CARTA ENTREABERTA A UM EUROPEÍSTA DESENCANTADO

 

Meu caro colega

 

Tenho seguido atentamente as manifestações da tua postura de homem livre, face às actuais circunstâncias dos pouco calmos negócios europeus, e enfileirando-me nos que pretendem resistir, com entusiasmo pouco céptico, em torno da liberdade nacional portuguesa, continuo a temer que nos amedrontemos com as chantagens externas, e internas, dos que, sentindo-se mera periferia que pede esmola, não querem autodeterminar-se com plena cidadania europeia.

Gostaria que, com toda a serenidade, a República Portuguesa, uma das Nações-Estados mais permanecentes do velho continente, pudesse ter a liberdade de dizer sim à autêntica liberdade europeia, mesmo dizendo não a anteprojectos de gabinetes eurocráticos. Gostaria de uma Europa mais livre que, abandonando a tentação dos Estados Directores, fosse capaz de proclamar que a unidade não exclui a diversidade e, muito menos, o orgulho das seculares franquias nacionais.

Julgo também comungar os valores fundamentais da democracia, segundo os quais, o que a todos diz respeito, por todos deve ser decidido. Porque, na democracia, não há reis-sóis, individuais ou gabinetais que possam dizer O Estado sou eu. Na democracia, O Estado somos nós todos.

Logo, tenho de concluir que Europa somos nós, os homens comuns dos povos livres. Não são apenas eles, os eurocratas, os ministrocratas, os parlamentocratas, e todos os cratas que temem as vozes irreverentes dos que não são moldáveis pelos unidimensionais partidos sistémicos, cada vez mais neo-corporativamente enquistados no tal estado a que chegámos .

Neste sentido, julgo também coincidir contigo quando noto que só com um golpe artificial de centralismo e de capitulação nacional se pode concretizar, entre os europeus, uma qualquer pretensa normalização de conceitos político-jurídicos. Porque talvez seja mais fácil unir os europeus, convidando-os todos a olhar na mesma direcção e a construir o futuro com palavras de autenticidade, sem necessidade de revisionismos históricos e de linguagens trapaceiras que tratam de ocultar a ameaça de um Euro-Estado burocrático centralizado, dotado de um nacionalismo sem nação e de uma pretensa democracia que, em vez de ser uma democracia de muitas democracias, se pode tornar numa espécie de ditadura democrática, com o seu absolutismo.

Quero crer que também não aceitas o fatalismo dos euroconformistas que vêem na tal Constituição da Unicidade uma espécie de advento de Deus à terra, num devir tão indiscutível quanto a divina providência e que, portanto, nos divide entre os bons e os maus europeus. Onde os bons são todos os que aceitam sem discussão a mística do conceito criador, enquanto a legião dos maus é constituída por todos aqueles que, mesmo sendo europeístas, não subscrevem os argumentos oficiosos dos euro-instalados.

Logo, para rejeitarmos o sacro império burocrático, feito daqueles detentores de um posto de vencimento e que, a si mesmos, se consideram como os únicos iluminados pela justa ideia da construção europeia, não podemos aceitar que os mesmos continuem a pavonear-se como os falsos missionários que assumem a mandarinal missão da conquista da felicidade para todos.

Portanto, espero que possas continuar homem livre e  que me digas em que partido vais votar, para dizer sim à Europa, contra o eurofatalismo com que nos ameaçam as grandes oligarquias dos impérios europeus frustrados.

 

José Adelino Maltez