Não estranhem, amigos eleitores, mas, nesta crónica quinzenal, não irei gastar a minha portugalização do latim, dando ferroadas em louçãs e carvalhas, pauladas em durão e sampaiadas no presidente. Apetece mais proclamar que nem todos os antifascistas de ontem sempre foram democratas, tal como nem todos os democratas de hoje são necessariamente antitotalitários. Por isso, tentarei olhar mais longe, isto é, olhar para cima e olhar para dentro, sempre em defesa das fronteiras do núcleo duro do Estado de Direito Democrático e do pluralismo.
Cedendo às razões do coração e ao apelo da ética da convicção, sempre me enfileirei nas causas dos que querem viver como pensam, sem pensaram como vão vivendo, pelo que continuo a saber dizer “não” aos apelos do poder pelo poder, mesmo que eles se disfarcem entre as ramadas do “jardim das delícias democráticas”.
Confesso que, pelo contrário, sempre me fascinou o chamado "poder dos sem poder", esse supremo poder de nos colocarmos acima das materialidades do poder, desprezando as respectivas cortes, assessorias e corredores, onde proliferam os pretensos excelências que, dizendo ter lido Nicolau Maquiavel pela via dos "Chicago boys", querem ser homens de sucesso em grupos de sucesso.
Por isso é que, quando era moda ser de esquerda, sempre me declarei de direita e que, agora, continuando a acreditar nos mesmos valores, não sou capaz de alinhar com a direita que politicamente nos diz governar e que, através de alguns avençados, se vai culturalmente manifestando pelo direito de antena. Porque ela continua a ser a direita que convém à restrita tribo da esquerda que, intelectualoidemente, nos domina, no poder infra-estrutural, e que tanto se vai gastando, pelo mau uso, como quase se vai prostituindo, pelo abuso.
Quem se sinta conservador nos princípios, reformista nas metodologias e radical nos objectivos, tem que revoltar-se perante a inércia banco-burocrática e o burguesismo "jet set" que nos continuam a dividir em castas. Por outras palavras, quem se pense conservador do que deve-ser tem que rejeitar os que pretendem conservar o que está, especialmente no plano social.
Quem se assuma como reformista, isto é, como anti-revolucionário, tem de repudiar os mitos da Revolução Francesa e das suas filhas dilectas, desde a revolução soviética, que só terminou em 1989, com a queda do Muro, às frustrações dos impotentes utópicos do Maio 68, que agora marcam o PS e o Bloco de Esquerda.
Quem, muito radicalmente, procure ser fiel à militância de cada um viver como pensa, sem pensar como vai vivendo, está, obviamente, contra o maquiavelismo, o utilitarismo e o pragmatismo, que dominam a coligação no poder.
Não me repugnam, pois, os epítetos de conservador e de liberal, à maneira daquela herança contra-revolucionária que, em vez de uma “revolução ao contrário”, sempre quis “o contrário de uma revolução”, numa perspectiva mais "wigh" do que "tory", onde o tradicionalismo impõe a procura daquele consensualismo anti-absolutista que os neo-românticos e os regeneradores redescobrem nos originais factores democráticos da política, com a "polis" grega, a "res publica" romana e o "regnum" medieval.
Não preciso de ser socialista para chamar os bois pelos nomes e fazer, segundo a postura também conservadora de Daniel Bell, uma análise das contradições culturais daquele nosso capitalismo que, conforme um dito de Ramada Curto, tem “a verdadeira vocação” de “socializar os prejuízos e individualizar os lucros”.
Foi esse modelo mental que inventou tanto o “comunismo burocrático” como o “socialismo de consumo”, os grandes dogmas desta democracia pós-revolucionária.
Daí que binarizarmo-nos em termos de esquerda e direita, apenas serve para ocultarmos o real contrapoder que vai apodrecendo a nossa democracia e cujo mal não vem do Estado nem do Mercado, mas das razões de Estado e das razões de Mercado que, dizendo-se éticas de responsabilidade, não passam de péssimas morais e de péssimas políticas, porque nos querem atirar, ora contra os ricos, ora contra os pobres.
Porque, como reconhecia António Alçada Baptista, numa carta dirigida a Marcello Caetano, no ano de 1970, “em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há poucas”.
Acresce que a falta de conciliação entre a honra com a inteligência, para citar D. Miguel I, depois da derrota, foi sempre o drama de todos os regimes políticos portugueses, porque os políticos que deles se têm servido, sem nos servirem, não têm a coragem de viver como pensam, “metendo as ideologias na gaveta” quando sobem ao poder e vivendo uma heteronomia cobarde, de quem tem o coração num lado e a chamada razão no outro.
Por isso é que um liberal, hoje, enquanto liberdadeiro e libertacionista, já não é apenas liberalista, tendo que ser personalista, comunitarista e cosmopolita, casando o nacionalismo com o universalismo e a justiça com a liberdade. Porque, como reconhecia o nosso histórico regenerador, António Alberto Morais de Carvalho, “os abusos do poder têm sido a causa eficiente de grande parte das revoluções”, onde “os homens atribuem às instituições os males que, muitas vezes, só provêm dos abusos”.
Face à presente experiência dos coligados governamentais e à alternativa surgida do Congresso do PS, concluirei dizendo que importa ter a coragem de não continuar por eles a ser arrebanhado, proclamando a necessidade organizacional daquela minoria que sabe que a saúde não deixa de ser um bem, mesmo que só haja doentes no mundo.
Tal como sempre, importa proclamar a necessidade de uma prévia revolução moral ou cultural, como dizia Péguy. A insolência de quem diz não ao “politique d'abord”, preferindo o primado do espiritual. A serenidade histórica daqueles que não se importam em defrontar os ventos da história e as ondas da moda, bem como os ciclos políticos onde permanecem os fantasmas de direita e os complexos de esquerda.
Julgo que chegou a hora de acordarem todos os radicais do centro, todos os que, muito excentricamente, sendo de direita ou de esquerda, não querem estar, nem votar, nesta direita e nesta esquerda, rejeitam o centrismo e repudiam a mentalidade de Bloco Central, mesmo a que se disfarça nas peles dos independentes. Chegou a hora de derrubarmos o muro da vergonha que maniqueisticamente continua a dividir-nos politicamente entre Deus e o diabo, entre um pretenso bem e um pretenso mal, onde bem e mal se confundem nas respectivas posições antitéticas. De outro modo, chegará a Maria da Fonte que, mais uma vez, será derrotada por uma nova Convenção do Gramido.