e que o primeiro-ministro, com a paciência de um chinês, dura, dura, dura. Num país que está de tanga, e os políticos bem grossos, até podemos ser o cabaré da coxa, chamando aos opositores palermas, de extrema-direita ou de extrema-esquerda.

 

Quando o anormal passa a normal, prefiro dizer que não existo. Porque não era de extrema-esquerda em 1969 e em 1974, não interrompi as aulas do Professor Cavaco para proclamar teses de Karl Marx radical, nem desviei material de serviços públicos para decorar sedes de partidos políticos. Por isso, solicito a quem de direito a minha passagem para a um qualquer exílio anterior.