O
europeísmo do internacionalismo liberal
Depois
da Grande Guerra de 1914-1918, emerge o europeísmo do internacionalismo liberal, ainda
marcado pelas ilusões da belle époque dos anos vinte, destacando-se os movimentos
livre-cambistas visando uma união económica e aduaneira da Europa, os ensaios de
alianças políticas promovidos por Luigi Einaudi (1874-1961) , Édouard Herriot
(1872-1957) ou Aristide Briand (1862-1932), bem como o movimento pan-europeu de
Richard Coudenhove-Kalergi.
Em
1926, junto dos economistas e meios de negócios, surgiam movimentos livre-cambistas que
visavam criar um grande mercado europeu, para se permitir um desenvolvimento da produção
industrial e um abaixamento dos preços. Foi disso exemplo o movimento para uma União
Económica e Aduaneira Europeia, presidido pelo economista Charles Gide e depois,
continuado por Yves le Trocquer.
Aliás,
entre 1924 e 1929, viveu-se uma época de grande optimismo económico, surgindo grandes
cartéis internacionais, nomeadamente o da metalurgia e o da potassa. Logo em 1924 foi
estabelecido um acordo entre os produtores de aço franceses e alemães tendo como fim a
limitação da produção, formando-se um cartel internacional em 1926, renovado em 1933,
mas que nunca incluiu a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a URSS.
Outro
dos cartéis internacionais, com relativo êxito, foi os dos metais não ferrosos. O do
alumínio, que agrupou todos os produtores europeus, não só repartia mercados como até
procedia à fixação dos preços. Também os do cobre e do estanho foram abrangidos. No
domínio dos produtos químicos, importa salientar o da potassa, organizado em Dezembro de
1926, entre alemães, franceses e polacos. Do mesmo modo se procedeu quanto aos corantes e
ao azoto. E o modelo foi estendido, embora limitadamente, aos transportes marítimos e a
certas indústrias transformadoras, nomeadamente no domínio das lâmpadas eléctricas, do
cimento e do linóleo.
Todo
este movimento exercitou os processos de cooperação económica europeia, mas ficou quase
sempre limitado a certos sectores da economia onde, em termos nacionais, existia uma forte
concentração de empresas.
É
neste ambiente que Édouard Herriot, enquanto presidente do Conselho francês, declarou na
Assembleia Nacional de Paris, em discurso de 29 de Janeiro de 1925: mon plus grand
désir est de voir un jour apparaître les États Unis d'Europe. Era a primeira
vez que tal expressão era utilizada por um homem de Estado em exercício de
funções .
Também
o ministro francês Louis Loucheur, dois anos depois, propõe a criação de cartéis
europeus do carvão, do aço e dos cereais, organizados pelos Governos no interesse
geral e não apenas para a satisfação do egoísmo dos produtores .
Nos
anos vinte, destaca-se, contudo, a acção do movimento pan-europeu. Foi em 21 de
Julho de 1922 que o jovem Conde Richard Coudenhove-Kalergi, de cidadania austríaca antes
da Grande Guerra e, depois de 1919, checoslovaco, antes de, em 1939, se naturalizar
francês, nascido em Tóquio havia 27 anos, de pai austríaco, de origem holandesa e
grega, e de mãe japonesa, apresenta o apelo para a unidade europeia, intitulado A
Questão Europeia, publicado no Neue Freie Press de Viena.
No
ano seguinte, já publica a obra Paneuropa, onde defende a necessidade de
liderança da Europa no mundo, considerando que a mesma estava ameaçada tanto pelo
bolchevismo russo como pela dominação económica norte-americana. Neste sentido, propõe
a criação de uns Estados Unidos da Europa, sem a Rússia e sem a Grã-Bretanha.
A
forma de união europeia que propõe, procurando respeitar as soberanias nacionais,
assentava num Conselho composto por delegados dos Estados e numa Assembleia,
com delegados dos parlamentos nacionais, sendo influenciada pelo modelo de
pan-americanismo que, entretanto, fôra lançado pela Conferência de Santiago do Chile de
1922. A Paneuropa era perspectivada, aliás, como mera organização regional da
Sociedade das Nações, ao lado de outros blocos, como a América do Norte, a América do
Sul, a Commonwealth, a União Soviética e o Extremo-Oriente, devendo assentar na consolidação
das finanças e da indústria europeia, para se enfrentar a concorrência dos Estados
Unidos.
Consciente
da vaga nacionalista, Kalergi considerava tammbém que importava começar por converter a
classe política, dos governantes aos parlamentares, e os homens de negócios, não
acreditando na possibilidade de acção directa sobre as massas e a opinião pública em
geral. É a partir de então que promove a criação de uma União Pan-Europeia, com
sede em Viena e secções nacionais em todos os países europeus, inspirando-se em
Giuseppe Mazzini e Cavour, considerando que não são os povos que são atingidos pela
senilidade, é o respectivo sistema político. A transformação radical deste sistema
pode e deve levar à regeneração deste continente .
No
ano seguinte, com o secretariado-geral do movimento já instalado no antigo palácio
imperial de Viena, edita-se a revista Paneuropa, desencadeando-se a convocação de
um I Congresso Paneuropeu, que tem lugar na capital austríaca, entre 3 a 6 de
Outubro de 1926. O desfil de notáveis é impressionante: do austríaco Seipel ao o
checoslovaco Eduard Benès, do francês Joseph Caillaux ao alemão Paul Loebe, do italiano
Francesco Nitti ao grego Nicolau Politis, enquanto Aristide Briand se tornava o presidente
de honra da União Paneuropeia, que integrava nomes como Konrad Adenauer, Thomas
Mann, Guglielmo Ferrero, Édouard Herriot, Paul Valéry, Paul Claudel, Ortega y Gasset,
Miguel de Unamuno, Salvador Madariaga, Winston Churchill e George Bernard Shaw.
Daí
surge um manifesto onde se lê: A questão europeia é esta: é concebível que, sobre
a pequena quase-ilha europeia, vinte e cinco Estados vivam lado a lado em anarquia
internacional sem que tal estado de coisas conduza à mais terrível catástrofe
política, económica e cultural? O futuro da Europa depende da resposta que seja dada a
esta questão. Ele está, pois, entre as mãos dos europeus. Vivendo em Estados
democráticos, somos todos co-responsáveis pela política dos nossos governos. Não
temos, pois, o direito de nos limitar à crítica; temos o dever de contribuir para a
realização do nosso destino político .