Cinco
minutos de Filosofia do Direito
Veja-se,
a este respeito, a comovente crítica de Gustav
Radbruch, numa circular dirigida aos estudantes de Heidelberg, no
imediato pós-guerra, em 1945, intitulada Cinco
Minutos de Filosofia do Direito.
Aí, o
antigo ministro da justiça da república de Weimar, acusa, num primeiro minuto,
o positivismo, por este reconhecer que a
lei vale por ser lei, e é lei sempre que, como na generalidade dos casos, tiver
do seu lado a força para se fazer impor, ao mesmo tempo que deixa sem
defesa o povo e os juristas contra as leis mais arbitrárias, mais cruéis e
mais criminosas.
Num
segundo minuto, proclama: Não, não deve
dizer-se: tudo o que for útil ao povo é direito; mas, ao invés: só o que for
direito será útil ao povo.
Num
terceiro minuto, assinala que direito quer
dizer o mesmo que vontade de justiça, pelo que quando as leis conscientemente desmentem essa vontade e desejo de justiça,
como quando arbitrariamente concedem ou negam a certos homens os direitos
naturais da pessoa humana, então carecerão tais leis de qualquer validade, o
povo não lhes deverá obediência e os juristas deverão ser os primeiros a
recusar-lhe o carácter de jurídicas.
Num
quarto minuto, embora considerando que, ao lado da justiça, o direito deve
servir os valores do bem comum e da segurança, reconhece que pode
haver leis tais, com um tal grau de injustiça e de nocividade para o bem comum,
que toda a validade e até o grau de jurídicas não poderão jamais deixar de
lhes ser negados.
Finalmente,
num quinto minuto, salienta que há também
princípios fundamentais de direito que são mais fortes que todo e qualquer
preceito jurídico positivo, de tal modo que toda a lei que os contrarie não
poderá deixar de ser privada de validade. Há quem lhes chame direito natural e
quem lhes chame direito racional. Sem dúvida, tais princípios acham-se, no seu
pormenor, envoltos em grandes dúvidas. Contudo, o esforço dos séculos
conseguiu extrair deles esse núcleo seguro e fixo, que reuniu nas declarações
dos direitos do homem e do cidadão e fê-lo com um consentimento de tal modo
universal que, com relação a muitos deles, só um sistemático cepticismo
poderá ainda levantar quaisquer dúvidas.