Almerindo
Lessa: ou o cumprir, cumprindo o abraço armilar
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Inicia o CEPP uma faceta das suas actividades com uma
sessão de estudo sobre o saudoso Almerindo Lessa. Alguns poderão achar
estranho o porquê de ligar o nome deste mestre a um ciclo de sessões
que, dentro de semanas, continuará, com a invocação de Agostinho da Silva.
Apenas direi que não vale a pena procurarmos porquês racionalizados pela lógica
do custo-benefício face a este processo. A resposta talvez seja dada no fim
destes dois dias de trabalho.
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A intenção do promotor da iniciativa tem a
simplicidade de todas as apostas na complexidade crescente. Usando algo
de certo esotérico almerindiano, direi que se chama esperança na
certeza de uma emergência que revolva convergências e divergências,
para que nova ordem espontânea nos faça crescer
para cima e crescer para dentro, para que tudo possa continuar com a
liberdade de outras convergências e outras divergências.
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Não fui aluno de Almerindo Lessa. Nem sequer tive a
honra de ser um dos seus íntimos. Também não me ligaram a ele, em termos
quantitativos, longas páginas daquelas agendas onde alguns têm a ilusão
proteica de medir o tempo, nesta era da quantidade. Também nunca nada lhe pedi,
nem ele nada me deu, em termos de contabilidade de favores e serviços feudais.
Dele apenas tive o muito da intensividade e do qualitativo. Sobretudo, a intuição
da essência, de ambos fazermos parte daquela corrente que nasce da mesma ciência
de princípios e da mesma communitas amoris que tenta cumprir os mesmo
sonhos.
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Se calhar aproximámo-nos por causa de Oliveira
Martins. Por causa de Leonardo Coimbra. Por causa de Teilhard de Chardin. Por
causa de Adriano Moreira. Por causa do ISCSP. De certeza que por causa de
Portugal. E desse sonho de Portugal que é o de cumprir Portugal, cumprindo.
E desse sonho maior da unidade do género humano, daquilo que o mestre
qualificou como abraço armilar, expressão que intercedi junto do
Professor Carvalho Rodrigues para ser levada no primeiro satélite português, e
que felizmente lançou esta semente nesse quase supraceleste da estratosfera.
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Não estranhem, pois, que, neste ciclo politológico
comece por invocar um médico. Como médicos foram Aristóteles ou John Locke.
Desses verdadeiros médicos, tão especialistas na análise que nunca
acreditaram na pretensa ciência dos excelsos especialistas em cascas de árvore,
desses que sabendo tudo das ínfimas parcelas, recusam a sentir o todo da
floresta.
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Almerindo Lessa, discípulo de positivistas, quase
naturalistas da matéria, sempre andou à procura da metafísica, porque, ao
bisturizar nas entranhas do pormenor o corpo do homem, chegou à conclusão que
não havia conclusão, que só sabia que nada sabia e que, portanto, importava
procurar o mais além.
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Porque no fundo mais profundo do corpo do homem, não
deixa de existir o mais profundo dos mistérios da condição humana, o acaso
e a necessidade do gene, do DNA. Por dentro das nossas coisas mais coisas até
há o mistério do cosmos, o sistema geral feito para procurarmos sem respostas,
mas fazendo ainda mais perguntas. A matéria encerra a abertura à liberdade do
espírito.
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Eis o porquê de Almerindo aqui e agora neste sítio
de ciência política. Porque o homem não é apenas a soma dos rácios com a
vontade. É também imaginação, simbólico, poesia mais verdadeira do que a
história, história que vamos escrevendo sem saber que história vamos
efectivamente escrevendo, onde as acções superam sempre as intenções. Porque
por dentro das coisas é que as coisas são, esse um pouco de mais além que nos
dá asa. Onde o eu nas circunstâncias pode mudar o determinismo das circunstâncias.
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Porque Almerindo ficou felizmente por cumprir, em
nome desse sonho, queremos dizer Presente. Há os que da lei da morte se
libertam. Porque, ousar olhar a morte de frente, isto é vivendo, tratam de
ousar o impossível, mas acabam por semear eternidade nos outros que os vão
vivendo.
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Ei-lo, portuense de raiz, desse Porto donde houve
nome Portugal. Ei-lo descendo para o cais de Lisboam praia de todas as partidas,
para andar sempre a partir, vaga-mundo, das Franças e Brasílias, dos matos da
América, às ruelas de Macau, da encruzilhada de Cabo Verde a sítios sem
lugar. Ei-lo, portuguesmente estrangeirado, sempre a nacionalizar as tendências
importadas e a revivificar do passado mortos que nunca morrem, misturando
cientificismo com o ardor da beleza, o estampido do extâse com a serenidade da
palavra. Ei-lo, ensinando-nos muito epistemologicamente que não vale a pena
descobrir o que já está descoberto nem inventar o que já está inventado.
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Ei-lo profundamente político, profundamente repúblico,
a desprezar os maquiavéizinhos do essencial do poder ser procurar manter-se.
Entre monárquicos era republicano, entre
republicanos, monárquico, quando havia monárquicos e republicanos, antes dos
republicanos se tornarem monárquicos de conveniências, antes dos monárquicos
terem de ser republicanos. Ei-lo, conservador para revolucionários e revolucionário
para conservadores. Porque não conseguia separar a honra da inteligência e o
pragmatismo da aventura. Por iso preferiu ensinar filosofia a médicos, poesia a
contabilistas e medicina a burocratas. Sempre
sem o pretenso desleixo dos que pensam ser génios, oussou o perfeccionismo dos
que consideram que a inspiração é feita de muita expiração. Porque o ora
sem labora é tão impotente quanto o labora sem ora.
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Por esta escola semeou a heterodoxia a que ousamos
continuar fiéis. E noutras escolas semeou o sonho de escola que outros hão-de
continuar a tentar. Esse sonho de universidade como universitas
scientiarum, onde o saber pelo saber tem de integrar e mobilizar o saber
fazer, sem pôr o superior ao serviço do inferior.
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Perdoem-me um pequeno testemunho, de um simples e
complexo episódio, um meorialismo sem literatura de justificação. Era
nos idos do ano 1987, pouco antes da maioria absoluta de Cavaco Silva,
ainda na era Delors dos bons alunos. Na política portuguesa havia então
a ilusão de um partido meio heterodoxo, dirigido por um heterodoxo aqui
presente, ao que parece discípulo de Bartolomeu Dias, onde as tormentas eram
boa esperança. Um partido antipartido que a opinião publicada, sob o rigoroso
controlo de uma central que apenas pretendia uma direita conveniente à esquerda
e que taxava como ortodoxo uma entidade que tinha a coragem de esquerda de então
se dizer de direita. Na altura havia fortes hipóteses desse grupo alinhar num
governo de coligação, o que até era verdade, diga-se, mas essa minha gente
de cépticos entusiastasi pareceia efectivamente mais entusiasmada em
discutir a mais prática das teorias, a de procurar saber se Portugal valia a
pena.
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Encarregado de dar corpo ao projecto ficou então
este que vos fala, então muito jovem e hoje ainda com a mesma idade da ilusão.
E lá se deu corpo a um colóquio com a pessoana invocação do cumprir
Portugal. E por lá passaram, poucos dias antes de uma desastrosa campanha
eleitoral, figuras tão partidárias como António Quadros, Luís Forjaz
Trigueiros, Lima de Freitas, João Maia, Agostinho da Silva e Almerindo Lessa,
para só falarmos nos que já deixaram esta vida. Pois fiquem sabendo que, na
imprensa, nem uma linha, quase.
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Enquanto outros do mesmo partido se
ministerializavam, deputavam ou presidencializavam, este grupo de sensatos lunáticos
tratava de procurar descobrir como podíamos cumprir o sonho de Portugal. Claro
está que esse esboço de partido desapareceu no fragor de um derrota eleitoral.
Apesar dos que se queriam ministerializar terem sido ministros. Dos que se
queriam deputar terem sido deputados. Dos que se queriam presidencializar
chegarem a candidatos a presidente. Evidentemente, que por outro partido, mesmo
que no mesmo, aliás. Claro está que tudo isto foi antes da queda do muro
e de muitos outros muros. Os que queriam viver como pensavam sem pensarem como
iriam viver, ficaram mesmo a só com a profissão de pensar. E quase todos
deixaram a ilusão da política partidária. Mesmo alguns acabaram como acabam
todos os que ficam de mal com el rei por amor dos homens e de mal com
os homens por amor de el rei.
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Tudo isto para recordar o que nesse colóquio
professou Almerindo Lessa, misturando o lume da razão com o lume da
profecia. Disse, por exemplo, que era urgente estudarmos sempre a ecologia
do homem português. O que, aliás,
importa recordar nestes tempos de interregno em que muitos patriotorrecamente
tanto falam em Portugal esquecendo que tal entidade só pode existir se viverem
portugueses. Que tal essência nacional só tem realidade quando se radica na
existência de homens concretos, de carne, de sangue e de sonho. E Almerindo
mais disse: que temos predisposição para sobrepôr o espírito à matéria;
que temos tendência para a sobreposição da ideia de Deus à ideia do Ouro.
E que para cumprirmos este objectivos revolucionários, até somos conservadores
da tolerância, sobretudo no domínio racial, onde, por acaso, na Ilha dos
Amores, ao regressarmos da Índia, até criámos um novo tipo de homem. E
mais proclamaou: que os homens até são animais filosofantes. E que só poderão
filosofantear quando desenvolverem a investigação científica e adquirirem
para tanto as tecnologias necessárias. O que passa por descobrir o que já
está descoberto e inventar o que já está inventado. Mas onde a técnica
tenha sempre uma cobertura ética. E mais profetizou: que uma nação que perca
os seus mitos e lendas vai morrer de frio, concluindo que cumpre-se
Portugal cumprindo.
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Cumprir Portugal, cumprindo,
eis o lema do tal abraço armilar. Onde cumprir cumprindo também
é ascendermos à unidade do género humano, título de outro colóquio,
nesta escola realizado em 1965, onde Almerindo nos trouxe o crescer para cima
e crescer para dentro desse outro mestre da heterodoxia chamado Teilhard de
Chardin.
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Eis o imperativo que me levou a convidar-vos.
Daquelas razões do coração que certa raison não conhece. Quando a razão
também é coração. Emoção, imaginação, amor.
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E mais não digo. Que fique o que fica por dizer.
Almerindo está aqui. Está aqui, ausente, presente, nesta comunidade de família
e amigos, de mestres e discípulos. Mas nunca de seita. Sempre de homens
livres. Para que continuemos a procurar. A morrer tentando. Para que
da lei da morte nos possamos libertar. Semeando no poder-ser o dever-ser
do que há-de ser que que não é Que esperançaa é espera e esfera.
Muito armilarmente. Porque ela nos foi dada por quem
tinha como lema pola ley e pola grey e mudou as tormentas
em boa esperança e assim fomos além da Tarpobana.