2 de Fevereiro 2003
De vez em quando quase apetece repetir o socrático “só sei que nada sei”, não para o interpretar cartesianamente, pela dúvida metódica, do “penso, logo existo”, mas para agradecer a Deus e aos deuses, a existência de pessoas que, aqui e agora, ainda têm corajosas convicções para lançarem uma operação de luta contra a imoralidade, a corrupção e a desnacionalização.
Nesta batalha da opinião em que todos estamos envolvidos, os que não têm acesso aos segredos de Estado e aos segredos de justiça, conhecendo apenas aquilo que os poderes efectivos permitem que apareça à luz do “mass media”, obrigam-nos a assistir a um nebuloso jogo de sombras, com cordelinhos e caras de cêra emborrachadas, a serem formatadas e manipuladas pelas ocultas mãos do efectivo poder, onde a informação se confunde com a contra-informação e o povo com os figurantes recrutados pelas agências de “casting” para os “bombásticos”.
Por seu lado, os adeptos da teoria da conspiração, na falta de carbonárias ou jesuíticas congregações, e sem poderem invocar manobras da CIA e do KGB, persistem nos velhos tiques da manipulação, ou repetem panfletos com linguagem das muitas “cassettes” que tiraram do congelador e do caixote do lixo da história.
Nestes termos, se é muito difícil analisar em terreno tão armadilhado e tão prenhe de mistérios, bem mais arriscado é prever, aconselhar ou opinar. Mas quem como quem cala, pensando que nada diz, acaba por consentir, tentarei uma profecia bem alumiada pela razão, dizendo, com toda a certeza, que, neste processo, “vai acontecer o inesperado”.
Portugal e os portugueses, todos e cada um de nós vamos ter que reentrar na atmosfera crítica das decisões concretas, depois de uma longa viagem espacial, pelo que poderemos estar sujeitos a um desses normais anormais do acidente, se persistirmos nos vícios da mera metodologia empírico-analítica, dos que apenas fazem doutos prognósticos depois de acabar o jogo, ou de se verificar o desastre.
Começando pela “space shutle” portuguesa, diremos que a nau da governança está bem mais antiquada que o “Columbia” e os nossos submarinos. Servia às mil maravilhas para antigos homens do leme, como os timoneiros Soares e Cavaco, mas os respectivos engenheiros sociais ainda não perceberam que, neste momento, há mais de meio milhão de portugueses com um curso dito superior, quase três vezes mais do que há dez anos, enquanto o sistema dos despojos voltou a pintar de laranja, com riscos portistas, o que eram os róseos “jobs for the boys”, continuando a falta de vergonha do compadrismo e da Dona Maria da Cunha saneadora da competência.
Há um novo país de novos insatisfeitos sem direito à emigração e ao emprego qualificado, que não são os reprimidos rurais do Alentejo e Ribatejo ou os assalariados da cintura industrial de Lisboa que berraram nos primeiros de Maio de 1974 e 1975, que foram à guerra colonial ou que beneficiaram dos juros bonificados da banca nacionalizada, nossa e que, depois de serem marcelistas, spinolistas e otelistas, acabaram por se congregar em torno de Mário Soares.
Também já não há os empregados da banca e dos seguros que beneficiaram com a pós-revolução, nem os desiludidos dos salários em atraso que, fartos da Dona Branca e do gato por lebre da febre de Pedro Caldeira, saudaram Cavaco Silva e a adesão à CEE.
Há uma nova geração que ainda não escreveu a sua própria história, que está farta de promessas por cumprir, que vive uma nova comunidade de significações partilhadas e que ainda pode ser convictamente portuguesa. Por isso dói, saber que um dos nossos principais entertainers, desde o glorioso Zip-Zip, alguém que sempre considerámos íntimo e com quem partilhámos laços de afecto quase familiar, pode efectivamente ser o principal símbolo da falta de autenticidade.
Estamos à espera. Porque se o aparelho judicial e policial cometeu um erro, novo desastre se anuncia, com um dos pilares do Estado de Direito a ser afectado, tanto no seu prestígio como na sua necessária autoridade. Esperemos para ver.
Julgo ter chegado o tempo dos homens de convicção que sejam magistrados ou polícias, bastonários da Ordem dos Advogados, jornalistas ou simples conhecedores da verdade. E como cidadão que não votou nem em Sampaio, como Presidente da República, nem nos partidos que fizeram elevar Barroso a primeiro-ministro, quero aqui declarar que confio tanto nestes dois como nos meus antigos alunos que agora têm a missão de aplicar os valores que nos regem, no âmbito das regras processuais que escolhemos. Espero que, a nenhum deles, possa aplicar-se o que Joaquim Mouzinho de Albuquerque disse do chefe do governo de então: “a minha superioridade consiste em ter apenas uma cara ... Vossa Excelência, sendo um político, não tem apenas uma”.
Por isso, não acredito que o regresso do caso da pedofilia tenha sido manobra dos que não querem que os portugueses tenham opinião sobre a crise iraquiana e sobre a carta que o nosso chefe do governo subscreveu e que serviu para certos governantes norte-americanos proclamarem que assim surgiu uma nova Europa contra a velha Europa dos fundadores da CECA e da CEE.
Sei tanto dos dados do Iraque quanto dos fundamentos da detenção de Carlos Cruz. Tanto espero pelas provas, como pela aplicação das parcas regras de direito internacional e pelas decisões da Organização das Nações Unidas.
Apenas me custa que, numa operação de propaganda de guerra, tenha constatado a quebra de consenso dos dois principais partidos democráticos portugueses em matéria que, sendo, por enquanto, de política externa, pode, em breve, transformar-se em questão de política de defesa nacional e de segurança interna.
Espero que o consenso seja imediatamente refeito, com a necessária intervenção dos mecanismos institucionais previstos na Constituição e o bom senso cooperativo de outros órgãos do Estado, como o governo regional dos Açores. Se não subscrevo os temores do Professor Diogo Freitas do Amaral, porque não acredito numa geométrica secura da justiça impotente, nem numa juridicista defesa sem armas ou vontade de lutar, também não alinho na fúria dos neoconservadores de importação intelectual, que, do silogístico e coerentíssimo mestre, fizeram um mártir.
Discutamos amplamente a questão e, depois da decisão, congreguemo-nos em unidade nacional, para podermos falar a uma só voz, com a de Mário Soares, sem alguns serôdios impulsos juvenis, a afinar pelo mesmo diapasão da que tem, de vez em quando, Durão Barroso, desde que este tenha o necessário consenso de Jaime Gama, cujo discurso parlamentar aplaudo na totalidade. É assim que um país de oito séculos de resistente autodeterminação deve agir em momentos de crise nacional e internnacional.
Não me esqueço que, durante o PREC, os norte-americanos do neo-realismo político, bem interpretados pelo kissingerianismo, tanto admitiram que nos poderíamos transformar, numa vacina comunista para a Europa ocidental, como preferiram subsidiar o MRPP e desdenhar de Sá Carneiro, em favor de Soares. Valeu-nos, nessa altura, a militância da tal velha Europa, dos alemães e dos franceses, da aliança luso-britânica e da solidariedade de quase todos os outros parceiros da CEE, da inicial e da alargada, bem expressa pela gestão dos Delors e Kohl.
E agora, bem gostaria de poder seguir a ideologia internacionalista expressa por João Paulo II e assumir, como aliado dos norte-americanos e dos britânicos, uma neutralidade activa, mantendo a minha reserva de valores universais e de ponte entre a política transatlântica e o mundo islâmico. Bagdad está aqui bem perto, como, por exemplo, na Fundação Calouste Gulbenkian, e até não é ficção da CNN a circunstância de Rabat estar mais próxima de Lisboa do que Madrid.
Aliás, o mítico desastre nacional de Alcácer-Quibir, quando a nossa política mundial optou pela derrota, nunca teria acontecido se el-rei D. Sebastião tivesse ouvido o avisado conselho de D. Jerónimo Osório, num tempo ainda podiam falar os que tinham voz própria. Por isso tanto não sou pela carta de Blair, Aznar e Barroso, como não tenho os reflexos condicionados daquele esquerdismo cobarde que fingindo o “make love, not war”, acabou a proclamar o “antes vermelhos que mortos”. Prefiro a coragem da velha Europa, para ajudar os Estados Unidos a seguirem Kant e não caírem nem tentação do Rambo, mesmo que seja necessário chamar Eisenhower, Montgomery, Willy Brandt e Charles De Gaulle.
Temo que, nos próximos dias, entre Carlos Cruz e Saddam Hussein, possam surgir novos imprevisíveis nomes e novos dramáticos casos que abalem aquelas águas mornas do nosso viver colectivo, bem expresso pela observação constante da agenda do Almirante Américo Tomás, no dia 1 de Janeiro de 1974: “no primeiro dia do ano de 1974, tudo se passou como em iguais dias dos anos imediatamente anteriores...”