Escritos inúteis
Preso na solidão de, todos os dias, ter que
recolher subjectivas reflexões para as quais não queria guardar segredo,
julguei não mais poder escrever para todos os outros, porque todos eles me
pediam utilidades e não viagens na minha terra, à procura de mim mesmo, pelos
passos perdidos da infância.
Clamavam por doutorais dissertações, frias
minudências, tabelas, gráficos, quantificadas análises e sorumbáticas
conclusões, metodologicamente científicas. E assim me fui dispersando em
manuais, monografias, lições. Mas fiquei farto de utilitarismo, deste
pensar-me por silogismo, arrazoando o prazer e a dor das conveniências sociais
e ousei continuar a vertigem de viver uma vida que ninguém mais sabe. Voltaram
as saudades da poesia por cumprir, estes escritos inúteis, onde, ensimesmado,
vou sendo mais do que eu, na verdade de quem sou. As palavras rompem da memória, como flores na
primavera, muitas palavras andorinhas fazendo ninho nos beirais do pensamento.