Da Maria da Fonte à Rainha Ginga

 

Continuando as minhas impressões de viagem a Angola, publicadas na semana passada, direi que voltei a sentir a terra vermelha, o negro dos olhares, o fogo dos poentes, o ardor das pedras e a dor dos imbondeiros. Voltei a sentir a esperança, olhando o mesmo mar do miradouro da Lua ou nos mangais da barra do Kwanza.

 

À maneira de Santo Agostinho, podemos dizer que em 1974-1975 não foi o mundo português que acabou, mas sim um novo mundo português que começou, continuando o essencial das “esperanças de Portugal”. Porque, como diz Arnold Toynbee, “numa civilização em crescimento, a um desafio opõe-se uma réplica vitoriosa que vai imediatamente gerar um outro desafio diferente a encontro do qual se ergue uma outra réplica vitoriosa”.

 

Foi, segundo as palavras de Agostinho da Silva, Portugal a “morrer como metrópole e a renascer como comunidade livre, já que dominar os outros é a pior forma de prisão que ter se pode”.

 

Porque, Portugal, “ao contrário do que tantos dizem, não diminuiu, antes se multiplicou”, dado que “libertando os que mantinha sob o seu domínio, reconhecendo-lhes independência para a vida, renasce em Pátrias”.

 

Porque “o que Portugal foi tem servido para que Portugal não seja”, dado que a ilusão portuguesa de império terrestre teria sido envolvida pela “sorte do capitalismo industrial”.

 

Porque “Portugal, impelido ainda pelo seu afã de mar e sentindo no mar a verdadeira garantia de independência chega, porém, a África, parasitado pela economia europeia e, já, euro-americana e o parasita se desenvolve no corpo são, ou quase, de outrora e lhe trás as dificuldades actuais”.

 

Isto é, a descolonização, ou o abandono, de 1974-1975, em vez de significar o fim de Portugal, talvez tenha sido apenas o fim de certo princípio, obrigando a uma reinterpretação d'Os Lusíadas pela “Mensagem”, dado que “Portugal, o poder ser” passou a estruturar-se através do “mar sem fim”  e a caminho da “república universal”.

 

Nós, Portugal, somos a Europa do Sudoeste e só podemos ser verdadeiramente europeus se assumirmos a maneira portuguesa de entender a Europa. Dessa Europa que desbravou o mar oceano para Ocidente e para Sul. Que descobriu a América e o Brasil, que transformou as Tormentas em Boa Esperança e que peregrinou o caminho marítimo para a Índia, a China e o Japão. A Europa que circum-navegou a terra inteira num “abraço armilar”.

 

Como dizia Fernando Pessoa, foi “por Portugal, pelos Descobrimentos” que se deu “a conversão da civilização europeia em civilização mundial”.

Em suma, acreditamos que valeu a pena o nosso investimento luso-tropical de cinco séculos e que a Europa necessita desta visão portuguesa do universo.

 

Voltando a Agostinho da Silva, direi que talvez importe, agora, conquistar “uma realidade mais alta, aquela que nos permite efectivamente fazer do mar, o mar sem fim, aquela que se comporia do que melhor tiveram Ocidente e Oriente, uniria Cristo e Lao-Tseu e nos daria, num eterno sendo e vir a ser, aquele Espírito Santo que á fusão perfeita do Todo e do seu Nada”.

 

 

Foi-me dado notar que Estado angolano e a nação angolana só podem reencontrar-se se o conceito de libertação nacional se puder conciliar com o sentido universal.

 

Julgo ter compreendido a força dominante de um partido-sistema que já foi partido-único e que, agora, tende a ser uma espécie de partido revolucionário institucionalizado. Mas aquilo que foi uma vanguarda, messianicamente ideológica, pode, agora, volver-se numa plural elite que tem de repensar as heranças da crioulidade genética do nacionalismo angolano, do pan-aficanismo, da negritude, da luta e do próprio afro-estalinismo. Basta que tenha o bom senso de voltar à mãe-terra e de assumir a dor e a esperança de milhões de homens que sofrem as consequências da fome, da peste e da guerra.

 

Julgo ter vislumbrado que Angola se reconhece, muito justamente, como uma potência regional, como um quadrilátero quase brasileiro que, felizmente, não tem os dramas do secessionismo e do tribalismo, e onde é forte a presença, no aparelho de poder existente, de uma experimentada e competente estrutura militar e de uma burocracia potencialmente capaz de responder aos desafios da paz, principalmente dos apetites externos que querem lançar-se sobre a riqueza de um território cheio de petróleo e de diamantes.

 

O esforço de reconstrução que se planeia e anuncia é, de facto ciclópico. Esperemos, apenas, que Angola não continue a ser, sobretudo, para os angolanos, uma oportunidade perdida.

 

Finalmente, uma palavra bem cúmplice relativamente à nossa cooperação com essa terra e essa gente, para quem os portugueses não são apenas “os outros” que por lá passaram.

 

Ambos somos herdeiros de uma tradição feita de luzes e de sombras. De hipocrisias e de fingimentos, de palavras sem conteúdo e de abstractas linguagens de justificação. De certo, que nós, portugueses, apesar do lastro universalista do abraço armilar, também fomos esclavagistas, colonialistas, racistas e paternalistas, quando nos assumimos como agentes do dogma da superioridade civilizacional, desse “white man’s burden”, cristão ou marxista, maçon ou democratíssimo, tão naturalmente difundido que até foi assumido como princípio da Sociedade das Nações.

                                 

Se um dos piores pecados que cometemos foi o de tentarmos apagar a memória desses outros e de procurarmos diluir a respectiva identidade, temos, agora de saudar que, em Luanda, na praça da independência, no pedestal que foi da nossa Maria da Fonte, desapareceu o carro de combate e erigiu-se em símbolo uma também mítica Rainha Ginga. Que as duas mulheres se ergam em nome da mesma “Santa Liberdade”!

 

Julgo que não é desaportuguesando-nos que poderemos compreender a angolanidade. Julgo que não podemos esquecer o bem e o mal da nossa tradição. Aliás, o ser angolano e o ser português podem transformar-se em dois heterónimos de uma só comunidade de homens livres. Se o sonho voltar a tecer quem somos, com imaginação e criatividade, dando valores à razão e boa vontade aos homens.

 

Como dizia Joaquim Barradas de Carvalho, as ideologias passam e as culturas ficam. Os laços afectivos de uma comunidade de amor são o sal que nos pode fazer convergir, se soubermos vencer os etnocentrismos absurdos dessas históricas espirais de violência, tanto físicas como ideológicas, onde os estados de violência provocaram actos de violência e onde as guerras geraram mais guerras.

 

Angola precisa cada vez mais da paz dos bravos, de ser “nação coragem” em reconciliação nacional. E Portugal e os portugueses não podem cair na ratoeira de se tornarem uns quaisquer “outros”, perdidos em contabilidades de mercearia. Porque, sem poder estar, eu também estive em Nambuangongo, e em Mucaba, e tudo vi.