DO FOGO QUE ARDE SEM SE VER

 

Por José Adelino Maltez

maltez@netcabo.pt

 

Há muitas cinzas no ar, uma ostensiva fumarada que nos contamina. Não apenas as dos fogos florestais, que já deixam cheiro a queimado no próprio centro da capital, mas, sobretudo, dos putrefactos sinais de um outro fogo mais larvar, que vai ardendo, mas ainda sem deixar ver o essencial dos respectivos tentáculos incendiários.

 

Há também ilusórias pontes do tédio cujos pilares degenerados nos continuam a apodrecer, enquanto muitos inquéritos e “livros brancos” apenas confirmam que a Dona Culpa persiste em morrer solteira até à próxima remodelação forçada.

 

E, para vergonha de nós todos, até se publica um relatório da ONU, onde, preto no branco, se denuncia o terceiro-mundismo da nossa macrocefalia lisbonense, com a consequente destruição da ruralidade, a autêntica fonte da independência nacional. Apesar da efémera Manuela Ferreira Leite proclamar que tem todo o discricionário ministerial, para poder decretar quais são as funções essenciais do Estado.

 

E neste teatro de sombras, muito do que, por vício do jogo, se proclama, tanto nos discursos do situacionismo como nos comentários dos sub-situacionistas, não corresponde às efectivas intenções do discursante ou comentarista, mas antes aos “slogans” fabricados pelos artistas da comunicação política e às ideias abstractas mimetizadas pelos falsos engenheiros da razão de Estado, com que na véspera se aconselharam.

 

Porque não há um Almada Negreiros capaz de um “manifesto anti-Dantas”. Uma Vera Lagoa, a denunciar a trama. Uma Natália Correia, lançando versos sarcásticos contra os pretensos brandos costumes da hipocrisia. Ou, então, adequadas farpas de um Eça e de um Ramalho, apesar de muitos estarem disponíveis para decretarem a proibição das Conferências do Casino. José Pacheco Pereira continua a ser uma excepção.

 

Assim, uma semana depois da festa do “Avante”, as gentes do sistema insistem nas chamadas “rentrées”, com Barroso a repetir o discurso do ministro dos bombeiros, todo politicamente correcto, e Louçã a questionar as tácticas de Scolari, perante uma multidão de adeptos, tão abundante quanto a que participou num jantar coloquiante do PP, onde um dos colunistas da “network” proclamou que a velha direita é que era anti-americana, não reparando na postura de João Paulo II, a nível da política internacional.

 

Não! Já não há daqueles que sempre viveram como acreditaram, como Henrique Paiva Couceiro, Gomes da Costa, Sousa Dias, Carlos Vilhena, Henrique Galvão ou Humberto Delgado, mas antes casamentos realmente republicanos, para que não foram convidados Mário Soares ou Fernando Nogueira.

 

Os vencedores têm mais a ver com os que, tentando copiar Talleyrand, gostariam de ser o duque de Ávila, utilizando as técnicas de Rodrigo da Fonseca, para que todos os jagunços e “yesmen” continuem a comer à mesa do orçamento. Há muitos que passam de ministros da monarquia para convidados de Afonso Costa, de acordo com regra dos “adesivos”, ou que, indo além do “viracasaquismo” de Vasco Borges, preferem ser como aquele alto maçon, ministro republicano, que, revelando os segredos da ordem, deu argumentos técnicos de alta traição, para a lei de Santos Cabral de 1935. Tudo em nome das prebendas.

 

Apenas falta fazermos o inventário dos que se continuam a servir daquela interpretação que utiliza como pretexto a relação de conúbio entre a Constituição de 1933 e a Constituição de 1976, reduzindo ambas à mera continuidade do Estado de Legalidade hipócrita.

 

Apesar de tudo, ainda acredito nas instituições policiais e judiciais, esperando que se extirpem as fumaradas e se recuperem algumas das provas eventualmente incineradas pelas cumplicidades das redes da impunidade. Dona Culpa não pode continuar a viver em regime de união de facto com o Senhor Estado.

 

Aliás, ninguém consegue vislumbrar um único facto cultural de direita que tenha sido produzido a nível dos actuais aparelhos ideológicos, a não ser o seguidismo face àquilo que foi a propaganda de guerra do intervencionismo de Washington ou os comentários de um potencial Primeiro-Ministro, que desistiu por causa de um actual Ministro. Os grandes conselheiros da prosápia ministerial só devem ter acedido às teses de Leo Strauss através das recensões da “Foreign Affairs” e nem sequer repararam nas reticências com que os teóricos do neo-realismo saudaram a falta de sentido universal das teses de Rumsfeld.

 

Relendo as histórias dos escândalos que abalaram Costa Cabral em 1850, os meandros que marcaram o caso Alves dos Reis antes do 28 de Maio, todos continuam a clicar nos “sites” do “GOVD” e do “Reporter X”, antes de o “Expresso” os confirmar, enquanto o Professor Boaventura Sousa Santos permanece como a principal inspiração ideológica da formação dos nossos magistrados, o Professor Fernando Rosas marca a interpretação da história do Portugal Contemporâneo que é fornecida aos nossos adolescentes nos programas obrigatórios do ensino público, e outros colunistas vão enchendo, com colunas exógenas, templos que pensavam estar imunes à coisa, apesar dos subsídios. Quando valiam mais dois ou três textos de Joaquim Pedro Oliveira Martins, Raul Brandão ou Virgílio Ferreira, e a solução do ovo de Colombo, mesmo a que implica uma certa revisão constitucional sobre as magistraturas e os novos modelos de direito penal e processual penal.

 

Quem ultrapassar toda esta explosão de hiper-informação que nos vai intoxicando, pode reparar que a causa do presente confusionismo está no facto de sermos dominados por uma direita e por uma esquerda, geradas pelo utilitarismo e pelo hedonismo, onde abundam, no subsolo das respectivas arquitecturas, os tais plagiadores do falso realismo político que pensam deter o paradigma do patriota, quando apenas teorizam o óbvio, depois do mesmo se consumar, só porque tiveram, ou têm, poder para mandar morrer soldados em areias distantes.

 

Os que consideraram, muito cientificamente, que Timor apenas podia ter autonomia cultural, desde que politicamente integrado na Indonésia. Os que teorizaram a Guiné-Bissau como uma coisa artificial que não conseguia ser nação, são exactamente os mesmos que, mais recentemente, consideraram inevitável que os espanhóis pudessem gerir as nossas duzentas milhas, apesar de se absterem de análises sobre o “Prestige”, só porque nunca poderiam clamar “nunca mais”.

 

Muitos quase subscrevem os comentários dos jornais castelhanos, sobre o recente episódio de inclusão de Olivença no “factbook” da CIA, onde se diz que Madrid “recuperou” a praça em 1801, porque D. Dinis a roubou na Baixa Idade Média, aproveitando a crise do império peninsular. E lá me sinto aliado do nacionalismo basco e catalão, sempre que o castelhanismo emite o subconsciente da Espanha “una, livre e grande”, muito “de mar a mar, sem Portugal nem Gibraltar”. Porque assim fica este Portugal também ameaçado de “reconquista”, quando deixarem de existir as circunstâncias de política internacional que o “fizeram independente”. Como se a Espanha não tivesse apenas surgido em 1516, usurpando um nome que pertencia todos os reinos ibéricos.

 

Há uma direita instalada, marcada por certa ruminação de “slogans” ideológicos que nunca há-de compreender a circunstância de, na base deste descalabro espiritual e moral, estar a ausência de metafísica e de transcendente, mesmo que seja a maçónica ética republicana, com a sua política de espírito.

 

Está prestes a ser iluminado por potentes holofotes, este nosso teatro de sombras onde continuam a manobrar as cardinalices daqueles que, entre o réptil e o molusco, persistem em trejeitos de raposa e discursos de cordeiro, depois de fomentarem durante longas décadas as linhas mestras de um positivismo serôdio.

 

Mas em breve saberemos dos passos dados por certas infra-governantas do sistema, esses que nem sequer são “adesivos” ou “vira-casacas”, porque nunca realmente serviram qualquer dos sucessivos sistemas que os prebendaram, dado que apenas os instrumentalizaram psicopaticamente, para gerarem neofeudais obediências pelo temor, em nome do poder pelo poder.

 

Em breve surgirão documentos da história vivida onde finalmente conheceremos os autores de manifestos saneamentos e de sucessivos assassinatos morais, esses que, até agora, conseguiram que o crime compensasse, transformando rejeições morais que lhe foram movidas em caricaturais perseguições políticas. Esses que mentem tão insistentemente que até já pensam ser verdade a própria mentira que fabricaram, inimputavelmente.

 

Muitos há que, sem o comando interior do transcendente, vivem em angústia quotidiana face à sua inevitável finitude. Exímios no comando do império do efémero, têm beneficiado do revisionismo histórico que fomentam dolosamente. Apenas esquecem muitos registos para memória futura constantes dos arquivos abertos ao público, em Lisboa e Washington e noutras casas particulares de ofendidos e vilipendiados. De nada vai valer esse fingimento de tolerância que fabricaram de forma calculista, quando elogiaram artificialmente os adversários que lhes são convenientes, ou planearam cinicamente pretensas amizades, de acordo com o modelo do sindicato florentino dos salamaleques mútuos.

 

E lá continuam alguns hierarcas do sistema a julgar que é possível continuar a tapar o sol com uma peneira, por considerarem que o povo não repara que o rei vai nu. Nem sequer conseguem vislumbrar que a rede mediática que gerou os actuais “heróis políticos” está contaminada pelas ramificações do nosso doméstico “eixo”, estruturador do “spoil system”. Os que nasceram e cresceram pela falta de autenticidade, não conseguem concluir que quem com ferro matou, com ferro pode morrer, quando, de novo, se puder medir popularmente a distância que vai daquilo que se proclama àquilo que se pratica.

 

Com efeito, o actores mais “in” do nosso situacionismo, aqueles que ascenderam às culminâncias governativas manipulando o Estado-Espectáculo, através da tríade “imagem, sondagem e sacanagem”,  depois de assistirem à última homília do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, não o podem qualificar como mero comentador de bancada, porque ficou demonstrado que aqueles que se ilusionam em comandar a trama não continuarão eternamente em regime do benefício do infractor.