Por José Adelino Maltez
O factor Bush e a consequente crise Iraque constituíram, para o actual sistema político português, um verdadeiro cataclismo, demonstrando como os reizinhos do poder aparente iam efectivamente nus. O tal sistema, afinal, não passa de um desarticulado conjunto de cadáveres adiados que vão procriando manifestos, tal como os grandes líderes do situacionismo e do oposicionismo que, em “slogans” se pavoneiam, apenas são simples estátuas com pés de barro. Hão-de todos diluir-se no lodo que os sustenta. Só não sabemos quando. Nem eles. Que um quarto de hora antes de morrerem, parecem estar ainda vivos.
Assim, aqueles que continuam a viver como pensam, tendo a lúcida ingenuidade de nem sequer pensarem como hão-de viver, devem assumir a autenticidade da resistência e, no seu íntimo, emitir um adequado manifesto anti-dantas contra os devoristas desta camarilha que nos comanda, entre jantaradas, negocismo e ocultos financiamentos partidários, conforme vão inventariando os vários serviços secretos de potências estranhas que sucessivamente os chantageiam.
Já acabou o tempo das farpas da elite intelectual contra os duques de Ávila, a fim de que o bonacheirão do Zé Povinho permaneça céptico, para plagiar João Chagas. Outros valores mais altos se alevantam e, se já não há nenhum rei que possa ser assassinado pela acção espontânea de um qualquer buíça, permanece a mentalidade ridiculamente rotativa que, conservando-se, de vitória em vitória, está prestes a estatelar-se numa derrota final, para, de novo, tentar renascer através do adesivismo e do viracasaquismo.
Entalados entre dois MRPPs, pudemos verificar que trinta e seis intelectuais subsidiados pela FLAD se manifestaram, apoiando uma carta desencadeada pelo Wall Street Journal. Logo a seguir, outros não sei quantos ingratos, ex-subsidiados pelas mesmas fontes, trataram de contra-manifestar-se. Uns e outros continuam a pensar que o país é o respectivo umbigo, só porque o mesmo país não pode furar o cerco comunicativo desta democratura.
Uns e outros são duas faces da mesma casta que continua a proibir que a grande maioria tenha voz. Ambos são a simples expressão dos herdeiros da costela inquisitorial-colectivista, refinada pelos sucessivos intervencionismos do pombalismo estadualista, de marxistas brancos a marxistas vermelhos, que não deixam de o ser só porque têm a cobertura do poder eclesiástico.
Uns e outros servem livros únicos de sinais contrários, onde as sacristias congreganistas se misturam com os activistas das células do neo-realismo, para que a permanecente censura lhes dê direito à sobrevivência.
Não é por acaso que, de um lado da mesa do orçamento, se perfila o “pólo conservador” do Dr. Portas, com os seus naranas e cardonas, logo aplaudido pelo “jet set” que foi ao almoço de homenagem ao grande comunicador Carlos Cruz. Os mesmos que mandam chamar aos generais que resistem, generais sem vergonha, como se pudessem usar, sem corarem, a tal palavra vergonha.
Não há meio de perceberem que, das muitas direitas e das muitas esquerdas que permanecem, há algumas que já não obedecem aos tradicionais marechais, da direita e da esquerda, a esses eucaliptos que gostam de estar com Deus e com o Diabo, comendo em todas as manjedouras, só porque pensam que, depois do respectivo epitáfio, virá o dilúvio.
Ficando-me pelas direitas, sempre direi que, se o dr. Portas segue o modelo Berlusconi e o Dr. Durão, a escola de Aznar, pode ser que muitos outros recusem a liderança de Marcelo Rebelo de Sousa, Daniel Proença de Carvalho, Morais Leitão e outros defuntos seguidores da Fundação Século XXI e de mais afundações subsidiadoras. Há uma eterna direita europeia, que vai dos seguidores de João Paulo II aos próprios gaullistas franceses, e pode ser que, por cá, talvez haja muitos que queiram, de novo, entoar A Portuguesa, em nome de um republicanismo capaz de mobilizar os próprios monárquicos, entre o regresso da Liga Liberal e a restauração da Liga Patriótica.
Já chega desses reformistas encartados, desses filhos da fusão e do Bloco Central que, alcandorados à categoria de reformadores do sistema político e de reformadores da educação, escrevem muitos livros subsidiados pelos entes que eles próprios geraram. Ainda noutro dia vimos o actual Primeiro-Ministro apadrinhar uma dessas reformas, proposta pelos tais professores-primazes, para que, à noite, aparecesse um antigo ministro socialista, a dizer que, afinal, foi ele que a pagou, e para que, no dia seguinte, ficar eu a saber que uma muito badalada universidade privada também subsidiou qualquer coisa do mesmo género tecnocratês e da mesma primazice.
Quando acabar o julgamento da Moderna e a investigação sobre as redes pedófilas, julgo que muitos dos que agora continuam a aparecer não poderão continuar a lavar as mãos como Pilatos, porque a culpa não morrerá totalmente solteira. Os pés de barro que sustentam alguns figurões ministeriais, deste e de anteriores governos, ruirão inevitavelmente.
Antes que o desastre sobreviva e porque não chega a lógica dos bons merceeiros orçamentais, importa preparar o terreno das ideias e dos valores. Portugal não cabe apenas entre dois MRPPs, mesmo que um se chame Durão Barroso e outro dê pelo nome de Ana Gomes. Portugal é maior do que o espaço que vai de Freitas do Amaral à senhora Odete Santos. A pátria não tem que ser comprimida entre Mário Soares e Rui Machete. A inteligência lusitana não vegeta apenas entre J. Carlos Espada/ Luís Delgado e Boaventura Sousa Santos/ Francisco Louçã.
Há um espaço maior que tem de se libertar do medo. Há maçons que são maçons e católicos que são católicos, mas que, nem por isso, deixam de ser portugueses. Há liberais e socialistas que não leram pela cartilha de Salazar, Mao Tse Tung, Lenine ou Estaline. Há muitos homens livres que detestam a matriz de certos colectivismos inquisitoriais e estalinistas. Acordem! Repitam, contra quem nos quer fazer decair, o belo gesto do boneco de Rafael Bordalo Pinheiro, encham de crepes a estátua de Camões e cantem em surdina o heróis do mar. Os tais generais sem vergonha do respectivo passado, que tanto foram capitães de Abril como nos livraram de Vasco Gonçalves, quando a linha de Cascais estava no exílio da conveniência, ainda sabem pensar Portugal. E o povo, que não tem medo, pode ser que volte a sustentar os homens livres que não precisaram dos subsídios do Senhor Frank Carlucci. Há um Portugal-Portugal e uma democracia-democrática que ainda têm companheiros na Europa. E muitos. O resto é fumaça...
(2 de Março de 2003)