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A REVOLTA QUE VEM DO LESTE

Artigo publicado em 7 de Dezembro de 1989

Em cada semana que passa, as novas que vêm do Leste ultrapassam em muito a nossa imaginação da semana anterior. A vaga de fundo atingiu agora a Checoslováquia, com multidões na Praça de S. Venceslau vingando a memória de Jan Pallach, o jovem que, há vinte anos, se imolou pelo fogo, como protesto contra os tanques invasores do Pacto de Varsóvia.

Foi há vinte anos, quando Álvaro Cunhal apoiava a aplicação a Praga da teoria da soberania limitada de Brejnev e quando Vital Moreira se destacava como jovem líder intelectual dos comunistas portugueses. Foi há vinte anos que José Valle de Figueiredo escreveu a Ode a Jan Pallach e que se transformou no hino de protesto de todos os se opunham, na Universidade, à mesma esquerda comunista.

Vinte anos depois, Cunhal ainda é líder do PCP. Mantém a mesma coerência ideológica e não cede aos ventos da história da perestroika. Vinte anos depois, os que criticam Cunhal, em nome das vitoriosas mudanças ocorridas a Leste, são exactamente os mesmos que o não criticaram, pela mesma época, quando sopravam, no mesmo Leste, idênticos ventos de mudança.

Cunhal está mal com Moscovo, por amor ao sovietismo. Os críticos pêcêpistas de Cunhal parecem preferir os novos sinais vindos Moscovo ao próprio Cunhal e, em nome de um ideal ainda socialista, procuram dar dois passos em frente, para que possam saudar-se os novos amanhãs que cantam.

Aqueles que foram o braço pensante do gonçalvismo, principalmente na Constituinte, transformaram-se, agora, nos heróis daquela imprensa burguesa que pretenderam liquidar. Primeiro, foi a zitomania, agora é o chamado grupo de Coimbra, com Vital Moreira e Gomes Canotilho, que, sem renunciarem ainda ao marxismo-leninismo, se transformaram, paradoxalmente, nos símbolos das libertações que vêm do Leste.

Como se antes de Gorbatchov, não tivesse surgido o Cardeal Woytila. Como se Lech Walesa tivesse sido doutrinado pelos discursos althusserianos de Vital Moreira na Assembleia Constituinte. Como se Jan Pallach tivesse morrido pela próxima alteração no Comité Central do Partido Comunista Português.

Entretanto, a nossa bem pensante linha de Cascais , que, ao que parece, estava quase toda no Brasil, quando, de Aveiro a Braga, os nossos Bispos convocaram as manifestações da coragem que desencadearam a queda de Gonçalves, continua inebriada por todo este folclore de arrependimento comunista, depois do facto consumado.

Mais do que isso: transformou o debate entre a esquerda e a direita numa espécie de jogos florais entre antigos comunistas e permanecentes comunistas, ainda que críticos. Simples guerras entre gentes da mesma formação mental que, ora são o sustentáculo intelectual do cavaquismo, ora os criadores das mais espectaculares metáforas anti-cavaquistas.

Olhando como basbaques para o que se passa a Leste, não reparam que o Portugal de 1974-1975 constituiu o principal ponto de viragem do brejnevismo. Onde ficou demonstrado que mesmo um comunismo revolucionário, apoiado por Forças Armadas, não consegue consolidar-se no poder sem o apoio de um Exército Vermelho, vindo de um país vizinho.

Que um qualquer governo comunista, ou dominado pelos comunistas, quando não pode invocar o apoio dos tanques, fica à mercê de movimentos espontâneos de massas populares.

Foi isso que o nosso povo, os nossos bispos e os nossos líderes democráticos, como Sá Carneiro e Mário Soares, ensinaram aos actuais libertadores do Leste. Foi contra isso que lutaram Álvaro Cunhal, Zita Seabra e Vital Moreira.

Este marxismo ocidental, que aprendeu as delícias da liberdade burguesa, foi o principal cúmplice da repressão que martirizou o Leste. Não foram eles que defenderam a Igreja do Silêncio ou que se solidarizaram com Jan Pallach. Não foi graças a eles que a resistência anticomunista venceu a opressão.

Eles saudaram os que vieram das estepes. Silenciaram os gulags. Ridicularizaram os que resistiram à ocupação. Esqueceram os que quiseram morrer pela Pátria.

Porque o que efectivamente movimenta as vagas de fundo que vêm do Leste é um libertacionismo primariamente anticomunista, mais espontaneísta do que ideológico, mais popular do que intelectual. O resto são falsas consciências, alguns remorsos e muitas autojustificações.

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Copyright © 1998 por José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados.
Página revista em: 02-01-1999.