BUSH, IRAQUE E GNR
Porque o "Euronotícias" quis morrer, que viva o "Tempo"! Onde prometo continuar a tentar ler estes "sinais" do dito, ao sabor do acaso e da necessidade que vão passando. Quero, sobretudo, alertar para a maneira cobarde como, em certos sectores da opinião publicada, se está a encarar a participação dos nossos soldados da GNR no teatro de operações no Iraque. E julgo ter alguma legitimidade para esta atitude, porque critiquei, no tempo certo, o esquema "rambo" usado pelos norte-americanos, bem como o seguidismo do governo português face às directivas do nosso grande aliado. Por isso, quero aqui reclamar toda a solidariedade nacional para com os representantes da República portuguesas presentes no teatro do conflito.
Porque "my country, right or wrong". Porque nunca andei a clamar "nem mais um só soldado para as colónias". Porque sou capaz de subscrever alguns dos grandes princípios assumidos, finalmente, pelo presidente norte-americano, na sua recente homenagem aos fundamentos europeus dos princípios universais da democracia liberal, no passado dia 20 de Novembro.
A escola que escreve os discursos do Presidente George W. Bush e que, entre nós, apesar de algum colorido vocabular dos receptores, continua a ser a perspectiva dominante da pretensa cientificidade da política internacional, ainda faz, infelizmente, uma radical separação entre a moral individual e a moral dos Estados, salientando que esta é marcada pelo egoísmo, pelo interesse nacional e pela força.
Toda esta geração realista acaba por negar o próprio nome com que procurou qualificar-se, porque, dos factos, acabaram por extrair valores. Com efeito, ao tentarem uma política desligada da ética, acabaram por criar uma ética com fundamentos não éticos, formulando leis e máximas, a partir de factos, apesar de, paradoxalmente, considerarem que, dos princípios transcendentes, não poderiam extrair-se conclusões práticas.
Ora, como reconhecia expressamente Raymond Aron, "considerar o poder como o objectivo único ou supremo dos indivíduos, dos partidos ou do Estado, não é uma teoria no sentido científico da palavra, mas uma filosofia ou uma ideologia".
E não é por "acaso" que os cristãos-novos do nosso ocidentalismo, os que, há meses, se assumiram como os mais radicais defensores de um pretensa "Nova Europa", segundo as teses de Rumsfeld, são precisamente os mesmos que, agora, se conformam com as ordens do directório da "Velha Europa", marcada pelo ritmo da locomotiva franco-alemã, para, logo a seguir, terem que engolir o sapo vivo dos recentes conselhos do ministro das finanças parisiense a Manuela Ferreira Leite.
A falta de realismo destes pretensos realistas, que não são marcados pela "necessidade" das convicções, demonstra como o maquiavelismo sempre foi mau conselheiro. Aqueles que parecem ter razão no curto prazo, só porque seguem as modas que passam de moda, logo a perdem no médio prazo, mesmo quando passam da visão "transatlântica" para o "continentalismo".
Considero de mau gosto que se perspective a nossa participação na guerra do Iraque como um dos factores condicionantes da sobrevivência governamental, comparando-a com o caso da pedofilia, como se os expedicionários da GNR fossem meros mercenários e não soldados voluntários, ao serviço da República, através de uma instituição que tem como divisa o "Pela Lei e pela Grei".
Esses pretensos realistas, que tão má propaganda governamental têm feito, não reparam, sequer, que, em nome da política de "imagem, sondagem e sacanagem", eles são os principais responsáveis por este ambiente suicida, expresso pelas recentes sondagens, favoráveis ao regresso imediato de tal força. Apesar de ser um oposicionista inequívoco ao actual governo e de sempre ter considerada errada tal decisão de política externa, porque sei que não há democracia sem soldados, estou com aqueles que, nas areias de Nassíria, são, hoje, um dos necessários símbolos da nossa comunidade nacional.
Contra a ordem do terror, ainda continua por cumprir a urgente ordem da justiça, superadora da mera vingança privada da paz dos vencedores, essa nova versão de certa paz dos cemitérios, entendida como mero equilíbrio mecânico da restrita balança de forças, com que alguns qualificam a balance of power dos checks and balance.
Contra a tese dos homens-lobos-dos-homens, onde o animalesco dos selvagens não pode ser apenas corrigido pelos selvagens com boas intenções, apenas resta o caminho e a verdade dos homens de boa vontade, com sede de justiça, essa eterna mãe da política e do direito, capaz de juridificar e institucionalizar o poder, ou de moralizar e civilizar a política.