49 - Os historiadores da política.
Neste breve balanço, merecem referência os trabalhos de outras instituições universitárias, como os estudos sobre história das ideias políticas surgidos na Faculdade de Letras de Coimbra, no Instituto de História e Teoria das Ideias, e na Universidade Nova de Lisboa, no Centro de História da Cultura, por impulso do Professor José Sebastião da Silva Dias que, depois de, na segunda metade da década de quarenta, ter sido um combativo jornalista e polemista do humanismo cristão, próximo das renascidas posições da democracia-cristã de então - como se nota nas suas obras O Problema da Europa [1945], Humanismo Social [1949], e Responsabilidades Sociais [1952], e nas antologias de textos de Balmes e de Maetzu que publicou em 1945 e 1948, respectivamente - , encabeçou, a partir da Faculdade de Letras de Coimbra, um movimento de regresso ao estudo do pensamento político português.
Neste grupo, destacam-se os estudos de Luís Reis Torgal sobre José da Gama e Castro [1973] e os teóricos políticos da Restauração [1981]; José Esteves Pereira sobre Silvestre Pinheiro Ferreira [1974] e António Ribeiro dos Santos [1983]; José Eduardo Horta Correia sobre o congreganismo; Zília Osório de Castro, sobre Borges Carneiro [1976]; Fernando de Almeida Catroga, sobre o positivismo [1977]; Almeida Policarpo, sobre A Palavra [1977]; Amadeu Carvalho Homem sobre Teófilo Braga [1989]; bem como o trabalho do próprio José Sebastião Silva Dias e de Graça Silva Dias sobre os primórdios da Maçonaria em Portugal [1980].
Também na Universidade Nova de Lisboa, importa referir a acção de José Medeiros Ferreira, nomeadamente em O Comportamento Político dos Militares. Forças Armadas e Regimes Políticos em Portugal no Século XX [1992], bem como o grupo de historiadores encabeçado por A. H. Oliveira Marques, a quem se deve o levantamento das fontes da história da Primeira República e da Maçonaria, nomeadamente a História da Primeira República Portuguesa. As Estruturas de Base, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1978, bem como os esboços biográficos de Afonso Costa e Bernardino Machado, alargando-se assim as perspectivas desencadeadas, durante o salazarismo, pelo voluntarismo e pela militância de autores como Carlos Ferrão, David Ferreira e Jacinto Baptista.
Cabe a Joel Serrão, o coordenador do Dicionário de História de Portugal, a edição dos textos políticos de Fernando Pessoa, com dois blocos em 1978 (Sobre Portugal e Da República) e outro em 1980 (Ultimatum e Páginas de Sociologia Política), divulgando aquilo a que só certos pessoanos tinham acesso, tanto através do texto O Interregno, editado em 1928, como pela biografia de António Quadros. Este mesmo autor, aliás, promoverá uma nova antologia editada em 1986, em livro de bolso. Também os trabalhos de César Oliveira sobre a história do socialismo e do anarquismo em Portugal são fundamentais, merecendo destaque Os Anos Decisivos. Portugal 1962-1985. Um Testemunho [1993].
Com efeito, há toda uma historiografia antifascita nascida durante o salazarismo que produziu obras de excelente qualidade. Victor de Sá estuda a crise do liberalismo e as primeiras manifestações das ideias socialistas em Portugal [1969], enquanto Fernando Piteira Santos e José Manuel Tengarrinha procuram interpretações progressistas das origens revolucionárias do nosso demoliberalismo. Destacam-se também Miriam Halpern Pereira, principalmente quanto à história económica e social, e António José Saraiva, quanto à história da cultura. Vasco Pulido Valente estuda A Revolta do Grelo [1973] e edita em 1976 a sua dissertação doutoral sobre a Revolução de 1910 para, em 1993, emergir o magnífico esboço da revolução liberal de 1834-1836. Paralelamente, refiram-se os estudos de Fernando Medeiros [1978] e Manuel Villaverde Cabral [1979].
Entretanto, emerge uma espécie de literatura de justificação do ancien régime, tanto nalguns trabalhos de Marcello Caetano, principalmente em Minhas Memórias de Salazar [1977], como na monumental biografia de Salazar publicada por Franco Nogueira, a partir de 1977. Também Joaquim Veríssimo Serrão acende esta fogueira, principalmente em Marcello Caetano. Confidências no Exílio, Lisboa, Verbo, 1985. As tensões marcam a própria edição de várias histórias de Portugal, desde a aventura individual de Veríssimo Serrão, às respostas das obras colectivas de historiadores de esquerda, nomeadamente a dirigida pelo Professor José Mattoso [1].
Fora destas tenazes de guerra civil ideológica, merecem destaque os inventários de Manuel Braga da Cruz e Pinharanda Gomes, sobre o pensamento social-cristão, antes e durante o salazarismo.
Na Faculdade de Direito de Lisboa, a equipa de Ruy de Albuquerque, Martim de Albuquerque e José Artur Duarte Nogueira mantém viva a tradição dos historiadores do direito português. No tocante à história das doutrinas políticas, salienta-se Martim de Albuquerque, principalmente em O Poder Político no Renascimento Português [1968], A Consciência Nacional Portuguesa [1974], A Sombra de Maquiavel e a Ética Tradicional Portuguesa [1974] e Jean Bodin na Península Ibérica [1978]. Retoma-se assim a senda de Paulo Merêa, Luís Cabral de Moncada e Guilherme Braga da Cruz. Paulo Merêa, depois de um manifesto antipositivista Idealismo e Direito [1911], inventariou as ideias de origem popular do poder nos escritores portugueses anteriores à Restauração [1923], as teorias políticas do Infante D. Pedro [1923], as relações entre o poder real e as Cortes [1923] e o problema da origem do poder na escolástica peninsular, nomeadamente em Suárez [1917 e 1941]. Os trabalhos de Moncada no domínio da história das ideias políticas em Portugal são também fundamentais, nomedamente a análise da história das ideias liberais [1949], com particular destaque para o magistério de Vicente Ferrer Neto Paiva [1946], a análise da história da filosofia do direito em Portugal depois de 1772 [1937] e no século XX [1960], a que devem também ligar-se os grandes frescos que nos deixou sobre as influências do idealismo alemão em Portugal [1938], São Tomás de Aquino [1943] e Jean Bodin [1947].
[1] O Volume I, Antes de Portugal, e o II, A Monarquia Feudal (1096-1480), são dirigidos pelo próprio José Mattoso; o III, No Alvorecer da Modernidade (1480-1620), por Joaquim Romero; o IV, O Antigo Regime (1620-1807), por António Hespanha; o V, O Liberalismo (1807-1890), por Luís Reis Torgal e João Lourenço Roque; o V, Crise e Revolução (1890-1926), por Rui Ramos; o VI, O Estado Novo (1926-1974), por Fernando Rosas; e o VII, Portugal em Transe (1974-1985), por José Medeiros Ferreira.