ALGUMAS NOTAS LUSITANAS SOBRE A COMUNIDADE A HAVER
A obsidiante frase de Pessoa, segundo a qual Minha pátria é a língua portuguesa
tem servido de mote para as mais variadas glosas sobre a necessidade de
consolidação de uma comunidade luso-falante, depois de encerrada a última fase
do ciclo imperial português, aquela que nasceu da geração de António Enes,
Mouzinho de Albuquerque e Luciano Cordeiro, depois da Conferência de Berlim.
Na verdade, ao contrário do que aconteceu com o Estado espanhol, que nos finais
do século XIX foi obrigado, por causa dos interesses norte-americanos, a
abandonar Cuba e as Filipinas, apenas tentando, um pouco à maneira dos
objectivos do nosso D. Sebastião, uma forte permanência colonial em Marrocos,
nós, portugueses, marchámos para África no século vinte, através de um movimento
de reconstrução imperial e até talvez tenhamos construído o essencial da nossa
presença nesse continente durante as décadas de sessenta e setenta deste século.
Aliás, a chamada guerra colonial, ou das campanhas de África, constituiu um
simples subcapítulo da guerra da Africa Austral, dentro do mais vasto capítulo
da guerra fria. O que bem se demonstra pela circunstância de tal guerra não ter
acabado com o abandono de 1974-1975, tendo-se, inclusive, agravado em Angola e
em Moçambique, já sem a participação portuguesa.
Acontece apenas que a dita guerra colonial foi acompanhada, na rectaguarda
metropolitana portuguesa, por uma profunda guerra civil ideológica, onde os
portugueses se dividiram sobre as próprias concepções de nação, divergindo
quanto ao conceito de objectivos nacionais permanentes, com inevitáveis reflexos
na própria crise da nossa identidade, sobretudo no tocante às contraditórias
formas de pensar Portugal através da história.
À maneira de Santo Agostinho, podemos dizer que em 1974-1975 não foi o mundo
português que acabou, mas sim um novo mundo português que começou, continuando o
essencial das esperanças de Portugal. Porque, como diz Arnold Toynbee, numa
civilização em crescimento, a um desafio opõe-se uma réplica vitoriosa que vai
imediatamente gerar um outro desafio diferente a encontro do qual se ergue uma
outra réplica vitoriosa.
Foi, segundo as palavras de Agostinho da Silva, Portugal a morrer como metrópole
e a renascer como comunidade livre, já que dominar os outros é a pior forma de
prisão que ter se pode.
Porque, Portugal, ao contrário do que tantos dizem, não diminuiu, antes se
multiplicou, dado que libertando os que mantinha sob o seu domínio,
reconhecendo-lhes independência para a vida, renasce em Pátrias.
Porque o que Portugal foi tem servido para que Portugal não seja, dado que a
ilusão portuguesa de império terrestre teria sido envolvida pela sorte do
capitalismo industrial.
Porque Portugal, impelido ainda pelo seu afã de mar e sentindo no mar a
verdadeira garantia de independência chega, porém, a Africa, parasitado pela
economia europeia e, já, euro-americana e o parasita se desenvolve no corpo são,
ou quase, de outrora e lhe trás as dificuldades actuais.
Isto é, a descolonização, ou o abandono, de 1974-1975, em vez de significar o
fim de Portugal, talvez tenha sido apenas o fim de certo princípio, obrigando a
uma reinterpretação d'Os Lusíadas pela Mensagem, dado que Portugal, o poder ser
passou a estruturar-se através do mar sem fim e a caminho da república
universal.
Nós, Portugal, somos a Europa do Sudoeste e só podemos ser verdadeiramente
europeus se assumirmos a maneira portuguesa de entender a Europa. Dessa Europa
que desbravou o mar oceano para Ocidente e para Sul. Que descobriu a América e o
Brasil, que transformou as Tormentas em Boa Esperança e que peregrinou o caminho
marítimo para a Índia, a China e o Japão. A Europa que circumnavegou a terra
inteira num abraço armilar.
Como dizia Fernando Pessoa, foi por Portugal, pelos Descobrimentos que se deu a
conversão da civilização europeia em civilização mundial.
Em suma, acreditamos que valeu a pena o nosso investimento luso-tropical de
cinco séculos e que a Europa necessita desta visão portuguesa do universo.
Voltando a Agostinho da Silva, temos que importa conquistar uma realidade mais
alta, aquela que nos permite efectivamente fazer do mar, o mar sem fim, aquela
que se comporia do que melhor tiveram Ocidente e Oriente, uniria Cristo e
Lao-Tseu e nos daria, num eterno sendo e vir a ser, aquele Espírito Santo que á
a fusão perfeita do Todo e do seu Nada.
Acontece apenas que a questão da Comunidade dos povos de língua portuguesa está
totalmente dependente do modo como os PALOP se desenvolverem no processo da
construção da nação em África. E, como já em 1989, salientava o guineense Carlos
Lopes, a dinâmica inicial dos PALOP não foi a da construção de uma sociedade,
mas de construir a partir da rejeição de algo existente, a construção de uma
contra-sociedade.
Com efeito, em Africa, como reconhece Samir Amin, os movimentos de libertação
nacional precederam as próprias nações.
É que o chamado direito à autodeterminação, segundo a linguagem onusiana, foi um
simples pretexto justificador do direito à revolução, tendo servido para atear
os ventos da história que levaram ao fim do colonialismo europeu contemporâneo,
fazendo, no entanto, renascer formas mais agressivamente exploradoras de
neo-colonialismo de que beneficiaram algumas ex-potências coloniais da Europa e,
sobretudo, os efectivos vencedores da Segunda Guerra Mundial, os USA e a URSSS.
Numa primeira fase, com efeito, esses novos Estados foram meros aparelhos de
poder sem comunidade política, onde o nacionalismo ideológico antecedeu a
própria nação.
O que não é de estranhar pois o mesmo sucedeu com as independências
sul-americanas. O brasileiro Alberto Torres já reconhecia que os países novos
carecem de constituir artificialmente a nacionalidade. O nacionalismo, se não é
uma aspiração, nem um programa para os povos formados; se, de fato, exprime, em
alguns, uma exacerbação mórbida do patriotismo, é de necessidade elementar para
um povo jovem, que jamais chegará à idade dinâmica sem fazer-se 'nação'., isto
é, sem formar a base estática, o arcabouço anatômico, o corpo estrutural da
sociedade política.
Talvez só agora, depois das alterações políticas ocorrridas em Cabo Verde, Guiné
e São Tomé, da paz em Angola e em Moçambique, surjam condições para consolidação
de comunidades culturais e de sociedades políticamente organizadas, segundo um
substancial conceito de autodeterminação.
Acresce que cada um destes PALOP teve que voltar-se sobre si mesmo ou que
abrir-se a espaços conflituais com o desenvolvimento da comunidade da lusofonia.
Além disso, as duas principais potências africanas dos PALOP estiveram
submetidas a violentas guerras civis exteriormente fomentadas.
Neste contexto, é evidente que a anglofonia e a francofonia se comportam no
espaço africano de forma agressivamente concorrencial. Assim foi depois do
fracasso do panafricanismo e do socialismo africano, assim tende a ser ainda
mais depois da retirada soviética, face à res nullius provocada.
Tanto a francofonia como a anglofonia tendem, com efeito, a ocupar os vazios de
poder cultural; mais do que isso: actuam como colonizadoras culturais daquilo
que foi a própria rectaguarda metropolitana.
Importa, contudo, assinalar que essa agressividade vem mais das sociedades civis
que dos governments.Vem mais dos poderes económicos e sociais do que dos
gestores do Estado, pelo que impõe uma resposta nos mesmos campos
concorrenciais.
Finalmente, outros dos potenciais factores de dissociação nesse processo de
consolidação da comunidade dos povos de língua portuguesa, está na circunstância
da grande potência que é o Brasil, e que constitui a maioria absoluta do
elemento humano da futura comunidade, continuar a viver uma grave crise política
e económica que a condena a um introspectivo isolacionismo.
Mais do que a questão dos portugueses se poderem esquecer do Brasil, importa não
deixar que o Brasil se esqueça de nós, como assinalava Adriano Moreira, porque o
grande sonho do Atlântico Sul, em que as soberanias de raiz cultural portuguesa
devem ter uma palavra importante a dizer para bem da paz geral,
independentemente da etnia dominante, ou do regime político que considerem mais
conveniente, não deve ser abandonado, porque se trata de um espaço vital que não
admitirá o vazio do poder.
Somos dos que entendem o brasileiro como o português à solta, para utilizarmos
as palavras de Manuel Bandeira. Sufragamos a ideia de Joaquim Barradas de
Carvalho, para que o Brasil representa mais Portugal do que talvez certas formas
culturais de Portugal de hoje, demasiado presas a influências europeias e
principalmente francesas, e quase subscrevemos a tese de Agostinho da Silva que
refere que em 1 de Dezembro de 1640, o que verdadeiramente se separou de Espanha
não foi Portugal, foi o Brasil e que Portugal nessa data foi feito independente
pelo Brasil e continuou independente porque só na Europa se podia, através da
Corte de Lisboa, fazer a política do Brasil. Neste sentido, a própria mudança da
capital para o Rio de Janeiro, face às invasões napoleónicas, significou que a
monarquia mudou-se de sua província europeia para a sua metrópole
transatlântica.
Compreende-se também porque é que muitos dos melhores intelectuais portugueses
dos séculos XVIII e XIX são brasileiros de nascença e de mentalidade solta, de
Alexandre de Gusmão a Matias Aires, de José da Silva Lisboa a José Bonifácio
Andrade e Silva.
Como proclamava António Ferro, mesmo que façamos tudo para nos desentendermos,
para nos afastarmos, as nossas almas hão-de encontrar-se às escondidas, porque
são partes do mesmo todo. Preferível, portanto, que juntemos, duma vez para
sempre, essas duas saudades e que proclamemos dentro de nós - soberania que não
ameaça as fronteiras de ninguém ! - os Estados Unidos da Saudade de Brasil e
Portugal
Diremos, a finalizar, que a cultura numa sociedade aberta é sempre uma
actividade de radicais homens livres. Não é o produto de intenções
pré-definidas, mas o resultado das acções dos homens; é aquilo que é comum à
liberdade de cada individuo.
A cultura, com efeito, diz-nos que não é a história , através do processo
histórico, que faz o homem, mas sim o homem que faz a história. Neste sentido, é
mais obra da espontaneidade do acaso que o resultado de uma planeada
necessidade. De um acaso resultante da liberdade de criação, donde, apenas por
conclusão, surge a necessidade. Na verdade, a cultura, mais do que o plano de um
edificio a construir é o sonho daquele que o vai construindo .
Assim, importa questionar se o Estado, enquanto aparelho de poder, pode alguma
vez assumir-se como o garante da consciência nacional. Dentro de cada nação, a
consciência nacional é tão só uma espécie de barómetro. É o resultado de um
complexo paralelograma de forças. Resulta da efectiva dialectica concorrencial
entre os fenómenos de nacionalização e os de desnacionalização. É o produto da
eterna luta entre os estrangeirados e os nacionalistas e acaba por ser uma
mistura entre a radicularidade quase capilar das origens e os fenómenos
importados dos distantes sóis ou dos imprevistos ventos das circunstâncias
ambientais.
Porque em todas civilizações dinâmicas a cultura é sempre o resultado do poder
dos sem poder. Como dizia Pessoa, ela consta de três factores da homogeneidade
do carácter nacional; da coordenação das forças sociais e da socialização das
forças individuais.
O poder cultural nacional, sobretudo no caso de um pequeno Estado-nação,
mede-se, pois, menos pela resistência autárcica do que pela integração no
universal; pela capacidade que tem uma dada cultura nacional de assumir-se como
comunidade de destino no universal.
Pela capacidade que tem cada nação de ultrapassar os estádios do paroquialismo e
do patriotismo chico da pequenina pátria, para, sem os renegar, ser um meio de
criar ou de comparticipar na criação de uma civilização universal. Como dizia o
mesmo Pessoa a Nação é a escola presente para a super-nação futura.

Copyright © 1998 por José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados.
Página revista em: 25-05-2003.