CONTRA A RAZÃO DO EURO-ESTADO
José Adelino Maltez
Quando a excelente contabilista pública que é a ministra Manuela Ferreira Leite, assumindo o serôdio autoritarismo tecnocrático, destrói os argumentos políticos dos adversários, proclamando que alguns deles não são economistas, quase apetece pedir-lhe que deixe a política para os políticos e que não mais disserte sobre quais são funções essenciais do Estado, só porque foi presidente da comissão distrital de Lisboa do partido de António Preto e Isaltino de Morais.
Logo, é com todas as reticências que tentarei protestar contra o facto de se ter posto a hipótese de venda das dívidas do fisco a um especulador saudita, por mais argumentos de engenharia financeira com que se justifique o processo. Com efeito, seguindo a prática dos nossos reis pré-inquisitoriais, seria bem melhor recorrermos aos tradicionais financeiros judeus, até para os ressarcirmos dos prejuízos causados por D. Manuel I.
É evidente que não acreditamos que o recurso ao compatriota de Bin Laden seja uma dessas manobras ocultas destinadas a justificar a intervenção da GNR no Iraque e mais perverso seria estarmos perante um expediente destinado a obtermos mais um favor de Rumsfeld.
Mas mais ridícula foi a utilização do Panteão Nacional para fins de promoção editorial de um "best seller", dado que assim caminhamos cada vez para elevarmos a realidade política à categoria da ficção "pimba", conforme o ritmo dos noticiários da TVI, onde, depois de longas descrições dos exames directos sexuais da medicina legal, o mesmo locutor logo anuncia as lágrimas de cera de uma imagem religiosa na Anadia, antes de teorizar sobre a poesia de Sophia de Melo Breyner, com o máximo dos despudores. Não faltam sequer as imaginações dialécticas em torno do tabu de Ferro Rodrigues, a viagem de Cinha Jardim aos Estados Unidos, como acompanhante do ministerial ocupante de S. Julião da Barra, ou o ritmo "big brother" dos projectos arquitectónicos de Pedro Santana Lopes.
Quase apetece reconhecer, como li num desses comentários "on line", que "estamos todos um pedacinho grávidos de pai incógnito", porque grassam, nos meandros da politiqueirice, as terríveis bactérias da incompetência e da imoralidade, sem que os antibióticos genéricos surtam efeito, porque estão eventualmente inquinados pelo desleixo da não-luta contra a corrupção.
Culminando este ritmo esquizofrénico, a questão europeia parece enredar-se nos velhos complexos que marcaram as venerandas metodologias do regime derrubado em 25 de Abril de 1974, quando, muito dogmaticamente, se afastava a hipótese de instauração da democracia, porque não podíamos discutir matérias de Deus, Pátria e Família...
Paradoxalmente, alguns dos que se insurgiram contra essa tolice do "ancien régime", quando andavam pela extrema-esquerda dos "filhos família", vêm agora escrevendo que a Europa se reduz à via unicitária da tal Constituição que ainda não está feita, e tudo por causa da globalização. Que quem não é pela dita é nacionalista. Que os nacionalistas são de direita. Que a direita é fascista. E que quem não seguir esta inteligência binária está contra o progresso, a civilização e a salvação da humanidade.
Para cúmulo do ridículo, não tardará que alguns ministros do mesmo "ancien regime", ainda em ritmo de propagação de sentenças, venham a terreiro culminar o respectivo percurso ultra-situacionista, alinhando com a perspectiva gerontocrática de Valéry Giscard d'Éstaing e invocando a postura de Frei Bartolomeu dos Mártires em apoio a Filipe II.
Mas quem acredita na Europa como democracia de muitas democracias e como nação de nações, desde os próprios federalistas autênticos, os herdeiros de Proudhon e da lógica antijacobina, aos que, em nome da nação libertadora, querem dividir para unificar, de acordo com os pais-fundadores do projecto europeu, resistirão na defesa do necessário pluralismo que sempre foi unidade na diversidade, contra a lei da unicidade.
Talvez os secretos defensores da independência nacional, que têm de parecer alinhar, por disciplina de filiados, com os programas eleitorais do Partido Popular Europeu e do Partido Socialista Europeu, porque integrados nas secções nacionais dos mesmos, do PSD-PP ao PS, possam, na hora da verdade e do voto secreto, assumir a autenticidade dos que estão contra a Razão do Euro-Estado que, furtivamente, nos ameaça.
maltez@netcabo.pt